Léxico: «antecedentes»

Imagem do Diário de Notícias

Só criminais


      «Mia Wasikowska, a jovem e loura australiana de 20 anos com antecedentes polacos, conhecida dos americanos apenas da série da HBO In Treatment, e escolhida por Tim Burton para interpretar a sua Alice, quase cora quando confessa aos jornalistas que a rodeiam: “Nunca vi muitos filmes de Walt Disney quando era pequena, porque me afligiam emocionalmente.”» («Uma Alice australiana que veio do ‘ballet’», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 3.3.2010, p. 29).
      Não são todos os dicionários que registam o vocábulo assinalado na acepção usada no texto. O Houaiss é a excepção: «ascendência de uma pessoa, grupo, povo; ancestrais».

[Post 3204]

Uma acepção de «descontar»

Dê-se-lhe o desconto


      «O livro do jornalista daquele semanário britânico refere ainda que o sucessor de Tony Blair chegou a descontar a sua fúria numa teclista de Downing Street, arrancando-lhe o teclado das mãos e escrevendo ele mesmo a mensagem pretendida» («Ataques de fúria no número 10 de Downing Street», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 25).
      Não são todos os dicionários que registam a acepção do verbo descontar usada no texto citado. O Dicionário Houaiss regista-a, afirmando derivar por metáfora do sentido original e ser de uso informal. Informalíssimo, na verdade, e a jornalista deveria ter tido mais cuidado.
      Quanto a teclista, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, é somente a «pessoa que toca instrumentos de teclas», o Houaiss desconhece (regista tecladista, o que toca teclado de instrumento musical e, no âmbito das artes gráficas, o que opera o teclado de máquina compositora ou fotocompositora), o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa reconhece mas não regista.

[Post 3203]

Tradução: «Cabinet secretary»

Diversidade


      «A situação é de tal ordem que o próprio ministro da presidência do Conselho de Ministros, Gus O’Donnell, teve que chamar à atenção o actual inquilino do número 10 de Downing Street. É o que conta agora o jornalista Andrew Rawnsley, do semanário Observer, no livro The End of the Party, ou seja, O Fim da Festa (ou “do Partido”)» («Ataques de fúria no número 10 de Downing Street», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 25).
      Sir Gus O’Donnell é, desde 1 de Agosto de 2005, Cabinet Secretary, lê-se no sítio do Cabinet Office. Nem sempre é fácil, por não haver perfeita correspondência de instituições e de cargos, traduzir satisfatoriamente. No caso, a jornalista fez corresponder a cabinet secretary ministro da presidência do Conselho de Ministros. O Correio do Minho, porém, acha que Gus O’Donnell, e afirma-o a propósito do mesmo caso, é o «chefe da Função Pública». O Público, por sua vez, não tem dúvidas em dizê-lo «secretário do gabinete do chefe do Governo». O Económico apresenta-o como «Secretário Permanente do Governo». Já no Brasil, a Folha online quer que ele seja «secretário de Gabinete (cargo mais alto do funcionalismo público britânico)». Para o Jornal do Brasil, mais seco, é o «secretário de gabinete». Fiquemos por aqui.

[Post 3202]

Tradução: «intelligence»

Não precisamos


      «“Estas pessoas eram financiadas pela PIDE e por certos serviços de inteligência de países ocidentais”, sublinha Duarte de Jesus [autor da obra Eduardo Mondlane — Um Homem a Abater. Coimbra: Editora Almedina, 2010], acrescentando que estes se infiltraram na Frelimo» («PIDE será uma das responsáveis pelo assassínio de Mondlane», Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 27).
      Dos dicionários que aqui tenho à mão, só o Houaiss regista o anglicismo semântico inteligência. Para todos os efeitos, é um falso cognato a cuja inteligência nem todos os falantes chegam. Lula da Silva, julgado semianalfabeto por muitos, disse uma vez: «Acções de inteligência em geral se revelam acções de extrema burrice.»

[Post 3201]

Patronímicos judaicos

Bar


      O ponto de partida era um texto em língua inglesa: «He gathered about Him a group of disciples, prominent among who were Simon bar Jonah and his brother Andrew, and the two sons of Zebedee, John and James. The formation of “the twelve” was a choice of Jesus Himself in His ministry.» Em português, vê-se de tudo: Simão Bar-Jonas, Simão Barjonas, Simão bar Jonas, Simão Bar Jonas. Na cultura familiar da época, os filhos eram nomeados pelo patronímico: «Jesus disse-lhe em resposta: “És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu» (Mt 16, 17). «Simão bar [filho de] Jonas». Na Vulgata, e concretamente no Evangelium Secundum Matthaeum, lê-se: «Respondens autem Iesus dixit ei: “Beatus es, Simon Bariona, quia caro et sanguis non revelavit tibi sed Pater meus, qui in caelis est.”» Este costume, na realidade, perdurou, um pouco modificado, até há pouco tempo nos meios rurais e nas pequenas vilas portuguesas. O Joaquim [filho] da Brígida. Mas voltando ao bar. Só quando o aramaico substituiu o hebraico como língua falada é que bar se veio substituir a ben, mas o significado é o mesmo. Imanuel ben-Iossef, conhecem?

[Post 3200]

Léxico: «lora»

Ó vergonha!


      Na emissão de ontem do concurso Falaescreveacertaganha, mais uma escorregadela. Na prova «Quem não Rimar Vai ao Ar», Pedro Castro, o apresentador, lançou o desafio: «Hora, que rima com namora e...» Leonor Rocha, da Escola EB 2,3 João Afonso de Aveiro e elemento da equipa Estrelas-do-Mar, respondeu de imediato: «Lora.» Sentença injusta: «O que é que é “lora”? Foi a primeira coisa que te veio à cabeça. Mas, neste caso, interrompeu-se a cadeia de rimas. Os pontos vão para a equipa Unifour.» O concurso não tem júri? E dicionários? Lora ou lura — é a toca dos coelhos. O étimo é o latino lura, «boca de saco», e fez-me lembrar a história do Gato das Botas. O critério parece ser então os limites da ignorância do apresentador, que, no início do programa, brincou: «Tenho licença para humilhar todos aqueles que não percebem nada da língua portuguesa.»
[Post 3199]

Léxico: «ambulancha»

Lancha especial


      «Começa a chegar mais gente de várias comunidades ribeirinhas. Chegam em pequenos barcos, comandados pelos marinheiros do navio. Vêm sobretudo mulheres, idosos e crianças. A sala de espera está lotada. A palhaça Macaxeira vai distraindo os mais novos. Chamam-se os pacientes: são vistos, medicados e, em casos mais graves, levados para Santarém de ambulancha, “a cidade mais próxima com melhores condições”, assegura Marcela Pinheiro, enfermeira-chefe do Abaré» («Curar um abcesso, fazer um parto e operar no meio da Amazónia», Vanessa Rodrigues, Diário de Notícias, 26.2.2010, p. 30).
      A repórter escreve que está no «médio Amazonas», mas é claro que queria escrever no Médio Amazonas. O mais interessante, contudo, é aquele vocábulo estranho: ambulancha. É a amálgama de ambulância + lancha. É tão usado no Brasil, embora ainda não dicionarizado, que talvez não mereça o estigma do itálico.

[Post 3198]

Ortografia: «Melburne»

Archaeological site


      Poucos jornalistas da Antena 1 pronunciam o topónimo Setúbal com o a aberto na sílaba final — e faz-me impressão. Mas não era disto que queria falar, é um mero aparte, mas sim disto: «Estou a viver em Melburne [Austrália], mas, se o Benfica me convidar, eu irei com muito gosto. Seria óptimo!» («“Não percebo porque dizem que o meu golo foi a mão da Diabo”», Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 26.2.2010, p. 64). Aquele ou estava mesmo a pedi-las (como o ou do topónimo francês Lourdes, registado Lurdes por Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa), é claro. E agora perguntam-me se o i de site está a pedir que se transforme em ai? Para quê? Não sejam ridículos! Digam e escrevam sítio. Ou também querem que passemos a dizer e a escrever *saite arqueológico?

[Post 3197]

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