Ortografia: «Melburne»

Archaeological site


      Poucos jornalistas da Antena 1 pronunciam o topónimo Setúbal com o a aberto na sílaba final — e faz-me impressão. Mas não era disto que queria falar, é um mero aparte, mas sim disto: «Estou a viver em Melburne [Austrália], mas, se o Benfica me convidar, eu irei com muito gosto. Seria óptimo!» («“Não percebo porque dizem que o meu golo foi a mão da Diabo”», Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 26.2.2010, p. 64). Aquele ou estava mesmo a pedi-las (como o ou do topónimo francês Lourdes, registado Lurdes por Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa), é claro. E agora perguntam-me se o i de site está a pedir que se transforme em ai? Para quê? Não sejam ridículos! Digam e escrevam sítio. Ou também querem que passemos a dizer e a escrever *saite arqueológico?

[Post 3197]

Sobre «rinque»

Patinar no sítio certo


      Há pouco mais de uma semana, o Diário de Notícias lembrou a história da patinadora Kirstin Holum, que, nos Jogos Olímpicos de Nagano, no Japão, em 1998, foi considerada uma das grandes esperanças da patinagem de velocidade americana. Em 2002, porém, a atleta juntou-se às Irmãs Franciscanas da Renovação (Franciscan Friars of the Renewal), que se dedicam à caridade, à evangelização e à acção social junto dos mais desfavorecidos. A Ir. Catherine Mary vive agora no Convento de S. José, em Nova Iorque. Porque trago para aqui a história? Porque é edificante — e porque o título do DN é «Do rinque ao convento, de patinadora olímpica a freira» (Diário de Notícias, 22.2.2010, p. 56). Este jornal sempre soube pôr as pessoas a patinar nos sítios certos, ao contrário de outros.

[Post 3196]

Léxico: «senescência»

O parente senescal


      «João Passos, que integrou uma equipa multidisciplinar nesta investigação, salienta que ainda se está “muito longe” de conseguir intervir na senescência, de forma a atenuar os efeitos da produção de radicais livres e, simultaneamente, travar a proliferação de células cancerosas, mas este é, definitivamente, um “desafio” para o futuro» («Português descobre como reduzir os efeitos da velhice», Diário de Notícias, 18.2.210, p. 30).
      A melhor definição, a meu ver, é a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «declínio involutivo em função da idade (envelhecimento), simétrico do desenvolvimento evolutivo; velhice». Alguns dicionários, mas não este, registam também senescente. Verbete próximo, nos dicionários, é senescal (e senescalia). E está relacionado com senescência? De uma forma ínvia, sim. O Dicionário Houaiss regista em relação a senescal: «frâncico *sĭnĭskalk, “servidor mais velho”, de uma forma germânica Senis, conexa com o latim senex, “antigo, velho”, + skalk, “criado, servidor”, latinizado em siniscalcus, senescalcus».

[Post 3195]

Ortografia: «videointérprete»

Alguns acertam


      «A Vodafone lançou o número 12472 para acesso, por videochamada e por pessoas com deficiência auditiva, ao serviço de videointérprete da Associação Portuguesa de Surdos, com um custo de 1,1 cêntimos por minuto» («Vodafone com videochamada e TV antecipada», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 27.2.2010, p. 66).
      Sim, está bem grafado no artigo, mas, por exemplo, não no sítio da Associação Portuguesa de Surdos. Em relação a videoarbitragem,aqui vimos.

[Post 3194]

Profe/profes

Vão seguindo


      Por vezes, limito-me a fazer uma actualização, mas agora quis que todos vissem: «Ela [Bárbara Coutinho] até gosta de dar aulas, mas como não queria passar o resto da vida como profe no secundário candidatou-se e foi aceite no concurso que pedia uma pessoa que concebesse e coordenasse o serviço educativo do CCB» («“É preciso tirar as aspas ao ‘design’”», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 20.2.2010, p. 65).

[Post 3193]

Tradução: «principlism»

Uma explicação

      «Encontro frequentemente a palavra “principialismo”, quase sempre emparelhada com “utilitarismo”, em coisas que leio. Todavia não a encontro nos dicionários e suspeito que seja por estar mal construída. No entanto a palavra faz falta. Se é, como é, baseada na palavra “princípio”, decerto deveria ser “principismo”... mas esta também não a vejo nos dicionários nem anda tanto por aí. Curiosamente na literatura de língua inglesa encontro “principlism”, que também não aparece nos dicionários que procurei», escreveu-me o leitor R. A., e pede-me que comente.
      Na Enciclopédia Virtual de Bioética e Biodireito, pode ler-se: «O termo principlism, normalmente é traduzido por principalismo, mas José Luiz Telles de Almeida propõe a tradução como principialismo para evitar a derivação de principal e marcar a derivação de princípios. ALMEIDA, José Luiz Telles de. Respeito à autonomia do paciente e consentimento livre e esclarecido: uma abordagem principialista da relação médico-paciente. Tese (Doutorado em Ciências da Saúde)-Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 1999, p. 55.» E José Roberto Goldim escreve: «O termo Principlism foi cunhado por Dan Clouser e Bernard Gert em 1990. A melhor tradução para este termo é Principialismo, pois a origem latina da palavra é principia. Alguns autores utilizam Principismo ou Principalismo, que são traduções que devem ser evitadas, por não terem base etimológica.»

[Post 3192]

Tradução: «takeaway»

Comida para fora


      «Recorde-se que, no início deste mês, Gascoigne foi detido por duas vezes pela polícia de Yorkshire, alegadamente por uma altercação num estabelecimento de comida para levar para fora e por estar a conduzir sob o efeito do álcool, acompanhado por outro indivíduo não identificado» («Paul Gascoigne é um sem-abrigo e pediu casa à associação de atletas», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 18.2.210, p. 38).
      O jornal The Independent, por exemplo, noticiava: «The former Newcastle and Tottenham midfielder was taken into custody last night after police were called to a disturbance at a takeaway in Leeming Bar, North Yorkshire.» Vá lá, a jornalista foi sensata e não usou o termo inglês. Num texto de Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, «O positivo e o negativo do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa», este consultor do Ciberdúvidas escreveu: «Takeaway podia muito bem ter-se transformado em pegue e pague (nome que já vimos em tabuleta duma loja algarvia, embora grafada “Peg e Pag”, se não estamos em erro).» Porque havemos de copiar a expressão inglesa? Não é raro ver-se nestes estabelecimentos uma tabuleta com os dizeres «Comida para fora».

[Post 3191]

Léxico: «catota»

Em Cabo Verde é pior


      «Sempre achei que não precisamos de saber tudo. Aqui há uns anos, no decorrer de uma daquelas redistribuições do espaço frequentes no Expresso, ficámos todos a saber que um colega nosso, um rapaz educado e asseadíssimo, cultivava secretamente o hábito de arquivar debaixo do tampo da secretária as catotas que extraía do nariz. A descoberta do nojento cemitério de burriés secos foi um choque. Nesta vida há uma data de coisas que é preferível ignorarmos» («As catotas, as escutas e o tubo da pasta de dentes», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 18.2.210, p. 9).
      Já não me lembrava — e nos anos 80 li de fio a pavio o Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado — da palavra catota. Na página da Internet do Diário de Notícias, um anónimo lembra que em Cabo Verde a palavra tem outro significado, nada que se pareça com mucosidade nasal ressequida: é um vulgarismo para órgão sexual feminino.

[Post 3190]

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