Tradução: «principlism»

Uma explicação

      «Encontro frequentemente a palavra “principialismo”, quase sempre emparelhada com “utilitarismo”, em coisas que leio. Todavia não a encontro nos dicionários e suspeito que seja por estar mal construída. No entanto a palavra faz falta. Se é, como é, baseada na palavra “princípio”, decerto deveria ser “principismo”... mas esta também não a vejo nos dicionários nem anda tanto por aí. Curiosamente na literatura de língua inglesa encontro “principlism”, que também não aparece nos dicionários que procurei», escreveu-me o leitor R. A., e pede-me que comente.
      Na Enciclopédia Virtual de Bioética e Biodireito, pode ler-se: «O termo principlism, normalmente é traduzido por principalismo, mas José Luiz Telles de Almeida propõe a tradução como principialismo para evitar a derivação de principal e marcar a derivação de princípios. ALMEIDA, José Luiz Telles de. Respeito à autonomia do paciente e consentimento livre e esclarecido: uma abordagem principialista da relação médico-paciente. Tese (Doutorado em Ciências da Saúde)-Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 1999, p. 55.» E José Roberto Goldim escreve: «O termo Principlism foi cunhado por Dan Clouser e Bernard Gert em 1990. A melhor tradução para este termo é Principialismo, pois a origem latina da palavra é principia. Alguns autores utilizam Principismo ou Principalismo, que são traduções que devem ser evitadas, por não terem base etimológica.»

[Post 3192]

Tradução: «takeaway»

Comida para fora


      «Recorde-se que, no início deste mês, Gascoigne foi detido por duas vezes pela polícia de Yorkshire, alegadamente por uma altercação num estabelecimento de comida para levar para fora e por estar a conduzir sob o efeito do álcool, acompanhado por outro indivíduo não identificado» («Paul Gascoigne é um sem-abrigo e pediu casa à associação de atletas», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 18.2.210, p. 38).
      O jornal The Independent, por exemplo, noticiava: «The former Newcastle and Tottenham midfielder was taken into custody last night after police were called to a disturbance at a takeaway in Leeming Bar, North Yorkshire.» Vá lá, a jornalista foi sensata e não usou o termo inglês. Num texto de Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, «O positivo e o negativo do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa», este consultor do Ciberdúvidas escreveu: «Takeaway podia muito bem ter-se transformado em pegue e pague (nome que já vimos em tabuleta duma loja algarvia, embora grafada “Peg e Pag”, se não estamos em erro).» Porque havemos de copiar a expressão inglesa? Não é raro ver-se nestes estabelecimentos uma tabuleta com os dizeres «Comida para fora».

[Post 3191]

Léxico: «catota»

Em Cabo Verde é pior


      «Sempre achei que não precisamos de saber tudo. Aqui há uns anos, no decorrer de uma daquelas redistribuições do espaço frequentes no Expresso, ficámos todos a saber que um colega nosso, um rapaz educado e asseadíssimo, cultivava secretamente o hábito de arquivar debaixo do tampo da secretária as catotas que extraía do nariz. A descoberta do nojento cemitério de burriés secos foi um choque. Nesta vida há uma data de coisas que é preferível ignorarmos» («As catotas, as escutas e o tubo da pasta de dentes», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 18.2.210, p. 9).
      Já não me lembrava — e nos anos 80 li de fio a pavio o Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado — da palavra catota. Na página da Internet do Diário de Notícias, um anónimo lembra que em Cabo Verde a palavra tem outro significado, nada que se pareça com mucosidade nasal ressequida: é um vulgarismo para órgão sexual feminino.

[Post 3190]

Conjugador de verbos

A explorar


      Surgiu agora um conjugador verbal para o espanhol com características únicas. Chama-se Onoma e conjuga qualquer verbo em espanhol, existente e reconhecido ou inventado, com a única condição de que a palavra seja reconhecida como um infinitivo. Informa sobre as irregularidades que o verbo contém, com uma explicação pormenorizada sobre as mesmas, e, dada uma forma verbal, informa a que verbo pertence e indica o modo, tempo, pessoa e número. É um projecto da empresa Molino de Ideas, que tem outros projectos relacionados com o processamento da linguagem natural. Claro que não temos muito a invejar, pois temos o Lx Conjugator.

[Post 3189]

Televisão

Pretendedores


      Ontem, no programa Operação Especial, o debate entre António Reis, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), e Paulo Teixeira Pinto, presidente da Causa Real (não confundir com a Casa Real...), era subordinado ao tema o centenário da República. António Reis, historiador, afirmou que só houve duas Repúblicas, e Carlos Pinto Coelho queria à viva força que houvesse polémica por causa da afirmação. Não houve, e não é nada de novo.
      A propósito do Protocolo de Estado, António Reis lembrou que algumas câmaras municipais nem sequer consideram D. Duarte Pio. Estamos a falar de Protocolo de Estado, objectou, com o entono que lhe é conhecido, o moderador, Carlos Pinto Coelho. Pois estamos, devia ter respondido António Reis. Então a Lei das precedências do Protocolo do Estado Português não se aplica em todo o território nacional e até mesmo nas representações diplomáticas e consulares de Portugal no estrangeiro?
      Quando Carlos Pinto Coelho se referiu a D. Duarte Pio como pretendente ao Trono, logo Paulo Teixeira Pinto contrapôs que D. Duarte Pio «não pretende nada. Os monárquicos é que pretendem». Realmente, ele apresenta-se ou é apresentado como pretendente ao Trono? D. Duarte de Bragança é o chefe da autodenominada Casa Real Portuguesa, e se o regime é republicano (embora, a meu ver, se devesse alterar a alínea b) do artigo 288.º da Constituição para permitir que haja um referendo à monarquia), não há Trono. É dos dicionários: pretendente é o designativo de um príncipe que pretende ter direitos a um trono vago ou ocupado por outrem.

[Post 3188]

Actualização em 1.3.2010

      Mais um exemplo: «O que reflecte o estado geral de deliquescência da Segunda República, quase 36 anos depois da queda do Estado Novo» («E depois da borrasca?», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 20.2.210, p. 65).

Feminino de «bispo»

Nada feminista


      «Margot Kässmann, de 51 anos, era até há poucos dias bispo de Hanôver e presidente do conselho nacional da Igreja Evangélica, que conta com cerca de 25 milhões de fiéis na Alemanha. Tinha 41 anos quando, em 1999, foi nomeada, tornando-se a bispo mais jovem no país. Em Outubro do ano passado chegou ao topo da Igreja Evangélica alemã e fez história a ser a primeira mulher a ocupar o lugar» («Margot Kässmann», Carla H. Quevedo, Metro, 26.2.2010, p. 9).
      Errado: o feminino de bispo é episcopisa. E os dicionários, que são todos, que registam que episcopisa era a «mulher que nos princípios do cristianismo desempenhava certas funções sacerdotais sem jurisdição episcopal» também precisam de reformular a definição. A propósito de feminino, o semanário Expresso lá continua denodadamente a usar chancelerina: «Indiferente aos protestos das autoridades suíças que falaram em receptação de informação roubada, a chancelerina Angela Merkel recuperou por esta via 200 milhões de euros (valor que já inclui as multas a aplicar aos infractores)» («A honra perdida de uma Suíça orgulhosamente só», Rui Martins, Expresso, 6.2.2010, p. 32).
      Na imprensa alemã, o nome da episcopisa é grafado com a letra ß (scharfes S ou Eszett), Käßmann, habitualmente substituída, em países não germanófonos, por ss.

[Post 3187]

Lições de Legística

E eles lêem?


      «Relativamente ao vocabulário geográfico, nomeadamente toponímico, deve utilizar-se, como regra geral, a palavra portuguesa, mesmo nos casos menos conhecidos (exemplo: cidade de Francoforte), a menos que a palavra portuguesa possa tornar-se incompreensível para a generalidade dos destinatários, pelo que, nestes casos, deve escrever-se a palavra estrangeira entre parênteses e em itálico [exemplo: na cidade de Lila (Lille)].» Onde é que isto está escrito? Na página 25 da obra Regras de Legística a Observar na Elaboração de Actos Normativos da Assembleia da República, da autoria de Luísa Colaço e Maria da Luz Araújo, e publicada pela Divisão de Edições da Assembleia da República em 2008. Vale a pena descarregar e ler.

[Post 3186]

Anglicismos e etc.

Português na Quinta Vigia


      Vi Alberto João Jardim na Grande Entrevista com Judite de Sousa. Alguns momentos baixos: «O gabinete de operações está aqui na Quinta Vigia [residência oficial do presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira], eu comando aqui as operações, obviamente com grande suporte da Protecção Civil.» Nesta acepção, suporte é anglicismo. Qual é a dimensão exacta dos prejuízos? «Nas contas do Governo, vamos já em mil milhões de euros, e para cima.» Isso é muito dinheiro. «Eu penso que vamos ir a uma coisa paradoxal: o volume, o custo, igual ao que é o orçamento anual da Região Autónoma.» Ou seja? «O orçamento anual da Região Autónoma é um bilião e meio de euros.» «O Sr. Dr. carrega essa mágoa de não ter tido uma vaga de fundo, nomeadamente há dois anos, para que o seu nome pudesse ser lançado?» Vaga de fundo é uma metáfora, muito do agrado da nova classe política, e, como se vê, de alguns jornalistas, que muito poucos telespectadores entenderão.

[Post 3185]

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