Outra acepção ignorada

Casa grande, sim, mas...


      «O vento forte provocou ainda o desmoronamento de um casão agrícola, destelhou dois anexos e destruiu cercas nas herdades da Granja e Azinhal, que se estendem pelos concelhos de Nisa e Crato, no distrito de Portalegre» («Vento derruba azinheiras centenárias», Global Notícias, 24.2.2010, p. 4).
      Julgo que nenhum dicionário regista a acepção usada na frase. É sinónimo de barracão, mais ou menos o galpão brasileiro.

[Post 3181]

Acertos e erros na televisão

Contesto


      Ontem vi o novo concurso sobre a língua portuguesa que passa na RTP 2. Sabem que nome tem? Preparem-se... Falaescreveacertaganha. No sítio da RTP, o programa é assim apresentado: «É um jogo a pensar nas meninas e nos meninos do 5.º e do 6.º ano e na terceira geração de luso-descendentes. Todos os dias, duas equipas de concorrentes vão responder a perguntas sobre gramática e ortografia, vão escrever textos, soletrar palavras, corrigir erros, ler e interpretar. A brincar também se aprende.»
      Numa das rubricas ou provas, «Português à vez», surgiu esta pergunta: «Na frase “Vamos a votos!” em que tempo e modo está o verbo?» Pedro, da equipa Gonçalinhos, respondeu: «Modo indicativo, presente do indicativo.» E Pedro Castro, o apresentador, disse: «A resposta está correcta.» Não está. A forma verbal usada na frase (que é também o título da obra que serviu para as perguntas, da autoria de José Jorge Letria e publicado pela Texto Editores) está no modo imperativo. Se os dicionários de verbos mais antigos só referiam as formas vai e ide (e Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, escreveram que o «imperativo afirmativo possui formas próprias somente para as segundas pessoas do singular e do plural (sujeito tu e vós). As demais pessoas são expressas pelas formas correspondentes do presente do conjuntivo»), os mais recentes já indicam que as formas do imperativo são vai, vá, vamos, ide, vão.
      E dizia o apresentador, no início, que é «o programa que mima a língua portuguesa»... Embora com uma nota de arrogância, recomendou: «Façam um favor: não hesitem em corrigir, mesmo a mim, se for o caso, que não será.» Não foi o único erro. Na pergunta em que se pedia que os concorrentes passassem uma frase para o discurso indirecto, o concorrente, também dos Gonçalinhos, respondeu incorrectamente e o apresentador considerou-a correcta. Ou seja, pelo menos 20 pontos foram atribuídos indevidamente a esta equipa. O apresentador despediu-se da equipa derrotada com esta frase infeliz: «Mas não fiquem tristes, porque, muito contra a minha vontade, é certo, também vocês vão ganhar o livre acesso à Infopédia

[Post 3180]

Disparates na televisão

Que deterge ou limpa


      Ontem, no Jornal das 7 da Sic Notícias, a propósito do maior cão do mundo, um grand danois, a jornalista disse que o cão «até tem um site pessoal». Na RTP 1, numa reportagem para o Telejornal, Judite de Sousa, que estava no supermercado do Centro Comercial Anadia, no Funchal, falou em «detergentes de limpeza».

[Post 3179]

Ortografia: «secretário executivo»

Espera aí


      Podia ler-se: «O secretário-executivo da Convenção da ONU para as Alterações Climáticas (CNUAC), o holandês Yvo de Boer, renunciou à função e deixará o cargo no início de Julho.» A fúria hifenizadora não pára. A propósito do uso do hífen quando o adjectivo geral entra na formação de uma palavra composta que designa cargo, função, lugar de trabalho ou órgão correspondente, como directoria-geral, secretário-geral, procurador-geral, o Manual de Redação da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) aconselha: «Não se deve usar o mesmo procedimento para consultor jurídico, assessor jurídico, pois se passaria, do mesmo modo, a empregar hífen em professor adjunto, professor catedrático, professor horista, secretário executivo, gerente financeiro, gerente econômico, Gerência Financeira, etc.»

[Post 3178]

Tradução: «solicitor»

Falsos amigos e tradutores


      No episódio, o 10.º da série, Herança Amaldiçoada (The Norwood Builder, no original) de hoje de As Aventuras de Sherlock Holmes, o detective teve de deslindar mais um caso. No sítio da RTP Memória, podia ler-se: «O tempo vai tornar-se traiçoeiro para Holmes quando este tiver que provar a inocência de um solicitador num caso de assassinato e fogo posto.» Ao ver o episódio, soube que o infeliz John Hector McFarlane era «a young solicitor», isto é, um advogado. Erro em que não caiu a tradutora do episódio, Florinda Lopes.
      No Brasil, pelo que vejo aqui, o episódio recebeu o título de O Construtor de Norwood, bem mais sugestivo e adequado à trama. «“There’s the advantage of being a builder,” said Holmes, as we came out. “He was able to fix up his own little hiding-place without any confederate—save, of course, that precious housekeeper of his, whom I should lose no time in adding to your bag, Lestrade.”»

[Post 3177]

Uso do inglês

Ridículo


      «A Portuguese Acne Advisory Board, constituída por um grupo de dermatologistas portugueses[,] tem em marcha a campanha “Guerra às Borbulhas”[,] destinada a proporcionar um maior conhecimento sobre a acne, que afecta cerca de 80% dos adolescentes. A acção chega esta sexta-feira a Lisboa, à escola Padre António Vieira» («Guerra às borbulhas nas escolas», Metro, 23.2.201, p. 3).
      Se é português, porque tem nome inglês? Julgam que estamos em Mozambique, perdão, em Moçambique, ou no Brazil, perdão, no Brasil? Ou é para se dar ares de mais científico?

[Post 3176]

Léxico: «inquérito-crime»

Aguardemos


      «A procuradora-geral adjunta Cândida Almeida surpreendeu ontem o mundo da magistratura do Ministério Público com uma proposta arrojada de combate ao crime de violação do segredo de justiça: a imposição do regime de escutas telefónicas aos procuradores ligados a inquéritos-crime» («Cândida defende segredo com escutas a procuradores», Global Notícias/24 Horas, 23.2.201, p. 3).
      Alguns dicionários — mas não o Houaiss! — registam o vocábulo processo-crime (cujo plural tanto pode ser processos-crime como processos-crimes). Nenhum, contudo, acolhe o termo inquérito-crime. Ainda não convenceu os dicionaristas...

[Post 3175]

Léxico: «lolita»

Nem o Houaiss


      «Com um ar de inocente “lolita”, sublinhado pelos óculos e tranças, assume que já fingiu ter uma playstation 3 e outros gadgets só para se sentir mais integrada na escola» («Queremos um emprego para os nossos pais!», Bernardo Mendonça, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 57).
      Os dicionários de língua inglesa, sei lá, o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary (que o define como «a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way»), grafam o nome com maiúscula inicial, mas eu concordo com Bernardo Mendonça. De nome próprio, passou a nome comum. Logo, lolita. Mas, senhor jornalista, sem aspas! Tanto quanto sei, nenhum dicionário da língua portuguesa regista o vocábulo. Não, nem o Houaiss, que — isto é que é curioso — não deixa de acolher o termo ninfeta, criado por Vladimir Nabokov (1899–1977) no romance Lolita, de 1955. E é desta Lolita que vem o lolita do texto jornalístico. Ninfeta, para o Dicionário Houaiss, é a menina adolescente voltada para o sexo ou que desperta desejo sexual.

[Post 3174]

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