Acertos e erros na televisão

Contesto


      Ontem vi o novo concurso sobre a língua portuguesa que passa na RTP 2. Sabem que nome tem? Preparem-se... Falaescreveacertaganha. No sítio da RTP, o programa é assim apresentado: «É um jogo a pensar nas meninas e nos meninos do 5.º e do 6.º ano e na terceira geração de luso-descendentes. Todos os dias, duas equipas de concorrentes vão responder a perguntas sobre gramática e ortografia, vão escrever textos, soletrar palavras, corrigir erros, ler e interpretar. A brincar também se aprende.»
      Numa das rubricas ou provas, «Português à vez», surgiu esta pergunta: «Na frase “Vamos a votos!” em que tempo e modo está o verbo?» Pedro, da equipa Gonçalinhos, respondeu: «Modo indicativo, presente do indicativo.» E Pedro Castro, o apresentador, disse: «A resposta está correcta.» Não está. A forma verbal usada na frase (que é também o título da obra que serviu para as perguntas, da autoria de José Jorge Letria e publicado pela Texto Editores) está no modo imperativo. Se os dicionários de verbos mais antigos só referiam as formas vai e ide (e Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, escreveram que o «imperativo afirmativo possui formas próprias somente para as segundas pessoas do singular e do plural (sujeito tu e vós). As demais pessoas são expressas pelas formas correspondentes do presente do conjuntivo»), os mais recentes já indicam que as formas do imperativo são vai, vá, vamos, ide, vão.
      E dizia o apresentador, no início, que é «o programa que mima a língua portuguesa»... Embora com uma nota de arrogância, recomendou: «Façam um favor: não hesitem em corrigir, mesmo a mim, se for o caso, que não será.» Não foi o único erro. Na pergunta em que se pedia que os concorrentes passassem uma frase para o discurso indirecto, o concorrente, também dos Gonçalinhos, respondeu incorrectamente e o apresentador considerou-a correcta. Ou seja, pelo menos 20 pontos foram atribuídos indevidamente a esta equipa. O apresentador despediu-se da equipa derrotada com esta frase infeliz: «Mas não fiquem tristes, porque, muito contra a minha vontade, é certo, também vocês vão ganhar o livre acesso à Infopédia

[Post 3180]

Disparates na televisão

Que deterge ou limpa


      Ontem, no Jornal das 7 da Sic Notícias, a propósito do maior cão do mundo, um grand danois, a jornalista disse que o cão «até tem um site pessoal». Na RTP 1, numa reportagem para o Telejornal, Judite de Sousa, que estava no supermercado do Centro Comercial Anadia, no Funchal, falou em «detergentes de limpeza».

[Post 3179]

Ortografia: «secretário executivo»

Espera aí


      Podia ler-se: «O secretário-executivo da Convenção da ONU para as Alterações Climáticas (CNUAC), o holandês Yvo de Boer, renunciou à função e deixará o cargo no início de Julho.» A fúria hifenizadora não pára. A propósito do uso do hífen quando o adjectivo geral entra na formação de uma palavra composta que designa cargo, função, lugar de trabalho ou órgão correspondente, como directoria-geral, secretário-geral, procurador-geral, o Manual de Redação da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) aconselha: «Não se deve usar o mesmo procedimento para consultor jurídico, assessor jurídico, pois se passaria, do mesmo modo, a empregar hífen em professor adjunto, professor catedrático, professor horista, secretário executivo, gerente financeiro, gerente econômico, Gerência Financeira, etc.»

[Post 3178]

Tradução: «solicitor»

Falsos amigos e tradutores


      No episódio, o 10.º da série, Herança Amaldiçoada (The Norwood Builder, no original) de hoje de As Aventuras de Sherlock Holmes, o detective teve de deslindar mais um caso. No sítio da RTP Memória, podia ler-se: «O tempo vai tornar-se traiçoeiro para Holmes quando este tiver que provar a inocência de um solicitador num caso de assassinato e fogo posto.» Ao ver o episódio, soube que o infeliz John Hector McFarlane era «a young solicitor», isto é, um advogado. Erro em que não caiu a tradutora do episódio, Florinda Lopes.
      No Brasil, pelo que vejo aqui, o episódio recebeu o título de O Construtor de Norwood, bem mais sugestivo e adequado à trama. «“There’s the advantage of being a builder,” said Holmes, as we came out. “He was able to fix up his own little hiding-place without any confederate—save, of course, that precious housekeeper of his, whom I should lose no time in adding to your bag, Lestrade.”»

[Post 3177]

Uso do inglês

Ridículo


      «A Portuguese Acne Advisory Board, constituída por um grupo de dermatologistas portugueses[,] tem em marcha a campanha “Guerra às Borbulhas”[,] destinada a proporcionar um maior conhecimento sobre a acne, que afecta cerca de 80% dos adolescentes. A acção chega esta sexta-feira a Lisboa, à escola Padre António Vieira» («Guerra às borbulhas nas escolas», Metro, 23.2.201, p. 3).
      Se é português, porque tem nome inglês? Julgam que estamos em Mozambique, perdão, em Moçambique, ou no Brazil, perdão, no Brasil? Ou é para se dar ares de mais científico?

[Post 3176]

Léxico: «inquérito-crime»

Aguardemos


      «A procuradora-geral adjunta Cândida Almeida surpreendeu ontem o mundo da magistratura do Ministério Público com uma proposta arrojada de combate ao crime de violação do segredo de justiça: a imposição do regime de escutas telefónicas aos procuradores ligados a inquéritos-crime» («Cândida defende segredo com escutas a procuradores», Global Notícias/24 Horas, 23.2.201, p. 3).
      Alguns dicionários — mas não o Houaiss! — registam o vocábulo processo-crime (cujo plural tanto pode ser processos-crime como processos-crimes). Nenhum, contudo, acolhe o termo inquérito-crime. Ainda não convenceu os dicionaristas...

[Post 3175]

Léxico: «lolita»

Nem o Houaiss


      «Com um ar de inocente “lolita”, sublinhado pelos óculos e tranças, assume que já fingiu ter uma playstation 3 e outros gadgets só para se sentir mais integrada na escola» («Queremos um emprego para os nossos pais!», Bernardo Mendonça, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 57).
      Os dicionários de língua inglesa, sei lá, o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary (que o define como «a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way»), grafam o nome com maiúscula inicial, mas eu concordo com Bernardo Mendonça. De nome próprio, passou a nome comum. Logo, lolita. Mas, senhor jornalista, sem aspas! Tanto quanto sei, nenhum dicionário da língua portuguesa regista o vocábulo. Não, nem o Houaiss, que — isto é que é curioso — não deixa de acolher o termo ninfeta, criado por Vladimir Nabokov (1899–1977) no romance Lolita, de 1955. E é desta Lolita que vem o lolita do texto jornalístico. Ninfeta, para o Dicionário Houaiss, é a menina adolescente voltada para o sexo ou que desperta desejo sexual.

[Post 3174]

Léxico: «braquete»

Imagem da Orthodontic Care

Agora já sabemos


      «Dito isto volta a escancarar um sorriso feito de braquetes» («Queremos um emprego para os nossos pais!», Bernardo Mendonça, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 55).
      Os dicionários que consultei ainda não registam este vocábulo, aportuguesamento do inglês bracket. Designa as pequenas peças de metal ou de cerâmica usadas, presas num arco de arame, para posicionar os dentes nos tratamentos ortodônticos.

[Post 3173]

Arquivo do blogue