Uso do inglês

Ridículo


      «A Portuguese Acne Advisory Board, constituída por um grupo de dermatologistas portugueses[,] tem em marcha a campanha “Guerra às Borbulhas”[,] destinada a proporcionar um maior conhecimento sobre a acne, que afecta cerca de 80% dos adolescentes. A acção chega esta sexta-feira a Lisboa, à escola Padre António Vieira» («Guerra às borbulhas nas escolas», Metro, 23.2.201, p. 3).
      Se é português, porque tem nome inglês? Julgam que estamos em Mozambique, perdão, em Moçambique, ou no Brazil, perdão, no Brasil? Ou é para se dar ares de mais científico?

[Post 3176]

Léxico: «inquérito-crime»

Aguardemos


      «A procuradora-geral adjunta Cândida Almeida surpreendeu ontem o mundo da magistratura do Ministério Público com uma proposta arrojada de combate ao crime de violação do segredo de justiça: a imposição do regime de escutas telefónicas aos procuradores ligados a inquéritos-crime» («Cândida defende segredo com escutas a procuradores», Global Notícias/24 Horas, 23.2.201, p. 3).
      Alguns dicionários — mas não o Houaiss! — registam o vocábulo processo-crime (cujo plural tanto pode ser processos-crime como processos-crimes). Nenhum, contudo, acolhe o termo inquérito-crime. Ainda não convenceu os dicionaristas...

[Post 3175]

Léxico: «lolita»

Nem o Houaiss


      «Com um ar de inocente “lolita”, sublinhado pelos óculos e tranças, assume que já fingiu ter uma playstation 3 e outros gadgets só para se sentir mais integrada na escola» («Queremos um emprego para os nossos pais!», Bernardo Mendonça, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 57).
      Os dicionários de língua inglesa, sei lá, o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary (que o define como «a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way»), grafam o nome com maiúscula inicial, mas eu concordo com Bernardo Mendonça. De nome próprio, passou a nome comum. Logo, lolita. Mas, senhor jornalista, sem aspas! Tanto quanto sei, nenhum dicionário da língua portuguesa regista o vocábulo. Não, nem o Houaiss, que — isto é que é curioso — não deixa de acolher o termo ninfeta, criado por Vladimir Nabokov (1899–1977) no romance Lolita, de 1955. E é desta Lolita que vem o lolita do texto jornalístico. Ninfeta, para o Dicionário Houaiss, é a menina adolescente voltada para o sexo ou que desperta desejo sexual.

[Post 3174]

Léxico: «braquete»

Imagem da Orthodontic Care

Agora já sabemos


      «Dito isto volta a escancarar um sorriso feito de braquetes» («Queremos um emprego para os nossos pais!», Bernardo Mendonça, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 55).
      Os dicionários que consultei ainda não registam este vocábulo, aportuguesamento do inglês bracket. Designa as pequenas peças de metal ou de cerâmica usadas, presas num arco de arame, para posicionar os dentes nos tratamentos ortodônticos.

[Post 3173]

Ortografia: «torna-viagem»

Não sei porquê


      «A ideia era tentar reproduzir os célebres Torna Viagem, moscatéis que, no séc. XIX, eram enviados para o Brasil em casco e que por falta de comprador, regressavam» («Moscatel à boleia da Sagres», João Paulo Martins, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 83).
      Bem, talvez os cascos tenham inscrito «Torna Viagem», mas nas garrafas que são comercializadas lê-se «Torna-Viagem» (vejam aqui). E, é claro, a ortografia do vocábulo, substantivo e adjectivo, é torna-viagem. Como torna-boda, torna-boi, torna-e-torna, torna-fio, torna-jeira, torna-torna e torna-vaca.

[Post 3172]

Uso da minúscula inicial

Vão na Sagres


      «Com tanta chuva e frio os dias custam mais a passar e as férias de Verão parecem uma miragem. Por isso propomos que tire uns dias de descanso no hemisfério sul, aproveitando a energia do sol que se instalou por aquelas paragens» («África de luxo», Alexandra Simões de Abreu, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 77). Muito bem: hemisfério sul. Contudo, seis páginas mais à frente, eis um mau exemplo: «Todo o balanço do navio e os calores do Equador operavam milagres e o vinho regressava muito melhor do que tinha ido» («Moscatel à boleia da Sagres», João Paulo Martins, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 83). E a famosa revisão do Expresso, onde estava?

[Post 3171]

Formas pronominais –lo, –la

Ainda na escola


      «Irrita-lo a ênfase no futuro: “Eu não sou futuro. Somos presente e temos de educar todos para serem presente. Porque não fazemos nada para mudar amanhã, mas para ir mudando hoje.”» («Juventude inquieta», Christiana Martins, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 39). Lapso? Talvez não: «A sombra num oásis, que é a tradução do seu nome, acompanha-la» (ibidem, idem, p. 40).
      Então os pronomes enclíticos da terceira pessoa -lo, -la, -los, -las não se usam apenas quando o verbo termina em consoante (seja r, s ou z), que cai? Onde está a consoante final nas formas verbais irrita e acompanha?

[Post 3170]

«Liceu», um vocábulo perene

Lyceu Camões


      Relacionado com o que afirmei aqui, eis mais um exemplo de como as antigas designações teimam — mesmo na escrita de profissionais — em persistir. Há quantos anos não há liceus? Há tantos que os dicionários já tiveram tempo de se actualizar e registar que se trata de um vocábulo «antiquado» (como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Pois vejam este exemplo: «Mas a onda que então começou ainda está longe de rebentar. Pedro [Feijó] é hoje presidente da Associação de Estudantes do Liceu Camões e não exclui dar mais um passo: conquistar um assento no Conselho Nacional de Educação, como representante de todos os alunos do Ensino Secundário» («Juventude inquieta», Christiana Martins, Única/Expresso, 30.1.2010, p. 38). E não pensem que foi caso único: ao longo da reportagem, a jornalista escreveu sempre «liceu».

[Post 3169]

Arquivo do blogue