Colocação pronominal

 Língua de estalo


      Na emissão de hoje do programa Antena Aberta, o fórum da Antena 1, um participante, engenheiro civil, dizia: «Deixa está-lo, porque ele rouba mas faz alguma coisa.» Teoricamente, nas locuções verbais de auxiliar + infinitivo, as possibilidades de colocação dos pronomes átonos não excluem a ênclise ao verbo principal. Contudo, por razões de eufonia, será melhor, pelo menos neste caso concreto, escrever e dizer: «Deixa-o estar.»


[Post 3152]

Escola primária

Vamos ver


      Irão passar-se anos até deixar de se dizer (se é que não se retoma, no futuro, a designação) escola primária. Na edição do último fim-de-semana do i, lia-se numa legenda da reportagem de Kátia Catulo sobre a alimentação nas escolas: «Miguel Rocha, 6 anos, Escola Primária de Gervide, Gaia» («Problema está em casa. Os papás têm de comer a sopa até ao fim», p. 34).

[Post 3151]

«Catequese» e «escola dominical» II

Já vi


      Vai fazer um ano quando aqui escrevi que nas traduções nunca vira a locução Sunday School traduzida de outra forma que não «catequese», assim como Sunday school teacher por «catequista». Bem, isso mudou: agora já vi, e o tradutor é reputadíssimo. Elas «were Presbyterians and went to Sunday School» foi vertido para «eram presbiterianas e iam à escola dominical». O objectivo é preservar a diferenciação em português, pois a catequese é habitualmente conhecida nos países anglo-saxónicos como Catechism class.

[Post 3150]

«Advanced level (A-level)»

E neste caso?


      A propósito do ensino britânico, estou a ler o livro Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, de Jeff Dyer (Porto: Civilização Editora, 2010, tradução de Maria João Andrade), e, na página 16, leio uma nota de rodapé que diz: «Advanced level (A-level), instaurado em 1951, é o nome de um grupo de graus académicos por que passam as estudantes da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte no final do ensino Secundário. (N. da R.)» Tal como no caso da junior school (sim, Francisco, também acho que escola primária é a melhor tradução), também aqui a correspondência não é perfeita. Contudo, acho discutível a explicação desta nota de rodapé (e nem me refiro, naturalmente, ao facto de nela se afirmar que são as estudantes que «passam» pelos graus académicos). Tratar-se-á mesmo de graus académicos?

[Post 3149]

Tradução: «junior school»

Como deve ser?


      Trata-se de saber como traduzir a locução inglesa junior school. A história é ambientada na Escócia da década de 1930. O tradutor optou por escola elementar. Já tenho visto traduzido por escola preparatória. Alguém sugere agora escola básica. Duas objecções em relação a esta última: na correspondência histórica, no Reino Unido havia junior schools e em Portugal, escolas primárias. Segunda: a escola básica integra três ciclos, e a antiga escola primária corresponde agora apenas ao primeiro ciclo.
      Só como curiosidade: vejo que agora no Reino Unido há primary schools. «As escolas inglesas enfrentam a maior entrada de crianças na escola primária da última década. A culpa é da crise e do baby boom de há 5, 6 anos. As escolas públicas enfrentam agora o desafio de criar mais turmas para fazer face à entrada dos novos alunos. Apesar das medidas de alargamento do número de turmas, o jornal Guardian avança que as escolas podem não conseguir dar resposta. Além do baby boom, a procura pelas escolas públicas explica-se pela crise que levou muitos pais a desistir dos colégios privados e a optar pelo ensino público. A escola de Kingston, por exemplo está a preparar para o próximo ano lectivo mais 4 turmas novas, um crescimento na ordem dos 28% em apenas dois anos» («Baby boom e crise enchem escolas primárias na Inglaterra», i, 25.1.2010).
      Como podem ver, a hiperligação é para um texto do Guardian com o título «State primary schools face biggest influx of pupils in a decade».

[Post 3148]

Elemento de composição supra-

Supra-sensível


      «O porta-voz do Exército explicou que o inquérito aberto pela PJ Militar visa apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou na altura de verificar se a câmara da pistola ainda tinha munições. “A ocorrência é estranha e anormal, mas tudo indica que seja acidental. Ainda assim, é importante que a situação seja averiguada por uma instituição independente e supra Exército como é a Polícia Judiciária Militar.”» («Polícia Judiciária Militar investiga morte de cadete», Romana Borja-Santos, Público, 16.2.2010, p. 6).
      Mesmo num dicionário como o Houaiss, supra aparece apenas como advérbio a significar acima, «usado para indicar trecho da mesma página, mais acima, ou de página(s) anterior(es)». Supra- é um elemento de formação de palavras e liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supra-Exército. Por outro lado, que é isso de o inquérito visar «apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou»?

[Post 3147]

Léxico: «samo»

Outra lacuna


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Confraria Gastronómica do Bacalhau, com sede na Capital do Bacalhau, Ílhavo. Entre as várias especialidades, os confrades (e a indumentária e os títulos, grão-mestre, vice-grão-mestre, mestre chanceler, mestre cerimonial, mestre ecónomo e mestre conselheiro, fazem-me sempre rir) levaram uma feijoada de samos. Sónia Araújo quis saber do que se tratava. Um dos confrades disse que era uma membrana do bacalhau. Outro corrigiu: é a bexiga-natatória (órgão existente em alguns peixes que contém gases e regula a sua subida e descida na água e ainda, em alguns deles, auxilia a respiração) do bacalhau. Tal como ontem perguntei em relação a «melário», pergunto hoje em relação a samo (ou same, como vejo numa pesquisa na Internet): e que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3146]

Sobre «bidão»

Sempre atrasados


      «Se há coisa que nos lembramos desse dia, além da lição magistral dada pelo norte-americano — não foi por acaso que a 17.ª etapa da 93.ª edição da Grande Boucle foi considerada por muitos como um dos momentos altos da era moderna do ciclismo —, é da quantidade indescritível de água que o fugitivo bebeu. Será difícil encontrar uma imagem do dia em que Landis não tenha um bidão ou uma garrafa de água na mão» («Floyd Landis, o batoteiro também é hacker», Ana Marques Gonçalves, Público, 16.2.2010, p. 28).
      Pois é, mas os dicionaristas não têm dúvidas: bidão é a vasilha metálica, em regra cilíndrica, de grande capacidade. Mudamos o verbete ou a realidade?

[Post 3145]

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