Acordo Ortográfico

Primeira defecção?


      «Contrariamente ao que se escreveu entre nós sobre a nova Constituição angolana, nem o Presidente da República deixou de ser eleito diretamente nem a democracia ficou defunta naquele País. Todavia, a Constituição concentra tantos poderes nas mãos do Presidente, que o regime nela estabelecido só pode qualificar-se como superpresidencialismo, com os riscos que isso comporta.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de 9 do corrente.
      «Entre os aspectos basilares do Estado de Direito contam-se inegavelmente a inviolabilidade das comunicações privadas e o respeito da independência e autoridade dos tribunais. Apesar de constitucionalmente protegidos, ambos, porém, estão em causa entre nós neste momento, mercê da irresponsabilidade e impunidade dos media.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de hoje.
      O que se passou entre uma semana e outra, entre uma crónica e outra? Talvez nada de especial, talvez se tenha simplesmente esquecido de clicar no botão Converter para do FLIP. Mas há mais diferenças: na crónica da semana passada, assinava o texto como deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. Na crónica de hoje, identifica-se como professor universitário e deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. É Carnaval, ninguém leva a mal. Para a semana falamos.

[Post 3144]

Confusões: «extracto» e «estrato» II

Substância extraída de outra


      O jornal i propôs-se, através de um texto do jornalista Luís Leal Miranda, dizer-nos «Tudo o que precisa de saber sobre Tchekov em 5 minutos». Se o leitor fica a conhecer mais sobre este autor russo, também corre o risco de desaprender alguma coisa sobre a língua portuguesa. Leiam: «A profissão de médico foi o ganha-pão do escritor durante toda a sua vida. Nem quando as suas peças eram aplaudidas pela Rússia Tchekov deixou de exercer. A profissão permitiu-lhe viajar e conhecer gente de vários extractos sociais, que o ajudaria a compor personagens. Esta formação não o impediu, no entanto, de sucumbir à tuberculose, a mesma doença que lhe levara o irmão» (28.1.2010, p. 42). Nada de novo, para nem por isso menos lamentável, esta confusão entre extracto e estrato.

[Post 3143]

Tradução: «nobody»

Ninguém e toda a gente


      O original dizia que era «a nobody whom everybody could blame». Um ninguém? Um zé-ninguém? Pois é, podia ser, mas a coisinha insignificante era uma rapariga. E depois? Pode ser um ninguém. O tradutor foi criativo: «uma maria-ninguém que toda a gente podia censurar». Já conhecíamos maria-mijona, maria-rapaz, maria-vai-com-as-outras...

[Post 3142]

Como se escreve nos jornais

Tomem sentido


      Enquanto os apicultores fazem a língua, os jornalistas desfazem-na: «O Marítimo teve o jogo nas mãos, mas a equipa de Domingos Paciência somou mais três pontos e voltou a colocar o Benfica em sentido» («Vitória do Sporting de Braga com um golo que vai dar que falar», Luís Octávio Costa, Público, 15.2.2010, p. 24).

[Post 3141]

Léxico: «melário»



Menos uma


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Associação dos Apicultores de Terras do Antuã. Entre os vários objectos e produtos que levaram, estavam várias colmeias, em corte e inteiras — e melários, os quadros onde as abelhas depositam o mel. E que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3140]

Definição de «batata»

No entanto...


      «“Vocês sabem o que é isto?”, pergunta Jamie aos alunos de Huntington sentados no refeitório, apontando para um cacho de tomates vermelhos. “São batatas!”, respondem as crianças em uníssono. Mas não são só as crianças que desconhecem os ingredientes daquilo que comem. A responsável da escola desmentiu que os alunos não tivessem acesso a vegetais, alegando que estes comiam batatas todos os dias. Fritas, claro» («Jamie Oliver quer levar a revolução aos Estados Unidos», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 17).
      Decerto que batatas não são pedras, mas quando se fala de vegetais, verdura ou hortaliça, não me vem à mente batata. Nem frita nem cozida nem crua.

[Post 3139]

«Caderno de encargos»

Chega


      «Todos reconhecem, no entanto, que o caderno de encargos de Michelle Obama é difícil de cumprir: a alimentação “saudável” é mais cara do que o fast food e legumes ou fruta fresca são simplesmente inacessíveis para uma parcela da população» («Michelle Obama pretende acabar com obesidade infantil numa geração», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 16).
      Ultimamente, parece que alguns jornalistas ingurgitaram um engenheiro civil. Que palermice é esta agora do «caderno de encargos»? Não há outras formas, mais claras, adequadas e bonitas, de dizer o mesmo? Vá lá, esforcem-se um pouco, andamos há muitos anos a pagar.

[Post 3138]

Sigla e acrónimo

Público e notório


      «TALGO são as siglas de Tren Articulado Ligero Goicoechea Orial. Goicoechea foi o engenheiro que nos anos 40 do século passado inventou este comboio articulado, onde as carruagens não assentam directamente nos rodados, e Orial o sócio capitalista que com ele formou uma sociedade» («Centenário Sud Expresso vai ser um moderno comboio-hotel a partir de 1 de Março», Carlos Cipriano, Público, 14.2.2010, p. 10).
      Dois reparos: mesmo que TALGO fosse uma sigla, que não é, porquê o plural? Então sigla não é o nome que se dá à sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de palavras que constituem uma expressão? Por coincidência, ainda ontem revi um texto em que o jornalista afirmava que «o Exército de Resistência do Senhor (LRA, nas siglas inglesas) sequestrou desde os inícios da década de 1990 pelo menos quarenta mil menores para os obrigar a combater nas suas fileiras». Quais siglas? Só vejo uma! Mas sigla, sim, ao contrário de TALGO, que é um acrónimo, isto é, uma sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de várias outras palavras e que não se pronuncia letra a letra, mas sim como uma palavra corrente. Tanto é assim que se vê comummente Talgo e não TALGO.

[Post 3137]

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