«Caderno de encargos»

Chega


      «Todos reconhecem, no entanto, que o caderno de encargos de Michelle Obama é difícil de cumprir: a alimentação “saudável” é mais cara do que o fast food e legumes ou fruta fresca são simplesmente inacessíveis para uma parcela da população» («Michelle Obama pretende acabar com obesidade infantil numa geração», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 16).
      Ultimamente, parece que alguns jornalistas ingurgitaram um engenheiro civil. Que palermice é esta agora do «caderno de encargos»? Não há outras formas, mais claras, adequadas e bonitas, de dizer o mesmo? Vá lá, esforcem-se um pouco, andamos há muitos anos a pagar.

[Post 3138]

Sigla e acrónimo

Público e notório


      «TALGO são as siglas de Tren Articulado Ligero Goicoechea Orial. Goicoechea foi o engenheiro que nos anos 40 do século passado inventou este comboio articulado, onde as carruagens não assentam directamente nos rodados, e Orial o sócio capitalista que com ele formou uma sociedade» («Centenário Sud Expresso vai ser um moderno comboio-hotel a partir de 1 de Março», Carlos Cipriano, Público, 14.2.2010, p. 10).
      Dois reparos: mesmo que TALGO fosse uma sigla, que não é, porquê o plural? Então sigla não é o nome que se dá à sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de palavras que constituem uma expressão? Por coincidência, ainda ontem revi um texto em que o jornalista afirmava que «o Exército de Resistência do Senhor (LRA, nas siglas inglesas) sequestrou desde os inícios da década de 1990 pelo menos quarenta mil menores para os obrigar a combater nas suas fileiras». Quais siglas? Só vejo uma! Mas sigla, sim, ao contrário de TALGO, que é um acrónimo, isto é, uma sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de várias outras palavras e que não se pronuncia letra a letra, mas sim como uma palavra corrente. Tanto é assim que se vê comummente Talgo e não TALGO.

[Post 3137]

Sobre «víquingue»

Porcos e putativos


      «O acrónimo PIGS é um insulto inaceitável (mas que faz pena) por parte dos bárbaros viquinques [sic] do Norte sobre os pachorrentos bons vivants do Sul» («Há-de ir para os porcos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.02.2010, p. 39).
      Alguns ignorantes pensarão que a Miguel Esteves Cardoso tudo fica bem. Só ele poderá usar, sem nos rirmos por isso, a palavra «viquingue». No meu caso, sempre embirrei com a palavra «viking». Ao menos os Espanhóis, a quem me habituei, desde tenra idade (eu era para ter nascido espanhol) a ouvir, dizem vikingo. No Ciberdúvidas (raios os partam) só se lembraram de dizer, mas isso, é verdade, já foi há dez anos, que o «Michaelis regista víquingue, “relativo aos Víquingues, navegadores escandinavos que pilhavam as povoações litorâneas da Europa, entre os séculos VIII e X”» e o «“Vocabulário da Língua Portuguesa” de Rebelo Gonçalves e os dicionários portugueses consultados não referem o termo». Ainda não tinha sido publicado o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que podia ser o melhor dicionário da língua portuguesa — mas alguém não quis ou não se esforçou e, de melhor, passou a putativo melhor. E agora fiquei escandalizadíssimo (e não devia, eu sei) porque este dicionário não regista viquingue nem víquingue. Entre aportuguesamentos legítimos e semiaportuguesamentos manhosos, esqueceu-se do que podia ser consensual. Não voltem.

[Post 3136]

Solicitadores e juristas

Sr. Agente


      «Mas os visados não estavam na sede e a funcionária contactada recusou-se, no entanto, a assinar a notificação. Durante várias horas, os dois juristas voltaram várias vezes às instalações do jornal, até que à sexta visita deixaram a notificação ao segurança do edifício» («Pelo menos duas providências cautelares tentaram impedir o Sol de publicar escutas», Mariana Oliveira com A. A. M., S. J. A. e A. M., Público, 12.2.2010, p. 3).
      E que juristas eram aqueles? Pois eram um solicitador de execução e uma advogada. Deve ter sido das escassíssimas vezes que vi um solicitador ser tratado por jurista. É-o? Bem, os dicionários dizem que jurista é a pessoa versada em leis e que, no exercício da sua profissão, dá pareceres sobre questões jurídicas. Mas não nos podemos cingir ao que dizem os dicionários gerais, naturalmente. Por alteração introduzida pelo Decreto-Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, art. 5.º n.º 1), passaram a ser designados por agentes de execução. Estes profissionais não actuam como mandatários das partes, e, se bem que só possam exercer as funções de agente de execução solicitadores e advogados que tenham concluído, com aproveitamento, o estágio de agente de execução, entre outros requisitos formais, no desempenho da função de agentes de execução não dão pareceres sobre questões jurídicas. Leandro Siopa, solicitador nas comarcas da Marinha Grande, Pombal e Leiria, tem um blogue com o título Solicitador — jurista de proximidade.
      Não chego, é claro, a dizer, como, a propósito da tradução de termos relacionados com as profissões jurídicas inglesas (solicitor, counsel, barrister), me disse recentemente uma figura pública, que os solicitadores «não passam de moços de recados dos advogados». Esta é, evidentemente, uma visão errada da realidade.

[Post 3135]

Plural e género de «pitão»

Cobras e lagartos


      «Na tarde de terça-feira, elementos da GNR do Núcleo de Protecção da Natureza e do Ambiente encontraram nas duas casas 39 cobras-do-milho, duas pitãos, que mediam entre os 20 e os 98 cm, e cinco dragões-barbudos» («GNR apanhou 46 cobras e lagartos sem documentos», Diário de Notícias, 11.2.2010, p. 21).
      Mas pitão não é do género masculino? Mas pitão não faz o plural em pitões? Para não haver confusões, não era melhor escrever píton/pítones (ou pítons)? No sítio do Jardim Zoológico de Lisboa, pode ler-se: «Os pitões têm dentição aglifa (dentes cónicos não-inoculadores de veneno).»

[Post 3134]

«Corta-fogo»

Antifogo


      «A existência de muretes (pequenos muros) corta-fogo pombalinos no topo do número 24 da Rua Nova do Almada, em cuja cobertura deflagrou na madrugada passada o incêndio que fez uma vítima mortal e deixou duas pessoas desalojadas, terá sido determinante para evitar a propagação das chamas aos edifícios contíguos» («Construção pombalina pode ter evitado nova tragédia no Chiado», Inês Boaventura, Público, 12.2.2010, p. 27).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista como invariável este adjectivo. O Dicionário Houaiss, por sua vez, sem o registar como tal, no exemplo que dá usa-o como invariável. No sítio do Colégio Santo Américo, em São Paulo, no Brasil, fundado por monges beneditinos húngaros, lê-se que correcta é a frase «Comprei duas portas corta-fogos». Já agora, em inglês diz-se fire-rated walls.

[Post 3133]

Actualização em 19.4.2010

      Por vezes, também se lê corta-incêndios: «Subi no elevador para o segundo andar, passei por duas portas corta-incêndios e percorri o longo corredor, cujo soalho polido rangia de forma familiar» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 409).



Intimidar/intimar

Fazer entrar no espírito


      Enquanto Mário Crespo estava no Grémio Literário no lançamento do seu livro A Última Crónica, a sua cadeira na Sic Notícias era ocupada pelo jornalista Miguel Ribeiro. Quando entrevistou João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, perguntou: «Acha que fazem bem os jornalistas não cederem a estas intimidações judiciais?» Referia-se, é claro, à providência cautelar interposta por Rui Pedro Soares, administrador da PT. Um jornalista confundir intimar com intimidar é lamentável. Intimar é tornar ciente com autoridade oficial; notificar. Intimidar é inspirar receio, medo ou temor a; amedrontar. Não há dúvida de que, com uma intimação, se consegue intimidar uma pessoa. Em latim, intĭmo,as,āvi,ātum,are é fazer algo penetrar. Só em sentido figurado é que significa fazer algo (uma ordem) penetrar no espírito de outrem; interpelar; notificar. É disso que estes jornalistas precisam: que alguém lhes faça penetrar na mente a diferença.

[Post 3132]

Sobre Wrens

Às ordens


      «[…] quando, um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial, ingressou nas Wrens […]».
      Popularmente, e até oficialmente, conhecido como Wrens, sim, mas a partir do acrónimo de Women’s Royal Naval Service. Era o ramo feminino da Marinha Real britânica. Se designa uma entidade, um organismo, não tem de ser grafado em itálico.

[Post 3131]

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