Sobre «víquingue»

Porcos e putativos


      «O acrónimo PIGS é um insulto inaceitável (mas que faz pena) por parte dos bárbaros viquinques [sic] do Norte sobre os pachorrentos bons vivants do Sul» («Há-de ir para os porcos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.02.2010, p. 39).
      Alguns ignorantes pensarão que a Miguel Esteves Cardoso tudo fica bem. Só ele poderá usar, sem nos rirmos por isso, a palavra «viquingue». No meu caso, sempre embirrei com a palavra «viking». Ao menos os Espanhóis, a quem me habituei, desde tenra idade (eu era para ter nascido espanhol) a ouvir, dizem vikingo. No Ciberdúvidas (raios os partam) só se lembraram de dizer, mas isso, é verdade, já foi há dez anos, que o «Michaelis regista víquingue, “relativo aos Víquingues, navegadores escandinavos que pilhavam as povoações litorâneas da Europa, entre os séculos VIII e X”» e o «“Vocabulário da Língua Portuguesa” de Rebelo Gonçalves e os dicionários portugueses consultados não referem o termo». Ainda não tinha sido publicado o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que podia ser o melhor dicionário da língua portuguesa — mas alguém não quis ou não se esforçou e, de melhor, passou a putativo melhor. E agora fiquei escandalizadíssimo (e não devia, eu sei) porque este dicionário não regista viquingue nem víquingue. Entre aportuguesamentos legítimos e semiaportuguesamentos manhosos, esqueceu-se do que podia ser consensual. Não voltem.

[Post 3136]

Solicitadores e juristas

Sr. Agente


      «Mas os visados não estavam na sede e a funcionária contactada recusou-se, no entanto, a assinar a notificação. Durante várias horas, os dois juristas voltaram várias vezes às instalações do jornal, até que à sexta visita deixaram a notificação ao segurança do edifício» («Pelo menos duas providências cautelares tentaram impedir o Sol de publicar escutas», Mariana Oliveira com A. A. M., S. J. A. e A. M., Público, 12.2.2010, p. 3).
      E que juristas eram aqueles? Pois eram um solicitador de execução e uma advogada. Deve ter sido das escassíssimas vezes que vi um solicitador ser tratado por jurista. É-o? Bem, os dicionários dizem que jurista é a pessoa versada em leis e que, no exercício da sua profissão, dá pareceres sobre questões jurídicas. Mas não nos podemos cingir ao que dizem os dicionários gerais, naturalmente. Por alteração introduzida pelo Decreto-Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, art. 5.º n.º 1), passaram a ser designados por agentes de execução. Estes profissionais não actuam como mandatários das partes, e, se bem que só possam exercer as funções de agente de execução solicitadores e advogados que tenham concluído, com aproveitamento, o estágio de agente de execução, entre outros requisitos formais, no desempenho da função de agentes de execução não dão pareceres sobre questões jurídicas. Leandro Siopa, solicitador nas comarcas da Marinha Grande, Pombal e Leiria, tem um blogue com o título Solicitador — jurista de proximidade.
      Não chego, é claro, a dizer, como, a propósito da tradução de termos relacionados com as profissões jurídicas inglesas (solicitor, counsel, barrister), me disse recentemente uma figura pública, que os solicitadores «não passam de moços de recados dos advogados». Esta é, evidentemente, uma visão errada da realidade.

[Post 3135]

Plural e género de «pitão»

Cobras e lagartos


      «Na tarde de terça-feira, elementos da GNR do Núcleo de Protecção da Natureza e do Ambiente encontraram nas duas casas 39 cobras-do-milho, duas pitãos, que mediam entre os 20 e os 98 cm, e cinco dragões-barbudos» («GNR apanhou 46 cobras e lagartos sem documentos», Diário de Notícias, 11.2.2010, p. 21).
      Mas pitão não é do género masculino? Mas pitão não faz o plural em pitões? Para não haver confusões, não era melhor escrever píton/pítones (ou pítons)? No sítio do Jardim Zoológico de Lisboa, pode ler-se: «Os pitões têm dentição aglifa (dentes cónicos não-inoculadores de veneno).»

[Post 3134]

«Corta-fogo»

Antifogo


      «A existência de muretes (pequenos muros) corta-fogo pombalinos no topo do número 24 da Rua Nova do Almada, em cuja cobertura deflagrou na madrugada passada o incêndio que fez uma vítima mortal e deixou duas pessoas desalojadas, terá sido determinante para evitar a propagação das chamas aos edifícios contíguos» («Construção pombalina pode ter evitado nova tragédia no Chiado», Inês Boaventura, Público, 12.2.2010, p. 27).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista como invariável este adjectivo. O Dicionário Houaiss, por sua vez, sem o registar como tal, no exemplo que dá usa-o como invariável. No sítio do Colégio Santo Américo, em São Paulo, no Brasil, fundado por monges beneditinos húngaros, lê-se que correcta é a frase «Comprei duas portas corta-fogos». Já agora, em inglês diz-se fire-rated walls.

[Post 3133]

Actualização em 19.4.2010

      Por vezes, também se lê corta-incêndios: «Subi no elevador para o segundo andar, passei por duas portas corta-incêndios e percorri o longo corredor, cujo soalho polido rangia de forma familiar» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 409).



Intimidar/intimar

Fazer entrar no espírito


      Enquanto Mário Crespo estava no Grémio Literário no lançamento do seu livro A Última Crónica, a sua cadeira na Sic Notícias era ocupada pelo jornalista Miguel Ribeiro. Quando entrevistou João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, perguntou: «Acha que fazem bem os jornalistas não cederem a estas intimidações judiciais?» Referia-se, é claro, à providência cautelar interposta por Rui Pedro Soares, administrador da PT. Um jornalista confundir intimar com intimidar é lamentável. Intimar é tornar ciente com autoridade oficial; notificar. Intimidar é inspirar receio, medo ou temor a; amedrontar. Não há dúvida de que, com uma intimação, se consegue intimidar uma pessoa. Em latim, intĭmo,as,āvi,ātum,are é fazer algo penetrar. Só em sentido figurado é que significa fazer algo (uma ordem) penetrar no espírito de outrem; interpelar; notificar. É disso que estes jornalistas precisam: que alguém lhes faça penetrar na mente a diferença.

[Post 3132]

Sobre Wrens

Às ordens


      «[…] quando, um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial, ingressou nas Wrens […]».
      Popularmente, e até oficialmente, conhecido como Wrens, sim, mas a partir do acrónimo de Women’s Royal Naval Service. Era o ramo feminino da Marinha Real britânica. Se designa uma entidade, um organismo, não tem de ser grafado em itálico.

[Post 3131]

«Irrecomendável» e «sobreendividamento»

Outros fretes


      «Noticiou a edição de ontem do Diário Económico que o acrónimo “PIGS”, composto pelas iniciais de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha e utilizado pelos mercados internacionais para designar os países com tradições irrecomendáveis de défices elevados, sobrendividamento e altos índices de desemprego, viu nascer um irmão gémeo» («Porcos e estúpidos», José Luís Seixas, Destak, 10.2.2010, p. 19).
      Embora ainda não conste dos dicionários (mas a edição Primavera-Verão, perdão, de 2011, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora parece que vai incluí-lo), é sobreendividamento a grafia correcta, com dois ee. (Claro que a revisora não pode mexer numa vírgula do texto do Sr. Dr., que pode ofender-se.) Irrecomendável também não consta dos dicionários, nem é preciso para ser usado.

[Post 3130]

Como se escreve nos jornais

Fretes


      Como todos os empregados e funcionários, os jornalistas têm de cumprir as tarefas de que os incumbem. Por vezes, escrevem sobre temas que não dominam nem apreciam. Na edição de ontem do Destak, Margarida Caetano escreveu, a propósito do Dia dos Namorados, um texto com o título «Descubra os seis melhores afrodisíacos do mundo». Xarope de sangue de cobra, espetadas de baiacu, crocantes de formiga culona... Quando chegou ao suco da mosca espanhola (Cantharis vesicatoria, cantárida), já celebrado por Júlio César e pelo marquês de Sade, afirmou que só se recomendam as «versões» destiladas e que se podia encontrar na «Europa, em qualquer bom boticário». Dito assim, acho que é mais fácil encontrarmos uma mosca espanhola do que um boticário...

[Post 3129]

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