«Irrecomendável» e «sobreendividamento»

Outros fretes


      «Noticiou a edição de ontem do Diário Económico que o acrónimo “PIGS”, composto pelas iniciais de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha e utilizado pelos mercados internacionais para designar os países com tradições irrecomendáveis de défices elevados, sobrendividamento e altos índices de desemprego, viu nascer um irmão gémeo» («Porcos e estúpidos», José Luís Seixas, Destak, 10.2.2010, p. 19).
      Embora ainda não conste dos dicionários (mas a edição Primavera-Verão, perdão, de 2011, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora parece que vai incluí-lo), é sobreendividamento a grafia correcta, com dois ee. (Claro que a revisora não pode mexer numa vírgula do texto do Sr. Dr., que pode ofender-se.) Irrecomendável também não consta dos dicionários, nem é preciso para ser usado.

[Post 3130]

Como se escreve nos jornais

Fretes


      Como todos os empregados e funcionários, os jornalistas têm de cumprir as tarefas de que os incumbem. Por vezes, escrevem sobre temas que não dominam nem apreciam. Na edição de ontem do Destak, Margarida Caetano escreveu, a propósito do Dia dos Namorados, um texto com o título «Descubra os seis melhores afrodisíacos do mundo». Xarope de sangue de cobra, espetadas de baiacu, crocantes de formiga culona... Quando chegou ao suco da mosca espanhola (Cantharis vesicatoria, cantárida), já celebrado por Júlio César e pelo marquês de Sade, afirmou que só se recomendam as «versões» destiladas e que se podia encontrar na «Europa, em qualquer bom boticário». Dito assim, acho que é mais fácil encontrarmos uma mosca espanhola do que um boticário...

[Post 3129]

Pleonasmo

Cuidado


      Claro que há pleonasmos e pleonasmos. «Apenas uma coisa foi alterada: viu-se obrigado a deixar escapar uma “fuga” de informação sobre a sua corrida à liderança do partido. “Eu disse a toda a comunicação social que só falaria sobre esta matéria na sexta-feira e eu tenho esse terrível hábito: eu cumpro sempre o que digo, eu cumpro a minha palavra”, declarou [José Pedro Aguiar-Branco], à saída do Parlamento, numa crítica, indirecta e azeda, ao avanço de Rangel» («Aguiar-Branco não recua mas altera estratégia de candidatura ao PSD», Filomena Fontes, Luciano Alvarez e Nuno Simas, Público, 11.2.2010, p. 9).
      Não bastava terem escrito «deixar escapar informação»?

[Post 3128]

«Solução de continuidade»

Críticos mas justos


      Na emissão de ontem do programa Directo ao Assunto, na RTPN, Emídio Rangel, que defende o Governo e Sócrates como ninguém (nem os socialistas) no País, ainda teve tempo de elogiar o discurso em que Paulo Rangel anunciou a candidatura à liderança do PSD. Pois a mim não me pareceu nada de memorável, bem pelo contrário. Com os adjectivos, previsíveis e bem-comportadinhos, a ampararem, simples ou aos pares, os substantivos, parecia uma composição das alunas da minha mulher — que têm 10 anos!
      Para ser justo, porém, ilibo-o da acusação de ontem: afinal, caro Francisco, o homem conhecerá a definição de solução de continuidade, que, de resto, nem sequer usou. Veja-se: «Só há um candidato no terreno e eu já tinha dito que não o apoiava. A solução que ele [Pedro Passos Coelho] apresenta é de continuidade, apesar de ter usado no seu livro o título “mudar”» («“A ruptura de que o país precisa é libertar o futuro”», Leonete Botelho, Público, 11.2.2010, p. 8).

[Post 3127]

Verbo «reaver»

Vergonha


      Não, cara Maria Luísa, não estamos de acordo: veja por aí se não encontra, em vez da correcta forma reouve, a errada *reaveu. Em acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça, em jornais, em páginas da Internet de organismos oficiais, em blogues... A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo reaver é reouve. O verbo reaver é formado de haver (re + haver). Reaver, nunca é inútil lembrá-lo, é um verbo defectivo, só se conjuga nas formas que conservam o v do radical. E pensar que quem escreve assim pode andar por aí a debitar opiniões sobre o Acordo Ortográfico de 1990...

[Post 3126]

Ortografia: «subcontinente»

Subcategoria


      «Desta forma, as únicas regiões que podiam, de forma plena, fazer parte do “sistema” de Bretton Woods eram os Estados Unidos e o Canadá, a Europa não comunista, a Australásia, o Japão, a América Latina e (após 1947) o sub-continente indiano» (O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas, Paul Kennedy. Tradução de Artur Sousa/CEQO e revisão de Luís Abel Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2009, p. 140).
      É absolutamente incrível como tantos tradutores e revisores — revisores, meu Deus! — são avessos a consultarem dicionários e prontuários. Se estes o tivessem feito, teriam ficado a saber que o elemento de formação de palavras sub- só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r. E nunca é um caso isolado: «O Ocidente podia estar agora a dar-lhes as boas-vindas ao clube, por vezes, contudo, com condescendência e auto-comprazimento, e esquecendo-se demasiado rapidamente dos danos que tinham sido causados» (ibidem, idem, p. 144). Não digo que as consequências sejam tão graves como as de um erro médico, mas, caramba, não são profissionais?

[Post 3125]

Sobre «crítico»

Decisivo


      «Para Zorrinho, o carro eléctrico é “crítico” para dar sustentabilidade económica e social ao investimento feito em energias renováveis» («Carro eléctrico não precisa de mais energia mas de redes inteligentes», Lurdes Ferreira, Público, 10.2.2010, p. 23).
      É impressão minha ou nenhum dicionário da língua portuguesa regista o adjectivo crítico na acepção — essencial, decisivo — usada na frase citada? E não são poucas as vezes que a acepção é usada, seja na oralidade, seja na escrita. Claro que a realidade vai sempre à frente dos dicionários. E a acepção não deverá nada ao inglês critical?

[Post 3124]

Desnutrição/malnutrição

Exprime oposição


      «Um homem foi ontem socorrido, em Port au Prince, depois de ter passado 27 dias debaixo dos escombros de um mercado. Os médicos confirmam que o homem apresentava sinais de extrema desidratação e malnutrição, embora tenha tido acesso a água ao longo destas quatro semanas, caso contrário os médicos garantem que teria morrido. O corpo humano não sobrevive mais de cinco dias sem ingerir líquidos» («Haitiano sobreviveu quase um mês debaixo dos escombros», Susana Almeida Ribeiro, Público, 10.2.2010, p. 18).
      Até pela proximidade do vocábulo desidratação, a malnutrição preferiria desnutrição, comummente considerado mais conforme com a língua portuguesa. O Dicionário Houaiss, por exemplo, se regista malnutrido, não regista malnutrição.
      Não percebo porque é que o jornal Público grafa o nome da capital do Haiti sem hífenes. Deve ser caso único na imprensa portuguesa.

[Post 3123]



Actualização no mesmo dia

      É sempre possível fazer melhor, costumo dizer — e pior: «Apesar de o Fascismo e o Comunismo terem obtido um forte apelo psicológico, ambas as ideologias floresceram no canteiro do desespero económico — desemprego, mal-nutrição, pobreza, maus cuidados de saúde e grandes desigualdades sociais» (O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas, Paul Kennedy. Tradução de Artur Sousa/CEQO e revisão de Luís Abel Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2009, p. 136).

Actualização no dia 11.2.2010

      Na edição de ontem do Metro, lia-se que «Muncie estava desidratado e desnutrido, mas sem ferimentos graves» («30 dias sob escombros, Metro, 10.2.2010, p. 9).

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