Sobre «corporação»

Anglicismo semântico


      «De facto, este avanço sujeitou-se a algumas condições e constrangimentos, pois as Nações Unidas nunca poderiam escapar ao paradoxo central a muitos organismos internacionais, ou seja, uma vez que esta Organização foi criada pelos Estados-membros, que funcionam como accionistas de uma corporação, só pode funcionar com eficiência quando recebe o apoio dos governos nacionais, principalmente daqueles que representam grandes potências» (O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas, Paul Kennedy. Tradução de Artur Sousa/CEQO e revisão de Luís Abel Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2009, p. 14).
      Apesar de relativa reabilitação do termo corporação, nem todos os dicionários gerais o registam na acepção de empresa. O Dicionário Houaiss, contudo, regista a acepção, por extensão de sentido, «empresa ou grupo de empresas de grande porte e de forte presença em um ou mais sectores». Reparem: «de grande porte». Não qualquer empresa. O vocábulo inglês corporation pode traduzir-se por empresa anónima ou apenas empresa, e corporative pode traduzir-se por empresarial. (E o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, que regista como acepções de corporation, no âmbito do comércio, «sociedade, companhia», em relação a corporative regista somente «corporativo». Onde está a visão de conjunto?) Salvo melhor opinião, não me parece que precisemos da acepção.

[Post 3122]


Actualização em 11.2.2010

      É claro que, quando se trata da imagem empresarial, os empresários e os próprios jornalistas acham mais prestigiante «imagem corporativa»: «A Sonae investiu 700.000 euros para lançar a sua nova identidade corporativa, divulgada ontem no Porto. A IVITY foi a agência responsável» («Mudança corporativa», Metro, 11.2.2010, p. 9).

«Aulas de alfabetização»

Pior que suicidar-se


      Caro Francisco: em relação a suicidar-se não sinto nenhuma estranheza. E não há-de ser porque também é assim, pronominal reflexo, noutras línguas neolatinas, mas porque as línguas não têm lógica e, no caso do português, não faltam redundâncias e ilogismos. Agora, estava aqui a rever um texto em que se podia ler: «A maioria das mulheres que chegam ao centro não sabem ler nem escrever. Recebem aulas de alfabetização, higiene e culinária, e aprendem a montar a e gerir um negócio, como costura, fabrico de sabão, criação de gado, jardinagem…» A alfabetização não é a acção de alfabetizar, isto é, e no sentido mais lato, ensinar a ler e a escrever? Se aquelas mulheres, que não sabem ler nem escrever, chegam ao centro, seja lá onde for, poderão assistir a aulas de alfabetização? Não se destinarão estas aulas apenas a quem já está alfabetizado, porventura futuros professores? Estão a ver a contradição? Contudo, a expressão é muitíssimo comum.

[Post 3121]

Léxico: «buchmanita»

Na ultravida


      Caro A. M.: não, não, em português, aos seguidores do evangelista norte-americano Frank N. D. Buchman (1878–1961) só podemos dar o nome de Buchmanitas. Buchmanites é para os Ingleses. Melhor: nem merecem a maiúscula inicial: buchmanitas. Simpatizante do nazismo, Buchman declarou uma vez que dava graças por um homem como Hitler, que estava a construir uma frente de defesa contra o Anticristo do comunismo. Na sua ultravida, há-de (sim, Lucas Lindegaard, este hífen é mesmo disparatado!) estar agora a conversar com Hugo Johannes Blaschke e o próprio ídolo (que, agora já sabemos, e não é graças à imprensa, sofria de parodontose).

[Post 3120]

«Deão», de novo

Deão de Porto Príncipe


      E em francês também se usa: «Pierre Vernet, linguiste et doyen de la faculté de Linguistique appliquée, figure parmi les nombreuses victimes emportées par le monstre du 12 janvier. Une perte énorme pour l’intelligentsia haïtienne.» (Ver aqui a notícia completa.) Doyen, homme ou femme qui administre et dirige une faculté. Há vários latins. O dicionário Le Trésor de la Langue Française Informatisé regista que doyen vem do latim cristão decanus. Pierre Vernet, decano da Faculdade de Linguística Aplicada da Universidade Estatal do Haiti, em Porto Príncipe, foi mais uma vítima do terremoto de 12 de Janeiro.

[Post 3119]

Sobre «responsivo»

Desnecessário, parece-me


      O leitor R. A. pergunta: «“Desejo sexual espontâneo versus responsivo” ou “Desejo sexual espontâneo versus reativo”? “Tanto em doentes letárgicos como em doentes responsivos” ou “Tanto em doentes letárgicos como em doentes que reagem aos estímulos”? A minha dúvida é saber se a palavra “responsivo” é um anglicismo dispensável ou se acha que já ganhou direito de pertencer à língua portuguesa sem reservas.»
      Tenho uma posição ambivalente em relação a esta matéria. Por um lado, acho que não devemos incorporar indiscriminadamente na língua estrangeirismos quando temos forma de, mesmo lançando mão de perífrases, exprimir a ideia. Por outro lado, sou mais receptivo à ideia de enriquecer a língua incorporando acepções de vocábulos que já temos, desde que a necessidade seja evidente. No caso, já temos o termo responsivo (com o mesmo étimo do inglês responsive), mas não a acepção. Falta averiguar da necessidade. Parece-me que reactivo traduz bem a ideia.

[Post 3118]

Nomenclatura científica

Nunca mais


      «A clostridium difficile é uma bactéria que provoca uma diarreia grave e exige tratamento com antibiótico» (Como os Médicos Chegam ao Diagnóstico, Dr.ª Lisa Sanders. Tradução de Maria João Camacho. Revisão técnica da Dr.ª Leonor Prata e revisão linguística de Catarina Sacramento. Alfragide: Caderno, 2010, p. 194).
      Nos jornais ainda compreendo (a pressa, a falta de revisores, etc.). Nos livros, e, neste caso, com dupla revisão, é imperdoável. É uma profissão cheia de amadores e curiosos, isso sim. E não acredito que esteja assim mal grafado no original.

[Post 3117]

«Coroner», de novo

Vale a pena ver de novo


      Acabei de ler numa obra publicada no passado mês de Janeiro: «O médico legista e o coroner são dois braços da investigação que são designados para analisar mortes inesperadas. A diferença mais importante entre os dois sistemas é que os médicos legistas são sempre médicos, quase sempre patologistas, e nomeados pelo estado; o coroner é um funcionário eleito e raramente é médico de profissão» (Como os Médicos Chegam ao Diagnóstico, Dr.ª Lisa Sanders. Tradução de Maria João Camacho. Revisão técnica da Dr.ª Leonor Prata e revisão linguística de Catarina Sacramento. Alfragide: Caderno, 2010, p. 346).
      Já abordei aqui mais de uma vez esta questão da função do coroner. Uma nota de rodapé na página citada explica que médico legista (e deveria estar grafado médico-legista) é a tradução de medical examiner.

[Post 3116]

Sistema jurídico inglês

Diferenças e semelhanças


      «Os advogados dividem-se em várias categorias: os Junior Barriest, que apenas trabalham nos tribunais, porque o trabalho de escritório é feito pelos Solicitors, que também são advogados. Ao fim de 15 anos de experiência são considerados Barriest. Mediante o seu trabalho nos tribunais e o comportamento que têm na vida “privada”, podem ser considerados Queen’s Counsel» (Inocente, Not Guilty, Patrícia Lucas e Nicolas Bento. Revisão de Manuel Henrique Figueira. Alfragide: Academia do Livro, 2010).
      A escrita não é recomendável, e a culpa não há-de ser, palpita-me, do co-autor Nicolas Bento, mas da jornalista Patrícia Lucas. Vejam as semelhanças do trecho citado com um parágrafo deste post. E aqui, uma reportagem da RTP sobre o caso.

[Post 3115]

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