Léxico: «parodontose»

Coitado!...


      «“É muito provável que Hitler padecesse de uma forte halitose”, disse a especialista [Menevse Deprem-Hennen na sua tese de doutoramento], acrescentando que o ditador nazi se alimentava “muito mal” e sofria de “paradontose” [sic]» («Adolf Hitler tinha mau hálito», Global Notícias, 8.2.2010, p. 8).
      Os dicionários gerais, como o Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não registam o vocábulo parodontose. É a inflamação crónica dos tecidos moles em redor dos dentes. Já halitose é muito mais comum, e ambos os dicionários o registam. O especialista pessoal em odontologia ao serviço de Hitler, o general da SS Hugo Johannes Blaschke (1881–1959), não conseguiu resolver estes problemas do ditador. A minha leitora Sara Carolina Fidelis há-de gostar de saber isto.

[Post 3114]

«Deão»

Livresco


      «Os membros dos níveis superiores da hierarquia universitária, como o reitor, o deão e os chefes de departamento, tinham o mesmo tipo de automóvel que Zuhair, com as mesmas matrículas reveladoras» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, p. 138).
      Talvez, afinal, deão seja vocábulo usado apenas nas traduções. Contudo, antes deão que dean.

[Post 3113]

Retirar/retirar-se

E vieram os Russos


      O leitor F. A. pergunta: «Verifico que, em notícias de jornais e livros de história, se usa sistematicamente o verbo RETIRAR como verbo intransitivo ou de significação completa: “No dia 22 de Agosto [de 1943] as tropas alemãs retiraram de Kharkov.” É isto correcto?»
      É correcto, sim. Os dicionários de verbos são unânimes: o verbo retirar na acepção de marchar ou bater em retirada, recuar, retroceder, é intransitivo e pronominal. Assim, podemos escrever: «No dia 22 de Agosto, as tropas alemãs retiraram de Kharkov» ou «No dia 22 de Agosto, as tropas alemãs retiraram-se de Kharkov».

[Post 3112]

Mitridatismo/mitridatização

E depois?


      «Um país que foi sujeito a um processo de mitridatização acaba por engolir todos os venenos sem ter efeitos. É como estamos hoje: por venenoso que seja o que sabemos sobre o comportamento da Casa de Sócrates, já não reagimos como devíamos, tão contínuas foram as doses de veneno que tivemos que tomar, que achamos tudo normal», escreveu Pacheco Pereira no Abrupto. Logo vieram pseudoclassicistas clamar, em mau português, que o neologismo vinha obrigar uma esmagadora maioria a pesquisar o termo. Será mesmo assim? Para quem já conhecia o vocábulo mitridatismo («processo de imunização contra os efeitos de um ou vários venenos que consiste em ministrar ao paciente doses gradualmente crescentes deste(s) mesmo(s) veneno(s)», define o Dicionário Houaiss), é claro que não.
      Quanto a ser um neologismo. Bem, a língua regista o verbo mitridatizar há muito. E mitridatização em vez de mitridatismo compreende-se, pois, como também regista o Dicionário Houaiss em relação ao elemento pospositivo de composição -ação, formador de substantivos verbais de acção, «em princípio, qualquer verbo português da 1.ª conjugação tem um substantivo nessas condições, mesmo que para uso ad hoc por parte do decisor, mas quase sistematicamente aceito pelo ouvinte ou legente».

[Post 3111]

Direitos Humanos/direitos humanos/direitos Humanos

Boa questão


      «Apesar de os crimes de honra serem comuns na Turquia, este caso chocou o país. O governo e associações de Direitos Humanos têm feito esforços para pôr fim a este tipo de crimes, mas eles continuam a ocorrer com frequência, sobretudo no Sueste do país, onde predomina a comunidade curda» («Enterrada viva por ter amigos rapazes», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 6.2.2010, p. 35).
      O Código de Redacção Interinstitucional, porventura o único documento com (limitado) poder normativo a abordar a questão, manda grafar «direitos do Homem ou direitos Humanos (maiúscula quando usado no sentido geral». Aqui, todos devemos ter culpa, pois deixamos que ora se escreva Direitos Humanos ora direitos humanos. Percebo a lógica, mas não me lembro de alguma vez ter lido como o Código de Redacção Interinstitucional estabelece.

[Post 3110]

Sobre «adição»

Boas contas


      «A cumprir as últimas semanas de tratamento a um problema de adição de sexo, Woods já sonha vencer o quinto troféu da prova» («Empresário desafia Tiger Woods para regressar em Abril», Correio da Manhã/Sport, 6.2.2010, p. 24).
      «Adição de sexo». Nunca melhor dito. Afinal, o golfista teve sete amantes nos últimos anos. Sempre a somar. Adição, pois.

[Post 3109]

Concordância com «a maior parte»

É só escolher


      O leitor F. A. quer saber como deve fazer a concordância verbal na seguinte frase: «“A maior parte dos soldados japoneses suicidou-se para não ter de enfrentar aquilo que para eles era a humilhação pessoal do cativeiro”, ou “a maior parte dos soldados japoneses suicidaram-se para não terem de...” A minha inclinação vai para a primeira, mas...»
      ... os estudiosos, e eu também, admitem que nas frases começadas por «A maioria», «A maior parte» e outras o verbo tanto pode ir para o plural (concordância semântica ou siléptica) como para o singular (concordância sintáctica). Logo, há-de ser uma questão de gosto e talvez, mas só talvez, de pretendermos realçar o complemento da expressão.

[Post 3108]

Feminino de «reverendo»

Pela igualdade


      «Aos guardas e à juíza que ontem os interrogou no Tribunal de Moura os dois ladrões de um gang de cinco brasileiros que fez carjackings e se envolveu em tiroteios com a GNR nas zonas de Barrancos e Moura disseram que o autor dos disparos foi um dos dois membros do grupo que ainda estão a monte» («Presos culpam os dois fugitivos», Alexandre M. Silva, Correio da Manhã, 6.2.2010, p. 17).
      Até recentemente, hesitava-se ou não se usava mesmo a forma feminina de «juiz». Contudo, juiz não é um substantivo comum de dois. Acontece é que, antes do 25 de Abril, as mulheres não tinham acesso à carreira na magistratura, na diplomacia, nas Forças Armadas e na polícia. Aliás, em 1974, apenas 25 % dos trabalhadores eram mulheres. Como é que havia de se usar o feminino juíza?
      O intróito serve para abordar uma questão trazida por um leitor, Miguel Baptista. «Acha legítimo, no caso de uma sacerdotisa presbiteriana dos EUA, usar a forma “reverenda” para traduzir reverend (tal como em “sacerdotisa”, “pastora” ou até “ministra”; só “padre” não terá uma forma feminina evidente, porventura)? Bem sei que soa estranho, mas digo-lhe que me causa infinitamente menos espécie do que a forma do masculino. “O jornalista abordou o reverendo Smith, e ela disse estar indisponível”, por exemplo, soa-me pura e simplesmente ilógico.» Acho legítimo, sim, e lógico. O nosso vocábulo «reverendo», tanto o adjectivo como o substantivo, provém do adjectivo latino reverēndus,a,um, «digno de veneração, venerável». Em suma, é tão legítimo usar reverenda como usar juíza.

[Post 3107]

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