Léxico: «canola»

Pelo menos do reino vegetal


      «A paisagem é de cortar a respiração — montanhas de florestas antigas e intocadas; vales profundos atravessados por rios pintados de azul pelo céu sem par; planaltos férteis a perder de vista, que engordam os carneiros durante o Inverno e se revestem ao longo dos Verões escaldantes com o amarelo e o dourado do trigo e da canola» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 23).
      Neste caso, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que nos deixa na ignorância: o mais aproximado que regista é «canoula», a haste ou cana do milho (que também é um termo heráldico, que designa o emblema do brasão com a forma daquela haste). O Dicionário Houaiss, contudo, diz-nos que a canola é a «variedade genética da colza (Brassica napus), do grupo Pabularia, desenvolvida no Canadá, durante a década de 1970, para extracção do óleo das sementes, com níveis reduzidos de ácidos gordos saturados, especialmente usado em culinária (frituras, saladas, margarinas, maioneses, etc.) e muito consumida no Canadá, principal país produtor e exportador». É o acrónimo de Canadian oil, low acid, «óleo canadiano de baixo teor ácido».

[Post 3104]

Sobre «permilagem»

Desilusão


      Estava aqui a confirmar o quórum constitutivo para uma segunda reunião da assembleia de condóminos, e que descubro ao consultar o Dicionário Houaiss? Pois que este dicionário não regista o termo «permilagem» (‰). E, no entanto, o termo é usado, como sabem, não apenas em referência ao capital nos condomínios, como também na ciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora dá o exemplo da salinidade da água do mar. Os Brasileiros, ao que parece, não usam o conceito. Os dicionários de língua inglesa, pelo contrário, registam permillage, «a rate or proportion per thousand».

[Post 3104]

Como se escreve nos jornais

Lamentável


      «Na carrinha entretanto recuperada (fora furtada no ano passado na zona de Castelo Branco e circulava com diversas matrículas falsas), a GNR veio a encontrar pás e enxadas, algumas peças de vestuário e dois detonadores eléctricos. As pás e as enxadas significam que os suspeitos teriam já escavado um zuro (esconderijo no chão onde colocam recipientes com armamento). Apesar da descoberta dos detonadores, a GNR só veio a comunicá-la à PJ no final da tarde de quinta-feira» («GNR descobriu em Óbidos mais explosivos do que a ETA fez rebentar em 2009», José Bento Amaro, Alexandra Barata e Nuno Ribeiro, Público, 6.2.2010, p. 10).
      Que interesse pode ter para os leitores portugueses saberem que em basco se chama zuro ao esconderijo no chão onde se ocultam recipientes com armamento? Por mim falo: nada. E mais: está errado. A palavra é zulo, que significa «buraco; esconderijo no chão» e, segundo alguns etimologistas, poderá provir do celta silon, «semente; celeiro».

[Post 3103]

Última hora/última da hora

Aperfeiçoamentos


      Cavaco Silva disse, todos ouvimos, «sou uma pessoa de esperança. Tenho esperança até à última da hora», mas a generalidade da imprensa transcreveu desta forma: «Até à última hora tenho esperança». Esta frase é mesmo o título de uma notícia do Público.
      E porque era à Lei das Finanças Regionais que o presidente da República se referia, é interessante ver que o grupo parlamentar do PS pediu hoje a suspensão por 30 minutos da votação global final desta lei, depois de os partidos da oposição terem apresentado três novas propostas ao diploma. A oposição afirmou que eram «aperfeiçoamentos de português, sem efeito de substância». Gostava de ver que aperfeiçoamentos foram esses.

[Post 3102]

As acepções de «bandido»

Ofensas coloquiais


      José Sá Fernandes, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, está a ser julgado por difamação. As testemunhas de defesa alegaram que o «estado de revolta» vivido pelo jurista o terá levado ao uso do termo «bandido» para qualificar o empresário bracarense Domingos Névoa. Lê-se na edição de hoje do Público: «“O meu irmão estava revoltado com a perversão dos factos. Essas declarações reflectiram-se no seu estado de espírito”, defendeu a juíza Paula Sá Fernandes, irmã do vereador na câmara [sic] de Lisboa» («Chamar “bandido” foi reflexo da revolta, diz Sá Fernandes», Samuel Silva, Público, 5.2.2010, p. 27). Até este ponto, a argumentação é exemplar: o termo ofensivo foi proferido num momento de tensão psicológica. O pior é o seguimento desta linha de argumentação, tanto mais que é da autoria de uma magistrada: «A magistrada considera que o uso da expressão “bandido” serviu para “tornar mais coloquial” a opinião do irmão e que a palavra foi usada “no seu sentido naif” para designar alguém que está fora da lei.» «Sentido naif»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista como primeira acepção do vocábulo «bandido» pessoa que pratica actividades ilegais e criminosas. Como segunda acepção, pessoa sem carácter. Se não corresponderem à verdade, qualquer delas é difamatória ou injuriosa.

[Post 3101]

Como se escreve nos jornais

O homem-canhão


      «Houve tempo para agitar metralhadoras e discutir se ela chegou a disparar — não há cartuxos, só dois buracos na parede. O tribunal considerou que o crime não foi premeditado» («Paquistão vai fazer tudo para trazer de volta a “senhora Al-Qaeda”», Sofia Lorena, Público, 5.2.2010, p. 20).
      Felizmente a jornalista não foi contemporânea do Mata-Frades, pois ter-lhe-ia dado ideias perigosíssimas, não sobre como extinguir todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares, mas os próprios membros destas instituições religiosas.

[Post 3100]

Como se escreve nos jornais

Incompetência


      «Os seus advogados tentaram provar que ela não era competente para ser julgada. Sem resultados» («Paquistão vai fazer tudo para trazer de volta a “senhora Al-Qaeda”», Sofia Lorena, Público, 5.2.2010, p. 20).
      Há vários tipos de competência (material, territorial, hierárquica, etc.), mas sempre referida aos tribunais, não aos réus ou aos arguidos. Há aqui confusão da jornalista.

[Post 3099]

Ortografia: «terra de ninguém»

Vai isto mal


      «O local onde isto aconteceu é uma terra de ninguém, longe de zonas habitadas ou mesmo de qualquer monte. A sorte da vítima é que, na mesma altura, numa outra estrada que liga Moura a Barrancos, aparece uma viatura da GNR» («Gang tentou sequestrar uma professora em Barrancos», Carlos Dias, Público, 4.2.2010, p. 22). «Contudo, a paisagem cinzenta e estéril à volta de Tikrit é uma terra-de-ninguém, de vigilantismo e vingança, onde qualquer veículo que se aproxime pode ser o último que se vê e nas vilas disparam rotineiramente sobre estranhos, considerando todos os forasteiros como inimigos» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 146).
      A locução, originalmente militar, escreve-se sem hífenes: terra de ninguém. Designa a área situada entre dois exércitos, sobre a qual nenhum dos dois oponentes estabeleceu controlo. É triste ver que até nos jornais se escreve, por vezes, melhor do que nos livros.

[Post 3098]

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