Como se escreve nos jornais

Incompetência


      «Os seus advogados tentaram provar que ela não era competente para ser julgada. Sem resultados» («Paquistão vai fazer tudo para trazer de volta a “senhora Al-Qaeda”», Sofia Lorena, Público, 5.2.2010, p. 20).
      Há vários tipos de competência (material, territorial, hierárquica, etc.), mas sempre referida aos tribunais, não aos réus ou aos arguidos. Há aqui confusão da jornalista.

[Post 3099]

Ortografia: «terra de ninguém»

Vai isto mal


      «O local onde isto aconteceu é uma terra de ninguém, longe de zonas habitadas ou mesmo de qualquer monte. A sorte da vítima é que, na mesma altura, numa outra estrada que liga Moura a Barrancos, aparece uma viatura da GNR» («Gang tentou sequestrar uma professora em Barrancos», Carlos Dias, Público, 4.2.2010, p. 22). «Contudo, a paisagem cinzenta e estéril à volta de Tikrit é uma terra-de-ninguém, de vigilantismo e vingança, onde qualquer veículo que se aproxime pode ser o último que se vê e nas vilas disparam rotineiramente sobre estranhos, considerando todos os forasteiros como inimigos» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 146).
      A locução, originalmente militar, escreve-se sem hífenes: terra de ninguém. Designa a área situada entre dois exércitos, sobre a qual nenhum dos dois oponentes estabeleceu controlo. É triste ver que até nos jornais se escreve, por vezes, melhor do que nos livros.

[Post 3098]

Verbo «pôr»

Escorraçado


      Um leitor chama-me a atenção para um título da edição de hoje do Público: «Derrotas, goleada e eliminação da Taça voltam a colocar gestão do clube de Alvalade em xeque». O título talvez nem seja da responsabilidade do jornalista que assina a peça, Filipe Escobar de Lima, mas de alguém há-de ser. Do editor, por exemplo. Não saberá este que pôr em xeque é uma locução consagrada, fixa, imutável? Que não queiram adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, como já afirmaram em editorial, não é censurável, tanto mais que estamos no período de transição e nem sequer o Diário da República o está a fazer, mas desvirtuar a língua desta maneira não merece louvores.

[Post 3097]

Imprecisões

Gatilhos por rastilhos


      «Em Xá dos Xás, o meu livro preferido, ele narra o desabamento do Xá do Irão e a chegada da ditadura religiosa do ayatollah Khomeini. Ora, qualquer revolução, qualquer fim de regime decorre de um conjunto de causas» («O país dos indiferentes», Pedro Lomba, Público, 4.2.2010, p. 32).
      É muito mais comum lermos ditadura teocrática, que considero mais correcto. (Veja, caro F. A.: aqui, «Xá», mas umas linhas atrás, isto: «Sócrates tem direito às suas opiniões sobre a sanidade de Crespo, assim como Crespo pode replicar que os complexos de perseguição do primeiro-ministro também merecem diagnóstico clínico.») É muito raro não encontrarmos imprecisões nas crónicas de Pedro Lomba. Não raro também, é traído pela ambição de desmontar chavões e frases feitas, o que acarreta sempre o risco de um fragmento lhe saltar para os olhos. «Mas o mais admirável do livro é o facto de Kapuscinski nos brindar com uma descrição psicológica de como as pessoas se fartam. Aí está: os detalhes. Qual é o gatilho que atiça a revolta?» Desde quando é que os gatilhos atiçam seja o que for?

[Post 3096]

Sobre «bosque»

Frutos e bosques


      O meu interlocutor, apesar de ter lido na ementa «crepe de frutos do bosque», o que pediu foi um «crepe de frutos silvestres». E o facto trouxe-me à memória ter ouvido em Dezembro, no programa Jorge Afonso, na Antena 1, Ângelo Correia dizer que vivia num bosque lá para Colares (será vizinho de Miguel Esteves Cardoso). Ora, «bosque» é um termo que não se ouve muito. Pessoalmente, sim, desde tenra idade ouvia falar num bosque, bem real que não de fábula, que mais tarde conheci. É com surpresa que vejo que os modernos lexicógrafos (não nos calhou nenhum James Murray) não sabem explicar muito bem o que é um bosque. Para Rafael Bluteau, bosque «é um sítio povoado de árvores e mata que serve para caça». Estamos mais familiarizados com o apelido Bosco, que vem do italiano e significa «bosque».

[Post 3095]

«Mestrados e doutorados»?

Coincidências


      À tarde, o meu interlocutor, com um crepe de frutos do bosque à frente, contou um episódio sobre Luís Filipe Pereira. À noite, este ex-ministro da Saúde, e agora presidente da EFACEC, era um dos convidados (o outro era Luís Portela, presidente da BIAL) do programa Negócios da Semana, na Sic Notícias. A determinada altura, disse Luís Filipe Pereira: «Nós [na EFACEC] temos também uma percentagem relativamente muito alta de doutorados e de mestrados.» A língua é feita pelos falantes, mas não exageremos na invenção. Se doutorado é, como substantivo, aquele que obteve o grau de doutor, mestrado não é aquele que obteve o grau de mestre. Temos licenciando, mestrando e doutorando, mas não temos licenciado, mestrado e doutorado, antes licenciado, mestre e doutorado. Como não temos licenciar-se, mestrar-se e doutorar-se. Temos o que temos. Temos paciência.

[Post 3094]

Selecção vocabular

Competição, concorrência...


      «Outras falam da competitividade das mulheres, que assistem a ocasiões sociais para avaliar a riqueza e posição dos anfitriões e dos seus convidados» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 72).
      Ó senhora tradutora, então agora confundimos termos técnicos com a intemporal rivalidade entre as pessoas? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, competitividade é a «capacidade de um produto, de uma empresa ou economia para manter ou aumentar as suas quotas de mercado».

[Post 3093]

Tradução: «Hippocratic oath»

Juras e pragas


      «Os serviços de saúde de Mossul — em tempos dos melhores do país, assentes em pessoas como Ali, que tinham estudado no estrangeiro e nutriam um profundo respeito pela sua jura hipocrática — praticamente desapareceram» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 133).
      A tradutora deve ter jurado a si mesma que não usaria mais letras do que na expressão inglesa, Hippocratic oath, e conseguiu, mas com batota. Em português diz-se juramento hipocrático e não jura hipocrática.

[Post 3092]

Arquivo do blogue