Verbo «pôr»

Escorraçado


      Um leitor chama-me a atenção para um título da edição de hoje do Público: «Derrotas, goleada e eliminação da Taça voltam a colocar gestão do clube de Alvalade em xeque». O título talvez nem seja da responsabilidade do jornalista que assina a peça, Filipe Escobar de Lima, mas de alguém há-de ser. Do editor, por exemplo. Não saberá este que pôr em xeque é uma locução consagrada, fixa, imutável? Que não queiram adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, como já afirmaram em editorial, não é censurável, tanto mais que estamos no período de transição e nem sequer o Diário da República o está a fazer, mas desvirtuar a língua desta maneira não merece louvores.

[Post 3097]

Imprecisões

Gatilhos por rastilhos


      «Em Xá dos Xás, o meu livro preferido, ele narra o desabamento do Xá do Irão e a chegada da ditadura religiosa do ayatollah Khomeini. Ora, qualquer revolução, qualquer fim de regime decorre de um conjunto de causas» («O país dos indiferentes», Pedro Lomba, Público, 4.2.2010, p. 32).
      É muito mais comum lermos ditadura teocrática, que considero mais correcto. (Veja, caro F. A.: aqui, «Xá», mas umas linhas atrás, isto: «Sócrates tem direito às suas opiniões sobre a sanidade de Crespo, assim como Crespo pode replicar que os complexos de perseguição do primeiro-ministro também merecem diagnóstico clínico.») É muito raro não encontrarmos imprecisões nas crónicas de Pedro Lomba. Não raro também, é traído pela ambição de desmontar chavões e frases feitas, o que acarreta sempre o risco de um fragmento lhe saltar para os olhos. «Mas o mais admirável do livro é o facto de Kapuscinski nos brindar com uma descrição psicológica de como as pessoas se fartam. Aí está: os detalhes. Qual é o gatilho que atiça a revolta?» Desde quando é que os gatilhos atiçam seja o que for?

[Post 3096]

Sobre «bosque»

Frutos e bosques


      O meu interlocutor, apesar de ter lido na ementa «crepe de frutos do bosque», o que pediu foi um «crepe de frutos silvestres». E o facto trouxe-me à memória ter ouvido em Dezembro, no programa Jorge Afonso, na Antena 1, Ângelo Correia dizer que vivia num bosque lá para Colares (será vizinho de Miguel Esteves Cardoso). Ora, «bosque» é um termo que não se ouve muito. Pessoalmente, sim, desde tenra idade ouvia falar num bosque, bem real que não de fábula, que mais tarde conheci. É com surpresa que vejo que os modernos lexicógrafos (não nos calhou nenhum James Murray) não sabem explicar muito bem o que é um bosque. Para Rafael Bluteau, bosque «é um sítio povoado de árvores e mata que serve para caça». Estamos mais familiarizados com o apelido Bosco, que vem do italiano e significa «bosque».

[Post 3095]

«Mestrados e doutorados»?

Coincidências


      À tarde, o meu interlocutor, com um crepe de frutos do bosque à frente, contou um episódio sobre Luís Filipe Pereira. À noite, este ex-ministro da Saúde, e agora presidente da EFACEC, era um dos convidados (o outro era Luís Portela, presidente da BIAL) do programa Negócios da Semana, na Sic Notícias. A determinada altura, disse Luís Filipe Pereira: «Nós [na EFACEC] temos também uma percentagem relativamente muito alta de doutorados e de mestrados.» A língua é feita pelos falantes, mas não exageremos na invenção. Se doutorado é, como substantivo, aquele que obteve o grau de doutor, mestrado não é aquele que obteve o grau de mestre. Temos licenciando, mestrando e doutorando, mas não temos licenciado, mestrado e doutorado, antes licenciado, mestre e doutorado. Como não temos licenciar-se, mestrar-se e doutorar-se. Temos o que temos. Temos paciência.

[Post 3094]

Selecção vocabular

Competição, concorrência...


      «Outras falam da competitividade das mulheres, que assistem a ocasiões sociais para avaliar a riqueza e posição dos anfitriões e dos seus convidados» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 72).
      Ó senhora tradutora, então agora confundimos termos técnicos com a intemporal rivalidade entre as pessoas? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, competitividade é a «capacidade de um produto, de uma empresa ou economia para manter ou aumentar as suas quotas de mercado».

[Post 3093]

Tradução: «Hippocratic oath»

Juras e pragas


      «Os serviços de saúde de Mossul — em tempos dos melhores do país, assentes em pessoas como Ali, que tinham estudado no estrangeiro e nutriam um profundo respeito pela sua jura hipocrática — praticamente desapareceram» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 133).
      A tradutora deve ter jurado a si mesma que não usaria mais letras do que na expressão inglesa, Hippocratic oath, e conseguiu, mas com batota. Em português diz-se juramento hipocrático e não jura hipocrática.

[Post 3092]

Léxico: «doca»

Docas secas


      «Um rádio/despertador com doca para iPod é uma das mais recentes propostas da Memorex para o mercado português» («Tenha um acordar diferente», Metro, 2.2.2010, p. 21).
      Só agora dou conta como é vulgar designar por «doca» a base em que encaixam os Ipods. Provém da designação inglesa, dock. É um sentido figurado de uma acepção («a usually artificial basin or enclosure for the reception of ships that is equipped with means for controlling the water height» ou «a place (as a wharf or platform) for the loading or unloading of materials») deste vocábulo polissémico.
    «Rádio/despertador»? Que forma de grafar a palavra é esta, cara Catarina Poderoso, senhora revisora do jornal Metro? Escreva rádio-despertador.

[Post 3091]

Os talibã/taliban/talibãs

Isso é português?


      «Desde 2001 que os talibã dispõem de bombas artesanais, IED na sigla inglesa (Improvised Explosive Device), que têm sido colocadas nas bermas das estradas» («Adeus até ao meu regresso», Tiago C. Esteves, Metro, 2.2.2010, p. 3).
      Isto faz algum sentido, aportuguesar pela metade? Onde está a marca do plural? Mal por mal, prefiro a forma como o Público grafa a palavra: «Esta ofensiva foi iniciada dois dias depois de os EUA terem criticado fortemente um acordo de cessar-fogo negociado em Fevereiro entre Islamabad e os rebeldes, ao abrigo do qual o Governo concedeu que os taliban aplicassem a lei islâmica (sharia) na região de Swat» («Exército paquistanês diz ter morto 160 rebeldes na ofensiva contra os taliban em Swat», Público, 9.05.2009, p. 14).
      Aportuguesamento consequente é o do Diário de Notícias, ainda hoje, pese embora a correcção linguística ter deixado de ser uma prioridade desta publicação, o jornal com soluções mais acertadas. «A intervenção do Presidente afegão surge num momento em que as forças da NATO desencadearam uma importante ofensiva no Sul do país — considerado um dos bastiões dos talibãs — para o subtrair ao controlo de facto dos islamitas, entrando em zonas onde o Governo de Cabul não tem meios para fazer sentir a sua presença» («Karzai adverte Ocidente para fracasso afegão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 23.06.2006, p. 11).

[Post 3090]

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