Léxico: «doca»

Docas secas


      «Um rádio/despertador com doca para iPod é uma das mais recentes propostas da Memorex para o mercado português» («Tenha um acordar diferente», Metro, 2.2.2010, p. 21).
      Só agora dou conta como é vulgar designar por «doca» a base em que encaixam os Ipods. Provém da designação inglesa, dock. É um sentido figurado de uma acepção («a usually artificial basin or enclosure for the reception of ships that is equipped with means for controlling the water height» ou «a place (as a wharf or platform) for the loading or unloading of materials») deste vocábulo polissémico.
    «Rádio/despertador»? Que forma de grafar a palavra é esta, cara Catarina Poderoso, senhora revisora do jornal Metro? Escreva rádio-despertador.

[Post 3091]

Os talibã/taliban/talibãs

Isso é português?


      «Desde 2001 que os talibã dispõem de bombas artesanais, IED na sigla inglesa (Improvised Explosive Device), que têm sido colocadas nas bermas das estradas» («Adeus até ao meu regresso», Tiago C. Esteves, Metro, 2.2.2010, p. 3).
      Isto faz algum sentido, aportuguesar pela metade? Onde está a marca do plural? Mal por mal, prefiro a forma como o Público grafa a palavra: «Esta ofensiva foi iniciada dois dias depois de os EUA terem criticado fortemente um acordo de cessar-fogo negociado em Fevereiro entre Islamabad e os rebeldes, ao abrigo do qual o Governo concedeu que os taliban aplicassem a lei islâmica (sharia) na região de Swat» («Exército paquistanês diz ter morto 160 rebeldes na ofensiva contra os taliban em Swat», Público, 9.05.2009, p. 14).
      Aportuguesamento consequente é o do Diário de Notícias, ainda hoje, pese embora a correcção linguística ter deixado de ser uma prioridade desta publicação, o jornal com soluções mais acertadas. «A intervenção do Presidente afegão surge num momento em que as forças da NATO desencadearam uma importante ofensiva no Sul do país — considerado um dos bastiões dos talibãs — para o subtrair ao controlo de facto dos islamitas, entrando em zonas onde o Governo de Cabul não tem meios para fazer sentir a sua presença» («Karzai adverte Ocidente para fracasso afegão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 23.06.2006, p. 11).

[Post 3090]

Apostila ao Ciberdúvidas

Que se passa?


      Um leitor do Ciberdúvidas quis saber se pode usar em português a palavra «creencial», que lê em obras de História da Religião e Antropologia publicadas em Espanha, ou «crencial». O consultor, A. Tavares Louro, respondeu: «Não foi possível encontrar em dicionários modernos da língua portuguesa os vocábulos “creencial” ou “crencial”.
      Parece-nos óbvio que “creencial” surgiu por contaminação da língua espanhola. Note-se que o vocábulo da língua espanhola “creencial” também não figura nos dicionários de língua espanhola consultados, o que é compreensível dado que deve ser um termo específico da medicina.
      Se pretendermos usar um vocábulo equivalente em língua portuguesa, parece-nos que “crencial” é o termo adequado, visto que, da mesma família linguística, usamos crer e crença
      É claro que não é um termo específico da medicina, e os elementos carreados pelo leitor eram uma pista mais do que suficiente para chegar a esta conclusão. Vamos lá ver. Não é por um dado termo aparecer principalmente numa dada área do conhecimento que se pode concluir que lhe é específica. Veja-se este exemplo que dou a seguir, extraído da Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. «Outrossim, entre os alentejanos, o acto de tratar o “cobro” não é acompanhado de qualquer ritual ou “reza”, isto é, não é feito apelo ao sobrenatural (o mesmo já se não passa com algumas outras doenças do foro vernáculo, tais como o “mau-olhado”, o “quebranto”, etc.). Todavia, a norte do Tejo, o tratamento do “cobro” implica (ainda) a existência (persistência) de um universo mítico-creencial» («Breves nótulas médico-antropológicas sobre o tratamento vernáculo do “cobro” (herpes zóster) no Alentejo», J. A. David de Morais, Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, 2005, p. 60, aqui). Então agora vamos concluir que é um termo específico da medicina só porque surge em vários textos médicos? Isto começa a ser preocupante. O termo, que pode vir do espanhol, sim, é um adjectivo e significa relativo a crença. É a crença algo específico da medicina? Adjectivo, com a mesma raiz, temos credencial.

[Post 3089]

Tradução: «pivot»

Ponto? Base?


      «Após a queda do Império Assírio, o rei Nabucodonosor governou a região a partir da Babilónia, perto da actual Bagdad, e a estrela de Nínive empalideceu até Mossul se erguer na margem oposta do Tigre no século VIII d. C., tornando-se um pivô vital para o comércio de caravanas ao longo do rio e ligando a Síria e a Anatólia, via Mesopotâmia, com a Índia e a Pérsia» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 53).
      Nunca a tradução do vocábulo francês pivot, também apropriado pela língua inglesa, desta forma me convenceu. E não é que a acepção («a person, thing, or factor having a major or central role, function, or effect», leio no Merriam-Webster) seja estranha ao vocábulo aportuguesado pivô. Há formas mais compreensíveis de exprimir a ideia.

[Post 3088]

Naturais de Mossul

Os *tecelães moslawis


      «A vingança não era nada de novo para os Moslawis» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 8).
      O uso do termo «Moslawis» obrigou a tradutora a redigir uma nota de rodapé — escusadamente. Há muitos tradutores que gostam deste recurso, que, pessoalmente, acho completamente inútil. Que interesse pode ter para o leitor português saber que os naturais e moradores da cidade iraquiana de Mossul se chamam a si próprios Moslawis? Alternativas? Já indiquei uma: naturais de Mossul. Outra: forjamos um gentílico. Mossulenses. Não precisa de pegar, não é esse o objectivo, mas sim funcionar na obra.
      A propósito, sabiam que o nome musselina, o tecido leve e transparente, de algodão, lã ou seda, muito usado no vestuário feminino, provém do nome da cidade de Mossul? Fiquei a saber com esta obra. «O algodão tornou-se uma das suas principais produções, beneficiando da água abundante que corria dos cumes das montanhas, e o tecido simples desenvolvido pelos tecelães locais recebeu um nome derivado do da cidade: musselina» (idem, ibidem, p. 53). E o plural de tecelão não é tecelões?

[Post 3087]

Imprecisões


É o habitual


      «Domingo passado começaram as celebrações do centenário da I República» («Contra as agências de rating marchar marchar», Pedro Lomba, Público, 2.2.2010, p. 32).
      Na verdade, é o centenário da República, não da I República. Oficialmente, comemora-se a República. Vejam aqui. E no título falta uma vírgula.

[Post 3086]

Ortopantomografia/radiografia panorâmica

Aldrabões


      «Paul enviou, então, uma radiografia panorâmica e recebeu um orçamento: 8 mil euros com implantes e pontes fixas» («A roleta húngara», Natacha Tatu, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 89).
      Tenho um primo dentista, mas está longe, na província (ou na Província, como escreveria José António Saraiva), pelo que pergunto aqui: radiografia panorâmica é o mesmo que ortopantomografia? Se é, porque nos obrigam a gaguejar para pronunciarmos «ortopantomografia»? Nunca mais.

[Post 3085]

Léxico: «motosserrista»

Seu Ceará sabe, sim


      «Quem ensina o que aprendeu é Ceará, 56 anos, motosserrista há 27, ex-campeão de desmatamento, que tem no seu currículo mais de 5 mil árvores derrubadas» («Amazónia. A esperança nunca se abate», Norma Couri, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 68).
      Tanto quanto vejo, nenhum dicionário regista o vocábulo. Nem, desta vez, o Dicionário Houaiss. (Caro Paulo Araujo, trate de mais este caso.) Pergunto-me se os profissionais não usarão até o verbo motosserrar — mesmo à revelia de Mauro Villar. Falem com seu Ceará.

[Post 3084]

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