Apostila ao Ciberdúvidas

Que se passa?


      Um leitor do Ciberdúvidas quis saber se pode usar em português a palavra «creencial», que lê em obras de História da Religião e Antropologia publicadas em Espanha, ou «crencial». O consultor, A. Tavares Louro, respondeu: «Não foi possível encontrar em dicionários modernos da língua portuguesa os vocábulos “creencial” ou “crencial”.
      Parece-nos óbvio que “creencial” surgiu por contaminação da língua espanhola. Note-se que o vocábulo da língua espanhola “creencial” também não figura nos dicionários de língua espanhola consultados, o que é compreensível dado que deve ser um termo específico da medicina.
      Se pretendermos usar um vocábulo equivalente em língua portuguesa, parece-nos que “crencial” é o termo adequado, visto que, da mesma família linguística, usamos crer e crença
      É claro que não é um termo específico da medicina, e os elementos carreados pelo leitor eram uma pista mais do que suficiente para chegar a esta conclusão. Vamos lá ver. Não é por um dado termo aparecer principalmente numa dada área do conhecimento que se pode concluir que lhe é específica. Veja-se este exemplo que dou a seguir, extraído da Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. «Outrossim, entre os alentejanos, o acto de tratar o “cobro” não é acompanhado de qualquer ritual ou “reza”, isto é, não é feito apelo ao sobrenatural (o mesmo já se não passa com algumas outras doenças do foro vernáculo, tais como o “mau-olhado”, o “quebranto”, etc.). Todavia, a norte do Tejo, o tratamento do “cobro” implica (ainda) a existência (persistência) de um universo mítico-creencial» («Breves nótulas médico-antropológicas sobre o tratamento vernáculo do “cobro” (herpes zóster) no Alentejo», J. A. David de Morais, Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, 2005, p. 60, aqui). Então agora vamos concluir que é um termo específico da medicina só porque surge em vários textos médicos? Isto começa a ser preocupante. O termo, que pode vir do espanhol, sim, é um adjectivo e significa relativo a crença. É a crença algo específico da medicina? Adjectivo, com a mesma raiz, temos credencial.

[Post 3089]

Tradução: «pivot»

Ponto? Base?


      «Após a queda do Império Assírio, o rei Nabucodonosor governou a região a partir da Babilónia, perto da actual Bagdad, e a estrela de Nínive empalideceu até Mossul se erguer na margem oposta do Tigre no século VIII d. C., tornando-se um pivô vital para o comércio de caravanas ao longo do rio e ligando a Síria e a Anatólia, via Mesopotâmia, com a Índia e a Pérsia» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 53).
      Nunca a tradução do vocábulo francês pivot, também apropriado pela língua inglesa, desta forma me convenceu. E não é que a acepção («a person, thing, or factor having a major or central role, function, or effect», leio no Merriam-Webster) seja estranha ao vocábulo aportuguesado pivô. Há formas mais compreensíveis de exprimir a ideia.

[Post 3088]

Naturais de Mossul

Os *tecelães moslawis


      «A vingança não era nada de novo para os Moslawis» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 8).
      O uso do termo «Moslawis» obrigou a tradutora a redigir uma nota de rodapé — escusadamente. Há muitos tradutores que gostam deste recurso, que, pessoalmente, acho completamente inútil. Que interesse pode ter para o leitor português saber que os naturais e moradores da cidade iraquiana de Mossul se chamam a si próprios Moslawis? Alternativas? Já indiquei uma: naturais de Mossul. Outra: forjamos um gentílico. Mossulenses. Não precisa de pegar, não é esse o objectivo, mas sim funcionar na obra.
      A propósito, sabiam que o nome musselina, o tecido leve e transparente, de algodão, lã ou seda, muito usado no vestuário feminino, provém do nome da cidade de Mossul? Fiquei a saber com esta obra. «O algodão tornou-se uma das suas principais produções, beneficiando da água abundante que corria dos cumes das montanhas, e o tecido simples desenvolvido pelos tecelães locais recebeu um nome derivado do da cidade: musselina» (idem, ibidem, p. 53). E o plural de tecelão não é tecelões?

[Post 3087]

Imprecisões


É o habitual


      «Domingo passado começaram as celebrações do centenário da I República» («Contra as agências de rating marchar marchar», Pedro Lomba, Público, 2.2.2010, p. 32).
      Na verdade, é o centenário da República, não da I República. Oficialmente, comemora-se a República. Vejam aqui. E no título falta uma vírgula.

[Post 3086]

Ortopantomografia/radiografia panorâmica

Aldrabões


      «Paul enviou, então, uma radiografia panorâmica e recebeu um orçamento: 8 mil euros com implantes e pontes fixas» («A roleta húngara», Natacha Tatu, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 89).
      Tenho um primo dentista, mas está longe, na província (ou na Província, como escreveria José António Saraiva), pelo que pergunto aqui: radiografia panorâmica é o mesmo que ortopantomografia? Se é, porque nos obrigam a gaguejar para pronunciarmos «ortopantomografia»? Nunca mais.

[Post 3085]

Léxico: «motosserrista»

Seu Ceará sabe, sim


      «Quem ensina o que aprendeu é Ceará, 56 anos, motosserrista há 27, ex-campeão de desmatamento, que tem no seu currículo mais de 5 mil árvores derrubadas» («Amazónia. A esperança nunca se abate», Norma Couri, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 68).
      Tanto quanto vejo, nenhum dicionário regista o vocábulo. Nem, desta vez, o Dicionário Houaiss. (Caro Paulo Araujo, trate de mais este caso.) Pergunto-me se os profissionais não usarão até o verbo motosserrar — mesmo à revelia de Mauro Villar. Falem com seu Ceará.

[Post 3084]

Léxico: «madeira de lei»

Talvez os antiquários


      «O Instituto Brasileiro de [sic] Meio Ambiente [IBAMA] estuda inserir no Google Earth um programa para rastrear a origem da madeira da sua sala, até à floresta, o percurso do móvel pronto, até ao tronco. A casa e o mobiliário de muitos defensores da Amazónia contribuiu [sic] para a agonia da floresta. Sem falar das bibliotecas, erguidas com madeira de lei, antes só permitida aos monarcas portugueses» («Amazónia. A esperança nunca se abate», Norma Couri, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 67).
      A locução madeira de lei é desconhecida do falante português e não está registada nos dicionários editados em Portugal, com excepção do Dicionário Houaiss, que regista que é a «madeira resistente à acção do tempo, ao clima, às intempéries».

[Post 3083]

Nomes de povos e etnias

Pronunciável, se faz favor


      «O exército tailandês começou, no domingo, 27, a repatriar para o Laos os elementos da etnia hmong que se refugiaram no país, alguns há mais de 30 anos. Banguecoque estabeleceu com o Laos um acordo de repatriamento de mais de 8 mil hmongs, iniciando-se a operação pelo encerramento de um campo com 4 mil, na província de Phetchabun» («Etnia hmong expulsa», Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 62).
      É isto que eu advogo e pratico. O povo chama-se hmong ou h’mong; logo, dois elementos são os hmongs. Quero eu lá saber como se pluraliza numa língua que me é completamente estranha. Neste caso, se elogio a pluralização, deploro a escolha da variante do gentílico, pois vejo que existe o muito mais pronunciável mong.

[Post 3082]

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