Plural dos apelidos

Discriminação!


      Caro Público: porque escreves «os McCann» se escreves «os Médicis»? «Foi Cosimo I (1519-1574), o primeiro grão-duque de Florença e fundador da dinastia de Médicis que governou a cidade até ao século XVIII, quem encomendou ao arquitecto Giorgio Vasari (1511-1574) a construção dos Uffizi, onde originalmente funcionariam os escritórios das 13 magistraturas florentinas» («Guardiã dos tesouros dos Médicis», Ana Filipa Gaspar, Público, 29.1.2010, p. 43). «McCann enfrentam em tribunal polícia que os incriminou» (Paula Torres de Carvalho, 13.1.2010, p. 7).
      McCann não é plural em português nem em inglês. Médici já é plural em italiano. Tira tu as conclusões, que eu agora vou tomar o pequeno-almoço (e ainda tenho de ir à padaria da D. Narcisa comprar um cacete galego).


[Post 3075]

Acordo Ortográfico

Mentiras e desastres


      Ontem, a propósito da adopção das novas regras ortográficas por parte da agência Lusa (pretexto para voltar a clamar: «O problema é a nova ortografia ser uma mentira política e um desastre linguístico.»), o filósofo Desidério Murcho voltou a publicar um texto sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Eis um excerto: «Na verdade, ocorre as duas coisas: a ortografia afecta a fonética e a fonética a ortografia. Por exemplo, porque alguém no Brasil decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”, e porque se decidiu escrever dessa maneira, agora as pessoas no Brasil considerariam bizarro dizer “facto” — apesar de dizerem tranquilamente “factivo”, o que é estranho.»
      É, decerto, uma caricatura. Nem se sabe exactamente como é, mas não há-de ser porque «alguém decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”». E, por outro lado, pensemos, será assim tão bizarro? Também nós não articulamos o p, consoante etimológica, de Egipto e não deixamos de o articular em egípcio. Sendo assim, inteligentes são os Brasileiros, que alijaram a carga inútil do c em facto, porque não o articulam, e não prescindem dele em factivo, porque o articulam.
      Já conheço o argumento: este acordo veio consagrar o desrespeito pela unidade das famílias de palavras. Contudo, foneticamente já havia falta de unidade. Nunca haverá coexistência pacífica entre o ideal fonográfico e o princípio ideográfico (agora, com este acordo, seriamente quebrado), mas pensem só no século XIX e em toda a trapalhada que então se vivia.

[Post 3074]

Léxico: «mamaliano»

Por registar


      «Tal como outros répteis mamalianos, este tem uma mistura de características de réptil e mamífero» («Fóssil de antepassado comum a todos os mamíferos descoberto em Moçambique», Teresa Firmino, Público, 29.1.2010, p. 10).
      Não encontramos o termo mamaliano em nenhum dicionário geral da língua. Ainda que tenha por detrás o latim, vem directamente do inglês mammalian.

[Post 3073]

Deslizes do Ciberdúvidas

Ou em qualquer outro


      Na semana passada, um consulente brasileiro perguntou ao Ciberdúvidas se o particípio ecoada, e citava uma frase, tinha sido usado com propriedade. O mais intrigante era a classificação da consulta: «emprego de ecoada (contexto jurídico)». Se o contexto interessa quase sempre ao esclarecimento da questão, é incorrecto afirmar, como o faz o consultor permanente Carlos Marinheiro, que no contexto jurídico o termo «ecoada» significa isto ou aquilo. Posso inventar cinco ou dez frases de natureza completamente diferente em que o particípio seja usado com igual propriedade. Dito de outra forma, o verbo ecoar não tem nenhuma acepção de uso exclusivo na linguagem jurídica.

[Post 3072]

Uso do itálico

Ainda?


      «Todas as tropas iraquianas e muito do seu armamento tinham desaparecido e começavam a fervilhar receios de que um movimento de guerrilha ba’athista bem armado estivesse a ganhar forma aqui mesmo em Mossul» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 11).
      Grafar em itálico o vocábulo destacado é puro disparate. Este vocábulo, e já o vimos aqui com outros, resulta de um processo híbrido de formação de palavras. Sendo formado com o sufixo –ista, é tão português como «disparate».

[Post 3071]

«Extra»: adjectivo variável II

Concordo


      «A revista [Sábado] publica um texto escrito com base em depoimentos seus, expressamente destinados a serem publicados, em que confessa a sua obsessão por crianças. O artigo disponibiliza ainda informações extras para compreender o caso» («Homem admite que é pedófilo e fala da obsessão», Destak, 28.1.2010, p. 4).
      Já temos visto que, para alguns falantes, como para mim, o adjectivo «extra» é variável.

[Post 3070]

Sobre «vulgo»

Diz o vulgo?


      Lê-se no editorial de hoje do Público: «O caso do aluimento de terras na Circular Regional Exterior de Lisboa (vulgo CREL) é paradigmático do modo como se cultiva e expande a irresponsabilidade em Portugal» («Irresponsabilidades do caso CREL», p. 38).
      Morfologicamente, o que é aquele «vulgo»? É um advérbio, sim senhor. Significa na língua vulgar; vulgarmente. O exemplo do Dicionário Houaiss é: «O Salmo salar, vulgo salmão.» Claro que, no caso, o uso vulgar é o do próprio jornal e de toda a comunicação social... Não estou a ver a fina-flor a proferir, escusadamente, Circular Regional Exterior de Lisboa.
      É curioso que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe este advérbio. Mais um erro.

[Post 3069]

Léxico: «painel de mensagem variável»


Dá jeito


      «Para evitar o agravamento da situação, a Brisa alerta para que os condutores se mantenham atentos aos painéis de mensagem variável e “à sinalização especial de desvio” que está a partir de hoje colocada nas auto-estradas A1, A2, A5, A8, A9, A10, A16 e no IC19» («Deslizamento de terras vai cortar a CREL durante dias», Maria João Serra, Destak, 25.1.2010, p. 3).
      Agora já sabemos como se chamam aqueles «equipamentos de controlo de tráfego programáveis, que afixam mensagens de texto e pictogramas, visando melhorar a operação e evitar acidentes» (como se lê aqui). «Trânsito lento. Seja prudente.»

[Post 3068]

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