Léxico: «mamaliano»

Por registar


      «Tal como outros répteis mamalianos, este tem uma mistura de características de réptil e mamífero» («Fóssil de antepassado comum a todos os mamíferos descoberto em Moçambique», Teresa Firmino, Público, 29.1.2010, p. 10).
      Não encontramos o termo mamaliano em nenhum dicionário geral da língua. Ainda que tenha por detrás o latim, vem directamente do inglês mammalian.

[Post 3073]

Deslizes do Ciberdúvidas

Ou em qualquer outro


      Na semana passada, um consulente brasileiro perguntou ao Ciberdúvidas se o particípio ecoada, e citava uma frase, tinha sido usado com propriedade. O mais intrigante era a classificação da consulta: «emprego de ecoada (contexto jurídico)». Se o contexto interessa quase sempre ao esclarecimento da questão, é incorrecto afirmar, como o faz o consultor permanente Carlos Marinheiro, que no contexto jurídico o termo «ecoada» significa isto ou aquilo. Posso inventar cinco ou dez frases de natureza completamente diferente em que o particípio seja usado com igual propriedade. Dito de outra forma, o verbo ecoar não tem nenhuma acepção de uso exclusivo na linguagem jurídica.

[Post 3072]

Uso do itálico

Ainda?


      «Todas as tropas iraquianas e muito do seu armamento tinham desaparecido e começavam a fervilhar receios de que um movimento de guerrilha ba’athista bem armado estivesse a ganhar forma aqui mesmo em Mossul» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 11).
      Grafar em itálico o vocábulo destacado é puro disparate. Este vocábulo, e já o vimos aqui com outros, resulta de um processo híbrido de formação de palavras. Sendo formado com o sufixo –ista, é tão português como «disparate».

[Post 3071]

«Extra»: adjectivo variável II

Concordo


      «A revista [Sábado] publica um texto escrito com base em depoimentos seus, expressamente destinados a serem publicados, em que confessa a sua obsessão por crianças. O artigo disponibiliza ainda informações extras para compreender o caso» («Homem admite que é pedófilo e fala da obsessão», Destak, 28.1.2010, p. 4).
      Já temos visto que, para alguns falantes, como para mim, o adjectivo «extra» é variável.

[Post 3070]

Sobre «vulgo»

Diz o vulgo?


      Lê-se no editorial de hoje do Público: «O caso do aluimento de terras na Circular Regional Exterior de Lisboa (vulgo CREL) é paradigmático do modo como se cultiva e expande a irresponsabilidade em Portugal» («Irresponsabilidades do caso CREL», p. 38).
      Morfologicamente, o que é aquele «vulgo»? É um advérbio, sim senhor. Significa na língua vulgar; vulgarmente. O exemplo do Dicionário Houaiss é: «O Salmo salar, vulgo salmão.» Claro que, no caso, o uso vulgar é o do próprio jornal e de toda a comunicação social... Não estou a ver a fina-flor a proferir, escusadamente, Circular Regional Exterior de Lisboa.
      É curioso que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe este advérbio. Mais um erro.

[Post 3069]

Léxico: «painel de mensagem variável»


Dá jeito


      «Para evitar o agravamento da situação, a Brisa alerta para que os condutores se mantenham atentos aos painéis de mensagem variável e “à sinalização especial de desvio” que está a partir de hoje colocada nas auto-estradas A1, A2, A5, A8, A9, A10, A16 e no IC19» («Deslizamento de terras vai cortar a CREL durante dias», Maria João Serra, Destak, 25.1.2010, p. 3).
      Agora já sabemos como se chamam aqueles «equipamentos de controlo de tráfego programáveis, que afixam mensagens de texto e pictogramas, visando melhorar a operação e evitar acidentes» (como se lê aqui). «Trânsito lento. Seja prudente.»

[Post 3068]

Graus dos adjectivos

«Como que de»!?


      «Por enquanto, porém, a distinção entre o portátil e o caseiro, por muito irracional que seja, há-de prevalecer. A fronteira absurda entre ambos já foi desmascarada desde que fizemos o primeiro telefonema em casa, de um telemóvel, por ser mais barato e tão bom como que de um “fixo”» («É hoje!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.1.2010, p. 31).
      No grau comparativo de igualdade, a construção é tão + adjectivo + como (ou quanto); logo, aquele que está ali a mais. Apenas para a construção dos graus comparativos de superioridade e de inferioridade é necessário o pronome relativo: mais + adjectivo + que, do que/menos + adjectivo + que, do que. É assim ou não é, Miguel?

[Post 3067]

«Língua brasileira»?

Só com legendas


      Jô Soares está em Portugal para dizer poemas de Fernando Pessoa (Remix em Pessoa, no Teatro Villaret). Segundo o Público, é «com sotaque de Portugal que Jô Soares vai dizer Pessoa porque nunca poderia fazê-lo em brasileiro. “Somos unidos por uma língua totalmente diferente”, explicou. “Tem coisas em que a unificação da língua não adianta.” Os brasileiros “ficaram numa língua meio seiscentista, que antigamente se falava em Portugal”, mas para o actor “é fascinante” ver “a evolução de uma língua para um lado e outra para outro”» («Portugueses e brasileiros são “unidos por uma língua completamente diferente”», Alexandra Prado Coelho, Público, 27.1.2010, p. 10).
      «Somos unidos por uma língua totalmente diferente.» De vez em quando, ouve-se este exagero risível. E não são apenas brasileiros a dizerem-no: há três ou quatro anos, ouvi o escritor José Couto Nogueira afirmar convictamente — e desafiadoramente — a existência da «língua brasileira», supostamente tão diferente da língua portuguesa que não nos compreendíamos.

[Post 3066]

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