Graus dos adjectivos

«Como que de»!?


      «Por enquanto, porém, a distinção entre o portátil e o caseiro, por muito irracional que seja, há-de prevalecer. A fronteira absurda entre ambos já foi desmascarada desde que fizemos o primeiro telefonema em casa, de um telemóvel, por ser mais barato e tão bom como que de um “fixo”» («É hoje!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.1.2010, p. 31).
      No grau comparativo de igualdade, a construção é tão + adjectivo + como (ou quanto); logo, aquele que está ali a mais. Apenas para a construção dos graus comparativos de superioridade e de inferioridade é necessário o pronome relativo: mais + adjectivo + que, do que/menos + adjectivo + que, do que. É assim ou não é, Miguel?

[Post 3067]

«Língua brasileira»?

Só com legendas


      Jô Soares está em Portugal para dizer poemas de Fernando Pessoa (Remix em Pessoa, no Teatro Villaret). Segundo o Público, é «com sotaque de Portugal que Jô Soares vai dizer Pessoa porque nunca poderia fazê-lo em brasileiro. “Somos unidos por uma língua totalmente diferente”, explicou. “Tem coisas em que a unificação da língua não adianta.” Os brasileiros “ficaram numa língua meio seiscentista, que antigamente se falava em Portugal”, mas para o actor “é fascinante” ver “a evolução de uma língua para um lado e outra para outro”» («Portugueses e brasileiros são “unidos por uma língua completamente diferente”», Alexandra Prado Coelho, Público, 27.1.2010, p. 10).
      «Somos unidos por uma língua totalmente diferente.» De vez em quando, ouve-se este exagero risível. E não são apenas brasileiros a dizerem-no: há três ou quatro anos, ouvi o escritor José Couto Nogueira afirmar convictamente — e desafiadoramente — a existência da «língua brasileira», supostamente tão diferente da língua portuguesa que não nos compreendíamos.

[Post 3066]

Verbo «haver» — inacusativo?

Vislumbre do futuro


      «Toda a ajuda é pouca, ou não houvessem, segundo os dados da Organização Internacional para as Migrações, pelo menos 500 mil pessoas sem casa, isto só na capital haitiana, Port-au-Prince, onde a confusão parece instalada, como testemunham os portugueses» («Equipa nacional ajuda a minimizar as dificuldades dos sobreviventes», Destak, 25.1.2010, p. 19).
      Na acepção de existir, já aqui o escrevi vezes sem conta, o verbo haver é impessoal, a concordância é com o sujeito nulo (de 3.ª pessoa singular). Há estudos recentes que apontam para a hipótese de estarmos no limiar de uma mudança que conduzirá ao uso deste verbo como inacusativo*.

[Post 3065]


* «Sabe-se, desde a publicação de Perlmutter 1978, que os verbos que seleccionam um só argumento e que a tradição gramatical designa por “intransitivos” não são uniformes, podendo englobar verbos que seleccionam um argumento externo — os chamados inergativos — e os verbos que seleccionam um argumento interno a que não atribuem caso acusativo, argumento esse que se comporta como sujeito final — os chamados inacusativos» («Nomes derivados de verbos inacusativos: estrutura argumental e valor aspectual», Ana Maria Brito, in Revista da Faculdade de Letras — Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXII, Porto, 2005, p. 48).

Tradução para o Audiovisual

Haja esperança


      Ainda está a decorrer o prazo para a candidatura na pós-graduação Tradução para o Audiovisual na Universidade Católica Portuguesa (ver aqui). No sítio do jornal Sol leio o título «Católica ‘ensina’ a traduzir filmes». E se o título é prudente, pondo aspas na forma verbal, o texto da jornalista Ana Serafim é excessivamente entusiástico, afirmando: «São frequentes as incorrecções nas traduções de filmes, o que pode até gerar falsas interpretações dos enredos. Para evitar erros deste género, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica inicia em Março uma pós-graduação em Tradução para o Audiovisual.» Apraz-me, contudo, registar que um dos objectivos é «apurar o uso da língua portuguesa para os fins específicos da dobragem e legendagem, de modo a combater a displicência tão manifesta nos ecrãs nacionais (módulo de língua portuguesa)». A coordenação científica da pós-graduação está a cargo do Prof. Doutor José Miguel Sardica e a coordenação pedagógica é da resposabilidade da mestre Alexandra Lopes.

[Post 3064]

Mudar de nome

Foto do jornal A Bola

Onomástica


      É o jornal Destak de hoje que o garante: Abel Xavier, antigo internacional português, «converteu-se ao islamismo, recebendo como novo nome Faissal» («Abel Xavier adopta nome islâmico de Faissal», Destak, 25.1.2010, p. 8). Já para A Bola, o jogador foi «baptizado com o nome muçulmano Faisal». Em primeiro lugar, os jornalistas ainda não sabem distinguir islâmico de muçulmano. Em segundo lugar, é irrelevante, face à lei portuguesa, que o jogador «mude» de nome.
      Nos controlos alfandegários, o que conta é o documento de identidade em que surja o nome Abel Luís da Silva Costa Xavier. Se renunciar à nacionalidade portuguesa, e para isso tem de ter outra nacionalidade (art. 8.º da Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro), não sei como será, mas, se acaso pudesse mudar de nome, e não pode, seria mais provável que a grafia do nome fosse Faiçal (e nenhum, Faisal, Faissal e Faiçal, consta da lista de nomes admitidos). É como o futebolista afirma: «Estamos a falar de uma situação a nível interior.»

[Post 3063]

Grafia dos prosónimos II

Leiam o que escrevem


      «Em 1831 o autor francês Alexis de Tocqueville escreveu um famosíssimo livro sobre a América: Da Democracia na América. De visita ao novo mundo, foi ele o primeiro a registar as pulsões particulares que comandavam os americanos» («A América e a Europa», Pedro Lomba, Público, 25.1.2010, p. 32).
      Pois é, mas o próprio Livro de Estilo do Público, na secção relativa ao uso de maiúsculas e minúsculas, no ponto 5, recomenda e bem que se empregue a maiúscula inicial nos «nomes geográficos: Alto Alentejo, Ásia Menor, Extremo Oriente, Brasil, Novo Mundo, Outra Banda, Pirenéus». Já não sabem as regras que se impuseram? Quanto ao cronista, não lhe ficava mal aprender.

[Post 3062]

Léxico: «novilíngua»

Meia aula


      «“Todos os anos, dedico meia aula no curso de ciências da comunicação ao livro [1984], sobretudo por causa da ‘novilíngua’”, conta [Miguel Morgado, professor na Universidade Católica, em Lisboa], ao i. “O impacto que tem nos estudantes é incrível”» («Orwell 60 anos depois. O Big Brother continua de olho em todos nós», Bruno Faria Lopes, i, 21.1.2010, p. 38).
      O termo novilíngua não precisa de estar entre aspas, apesar de não estar (nem, porventura, dever estar) dicionarizado e ser usado com grande frequência. Terá sido o primeiro tradutor da obra para português a optar, perante o vocábulo newspeak (que, na obra, era uma das formas de o Partido controlar e limitar o pensamento humano), forjado por George Orwell, pelo neologismo novilíngua.

[Post 3061]

«Melhor»: advérbio ou adjectivo?

E agora?


      Boa questão, cara Luísa Pinto: ainda recentemente li uma frase semelhante no Público: «O que nós deveríamos fazer era usá-los para tirar partido do efeito placebo. É que o efeito placebo existe. Os doentes sentem-se mesmo melhores. E é isso que interessa» («Operação dos teatros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.12.2009, p. 31).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, melhor, na acepção de menos doente, é um adjectivo uniforme (não admite contraste de género). Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está correcta. Para o Dicionário Houaiss, porém, melhor, na acepção de mais bem; em condições físicas e/ou psicológicas mais saudáveis, é advérbio. Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está incorrecta.

[Post 3060]

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