Verbo «haver» — inacusativo?

Vislumbre do futuro


      «Toda a ajuda é pouca, ou não houvessem, segundo os dados da Organização Internacional para as Migrações, pelo menos 500 mil pessoas sem casa, isto só na capital haitiana, Port-au-Prince, onde a confusão parece instalada, como testemunham os portugueses» («Equipa nacional ajuda a minimizar as dificuldades dos sobreviventes», Destak, 25.1.2010, p. 19).
      Na acepção de existir, já aqui o escrevi vezes sem conta, o verbo haver é impessoal, a concordância é com o sujeito nulo (de 3.ª pessoa singular). Há estudos recentes que apontam para a hipótese de estarmos no limiar de uma mudança que conduzirá ao uso deste verbo como inacusativo*.

[Post 3065]


* «Sabe-se, desde a publicação de Perlmutter 1978, que os verbos que seleccionam um só argumento e que a tradição gramatical designa por “intransitivos” não são uniformes, podendo englobar verbos que seleccionam um argumento externo — os chamados inergativos — e os verbos que seleccionam um argumento interno a que não atribuem caso acusativo, argumento esse que se comporta como sujeito final — os chamados inacusativos» («Nomes derivados de verbos inacusativos: estrutura argumental e valor aspectual», Ana Maria Brito, in Revista da Faculdade de Letras — Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXII, Porto, 2005, p. 48).

Tradução para o Audiovisual

Haja esperança


      Ainda está a decorrer o prazo para a candidatura na pós-graduação Tradução para o Audiovisual na Universidade Católica Portuguesa (ver aqui). No sítio do jornal Sol leio o título «Católica ‘ensina’ a traduzir filmes». E se o título é prudente, pondo aspas na forma verbal, o texto da jornalista Ana Serafim é excessivamente entusiástico, afirmando: «São frequentes as incorrecções nas traduções de filmes, o que pode até gerar falsas interpretações dos enredos. Para evitar erros deste género, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica inicia em Março uma pós-graduação em Tradução para o Audiovisual.» Apraz-me, contudo, registar que um dos objectivos é «apurar o uso da língua portuguesa para os fins específicos da dobragem e legendagem, de modo a combater a displicência tão manifesta nos ecrãs nacionais (módulo de língua portuguesa)». A coordenação científica da pós-graduação está a cargo do Prof. Doutor José Miguel Sardica e a coordenação pedagógica é da resposabilidade da mestre Alexandra Lopes.

[Post 3064]

Mudar de nome

Foto do jornal A Bola

Onomástica


      É o jornal Destak de hoje que o garante: Abel Xavier, antigo internacional português, «converteu-se ao islamismo, recebendo como novo nome Faissal» («Abel Xavier adopta nome islâmico de Faissal», Destak, 25.1.2010, p. 8). Já para A Bola, o jogador foi «baptizado com o nome muçulmano Faisal». Em primeiro lugar, os jornalistas ainda não sabem distinguir islâmico de muçulmano. Em segundo lugar, é irrelevante, face à lei portuguesa, que o jogador «mude» de nome.
      Nos controlos alfandegários, o que conta é o documento de identidade em que surja o nome Abel Luís da Silva Costa Xavier. Se renunciar à nacionalidade portuguesa, e para isso tem de ter outra nacionalidade (art. 8.º da Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro), não sei como será, mas, se acaso pudesse mudar de nome, e não pode, seria mais provável que a grafia do nome fosse Faiçal (e nenhum, Faisal, Faissal e Faiçal, consta da lista de nomes admitidos). É como o futebolista afirma: «Estamos a falar de uma situação a nível interior.»

[Post 3063]

Grafia dos prosónimos II

Leiam o que escrevem


      «Em 1831 o autor francês Alexis de Tocqueville escreveu um famosíssimo livro sobre a América: Da Democracia na América. De visita ao novo mundo, foi ele o primeiro a registar as pulsões particulares que comandavam os americanos» («A América e a Europa», Pedro Lomba, Público, 25.1.2010, p. 32).
      Pois é, mas o próprio Livro de Estilo do Público, na secção relativa ao uso de maiúsculas e minúsculas, no ponto 5, recomenda e bem que se empregue a maiúscula inicial nos «nomes geográficos: Alto Alentejo, Ásia Menor, Extremo Oriente, Brasil, Novo Mundo, Outra Banda, Pirenéus». Já não sabem as regras que se impuseram? Quanto ao cronista, não lhe ficava mal aprender.

[Post 3062]

Léxico: «novilíngua»

Meia aula


      «“Todos os anos, dedico meia aula no curso de ciências da comunicação ao livro [1984], sobretudo por causa da ‘novilíngua’”, conta [Miguel Morgado, professor na Universidade Católica, em Lisboa], ao i. “O impacto que tem nos estudantes é incrível”» («Orwell 60 anos depois. O Big Brother continua de olho em todos nós», Bruno Faria Lopes, i, 21.1.2010, p. 38).
      O termo novilíngua não precisa de estar entre aspas, apesar de não estar (nem, porventura, dever estar) dicionarizado e ser usado com grande frequência. Terá sido o primeiro tradutor da obra para português a optar, perante o vocábulo newspeak (que, na obra, era uma das formas de o Partido controlar e limitar o pensamento humano), forjado por George Orwell, pelo neologismo novilíngua.

[Post 3061]

«Melhor»: advérbio ou adjectivo?

E agora?


      Boa questão, cara Luísa Pinto: ainda recentemente li uma frase semelhante no Público: «O que nós deveríamos fazer era usá-los para tirar partido do efeito placebo. É que o efeito placebo existe. Os doentes sentem-se mesmo melhores. E é isso que interessa» («Operação dos teatros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.12.2009, p. 31).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, melhor, na acepção de menos doente, é um adjectivo uniforme (não admite contraste de género). Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está correcta. Para o Dicionário Houaiss, porém, melhor, na acepção de mais bem; em condições físicas e/ou psicológicas mais saudáveis, é advérbio. Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está incorrecta.

[Post 3060]

Adjectivos relacionais

Mas não


      Já tenho lido e ouvido que os adjectivos qualificam o nome. Ora, essa é uma afirmação incorrecta. Se há adjectivos que qualificam — «afirmações estúpidas» —, também há os que estabelecem com o nome uma relação muito diferente. E se há falantes que não sabem quando podem antepor um adjectivo qualificativo ao nome, também há os que julgam, e são jornalistas, poder usar adjectivos relacionais discricionariamente. Eis um exemplo lido no jornal i: «A agenda democrata complica-se, mas a reforma sanitária ainda respira», título de um artigo assinado por Enrique Pinto-Coelho (21.1.2010, p. 33).

[Post 3059]

Opções linguísticas

É esse o objectivo?


      «Como corolário, a verdade é que a Finlândia foi considerada pelo Worl [sic] Economic Forum, em 2003, 2004 e 2005, a economia mais competitiva do mundo» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 98).
      Porque havemos de escrever — mesmo que bem — World Economic Forum se podemos escrever, e toda a gente perceberá, Fórum Económico Mundial? Ou escrevemos para poucos entenderem? Outro mundo é possível.

[Post 3058]

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