Adjectivos relacionais

Mas não


      Já tenho lido e ouvido que os adjectivos qualificam o nome. Ora, essa é uma afirmação incorrecta. Se há adjectivos que qualificam — «afirmações estúpidas» —, também há os que estabelecem com o nome uma relação muito diferente. E se há falantes que não sabem quando podem antepor um adjectivo qualificativo ao nome, também há os que julgam, e são jornalistas, poder usar adjectivos relacionais discricionariamente. Eis um exemplo lido no jornal i: «A agenda democrata complica-se, mas a reforma sanitária ainda respira», título de um artigo assinado por Enrique Pinto-Coelho (21.1.2010, p. 33).

[Post 3059]

Opções linguísticas

É esse o objectivo?


      «Como corolário, a verdade é que a Finlândia foi considerada pelo Worl [sic] Economic Forum, em 2003, 2004 e 2005, a economia mais competitiva do mundo» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 98).
      Porque havemos de escrever — mesmo que bem — World Economic Forum se podemos escrever, e toda a gente perceberá, Fórum Económico Mundial? Ou escrevemos para poucos entenderem? Outro mundo é possível.

[Post 3058]

Revisão

Vão mas é trabalhar

      «Aliás, o índice a longo prazo estabelecido pela consultora Ernst & Young para a generalidade dos países considerados confere grande importância, comparativa, ao investimento na energia eólica (85%) e, menos, ao investimento na energia solar (5%) e noutras energias renováveis (10%)» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 88).
      Os nomes das empresas, se estrangeiras, grafam-se em itálico, é isso? Parece-se que sim: «No mesmo mês em que um estudo do Deutsche Bank previa que o nível de vida espanhol alcance o alemão em 2008, o Governo de José Luís Zapatero assinava — na presença dos secretários-gerais das duas centrais sindicais, a CCOO e a UGT e dos residentes das confederações empregadoras CEOE e CEPYME — um histórico acordo laboral e anunciava a reforma do sistema público de Segurança Social» (idem, ibidem, p. 102). Umas páginas à frente, porém, a regra muda: «E, curiosamente, a semana passada a Bloomberg, citando o South China Morning Post anunciava que o Grupo Santander, o BBVA, a General Electric Capital, entre outros, manifestam interesse em participar no capital do banco chinês China Citic Bank» (idem, ibidem, p. 135). Mais exemplos: «Não obstante, ao longo de 2006 muitas empresas internacionais procuraram Portugal como destino de investimento: Ikea, Repsol, Abertis, Advansa, Netjet e os grupos turísticos Aman Resorts, Starwood e Hilton» (idem, ibidem, p. 170).
      Alguém podia alegar a génese, a origem da obra, para explicar estas incongruências, mas esse seria um argumento supinamente desonesto. A obra reúne cem artigos de opinião publicados pela autora no Jornal de Negócios e no Expresso. Para efeitos de publicação em livro, porém, devia ser, para a editora, como se tivesse saído da gaveta ou do disco rígido da autora. O trabalho de harmonização, de uniformização tem sempre de ser feito. E feito por quem sabe, não pelo sobrinho por ser sobrinho ou por curiosos porque estão desempregados.

[Post 3057]

Léxico: «monossémico»

Univocação


      Se os dicionários registam polissemia e polissémico, não deveriam registar monossémico, já que registam monossemia? Na verdade, o Dicionário Houaiss não regista (!) nem monossemia nem monossémico, o que não deixa de surpreender num dicionário como este. (Caro Paulo Araujo, por favor, trate do caso.)
      Há vocábulos monossémicos, isto é, que têm uma única significação, e a designação é usada em algumas gramáticas. No domínio da ciência e da técnica, por exemplo, há — e é uma garantia da necessária univocidade — muitos termos monossémicos.

[Post 3056]

Advérbios interrogativos

Isto está a mudar


      Até há pouco tempo, as gramáticas escolares evitavam incluir o porque entre os advérbios interrogativos. Pura cobardia e ignorância. Como os autores sabiam que a questão é controversa, nada diziam. Contudo, não deixavam de incluir o advérbio porquê. Agora algumas já tomam uma posição, como se vê aqui: «Os advérbios interrogativos podem remeter para uma ideia de tempo (quando?), de lugar (onde?, aonde?, donde?...), de modo (como?) ou de causa (porque?, porquê?)» (Gramática Prática de Português, M. Olga Azeredo, M. Isabel Freitas M. Pinto, M. Carmo Azeredo Lopes. Lisboa: Lisboa Editora, 2009, p. 258). As autoras tiveram como consultor científico o Prof. João Miguel Marques da Costa, do Departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa.

[Post 3055]

Léxico: «séptico»

Cépticos amputados


      «Não, aqui houve um sismo. Mas foram muitos os que ficaram debaixo dos escombros por demasiado tempo, os que estiveram sem tratamento, os que foram tratados à pressa e voltaram sépticos. Ainda não acabou» («Não se amputava assim desde a Guerra da Crimeia», Sofia Lorena, Público, 23.1.2010, p. 16).
      Não é todos os dias que lê o adjectivo séptico (e ainda menos putrígeno...) Uma das acepções, a usada no texto, significa infectado por micróbios ou suas toxinas. De acordo com as novas regras ortográficas, não sofrerá alterações, pois o p é articulado. Já céptico passará a grafar-se cético.

[Post 3054]

Processos de composição

Depende


      Cara M. L.: no composto morfossintáctico, associam-se dois ou mais vocábulos, como, por exemplo, homem-bomba; no composto morfológico, o novo vocábulo é formado a partir da junção de dois radicais (normalmente de origem grega ou latina) ou de um radical e um vocábulo, por exemplo, telemóvel. Mesmo um termo como afro-americano é um composto morfológico. Nestes, apenas o elemento da direita sofre alterações de género e de número: afro-brasileiro/afro-brasileiros/afro-brasileira/afro-brasileira. Quanto aos compostos morfossintácticos, depende: o plural pode atingir ambos os vocábulos constituintes, só o da esquerda ou só o da direita.

[Post 3053]

«Rotinados», outra vez

Ainda entra nos dicionários...


      «Eu creio que há pessoas que nos desafiam, nos desconcertam sobretudo, por nos obrigarem a mudar radicalmente os nossos modelos rotinados de pensar e de agir, e creio que Maria de Lourdes Pintasilgo [1930–2004] foi claramente uma dessas pessoas e que marcou, por isso mesmo, acima de tudo por isso, a segunda metade do século XX em Portugal» (José Manuel Pureza, Conselho Superior, Antena 1, 21.1.2010).
       Já aqui me tinha referido ao adjectivo rotinado, tendo então afirmado que, em relação à oralidade, mais espontânea, livre, improvisada, temos de ser mais tolerantes, tanto mais que quase nada do que se diz passa à escrita. Neste caso, porém, são textos escritos para serem lidos, pelo que não há essa desculpa.

[Post 3052]

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