Revisão

Vão mas é trabalhar

      «Aliás, o índice a longo prazo estabelecido pela consultora Ernst & Young para a generalidade dos países considerados confere grande importância, comparativa, ao investimento na energia eólica (85%) e, menos, ao investimento na energia solar (5%) e noutras energias renováveis (10%)» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 88).
      Os nomes das empresas, se estrangeiras, grafam-se em itálico, é isso? Parece-se que sim: «No mesmo mês em que um estudo do Deutsche Bank previa que o nível de vida espanhol alcance o alemão em 2008, o Governo de José Luís Zapatero assinava — na presença dos secretários-gerais das duas centrais sindicais, a CCOO e a UGT e dos residentes das confederações empregadoras CEOE e CEPYME — um histórico acordo laboral e anunciava a reforma do sistema público de Segurança Social» (idem, ibidem, p. 102). Umas páginas à frente, porém, a regra muda: «E, curiosamente, a semana passada a Bloomberg, citando o South China Morning Post anunciava que o Grupo Santander, o BBVA, a General Electric Capital, entre outros, manifestam interesse em participar no capital do banco chinês China Citic Bank» (idem, ibidem, p. 135). Mais exemplos: «Não obstante, ao longo de 2006 muitas empresas internacionais procuraram Portugal como destino de investimento: Ikea, Repsol, Abertis, Advansa, Netjet e os grupos turísticos Aman Resorts, Starwood e Hilton» (idem, ibidem, p. 170).
      Alguém podia alegar a génese, a origem da obra, para explicar estas incongruências, mas esse seria um argumento supinamente desonesto. A obra reúne cem artigos de opinião publicados pela autora no Jornal de Negócios e no Expresso. Para efeitos de publicação em livro, porém, devia ser, para a editora, como se tivesse saído da gaveta ou do disco rígido da autora. O trabalho de harmonização, de uniformização tem sempre de ser feito. E feito por quem sabe, não pelo sobrinho por ser sobrinho ou por curiosos porque estão desempregados.

[Post 3057]

Léxico: «monossémico»

Univocação


      Se os dicionários registam polissemia e polissémico, não deveriam registar monossémico, já que registam monossemia? Na verdade, o Dicionário Houaiss não regista (!) nem monossemia nem monossémico, o que não deixa de surpreender num dicionário como este. (Caro Paulo Araujo, por favor, trate do caso.)
      Há vocábulos monossémicos, isto é, que têm uma única significação, e a designação é usada em algumas gramáticas. No domínio da ciência e da técnica, por exemplo, há — e é uma garantia da necessária univocidade — muitos termos monossémicos.

[Post 3056]

Advérbios interrogativos

Isto está a mudar


      Até há pouco tempo, as gramáticas escolares evitavam incluir o porque entre os advérbios interrogativos. Pura cobardia e ignorância. Como os autores sabiam que a questão é controversa, nada diziam. Contudo, não deixavam de incluir o advérbio porquê. Agora algumas já tomam uma posição, como se vê aqui: «Os advérbios interrogativos podem remeter para uma ideia de tempo (quando?), de lugar (onde?, aonde?, donde?...), de modo (como?) ou de causa (porque?, porquê?)» (Gramática Prática de Português, M. Olga Azeredo, M. Isabel Freitas M. Pinto, M. Carmo Azeredo Lopes. Lisboa: Lisboa Editora, 2009, p. 258). As autoras tiveram como consultor científico o Prof. João Miguel Marques da Costa, do Departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa.

[Post 3055]

Léxico: «séptico»

Cépticos amputados


      «Não, aqui houve um sismo. Mas foram muitos os que ficaram debaixo dos escombros por demasiado tempo, os que estiveram sem tratamento, os que foram tratados à pressa e voltaram sépticos. Ainda não acabou» («Não se amputava assim desde a Guerra da Crimeia», Sofia Lorena, Público, 23.1.2010, p. 16).
      Não é todos os dias que lê o adjectivo séptico (e ainda menos putrígeno...) Uma das acepções, a usada no texto, significa infectado por micróbios ou suas toxinas. De acordo com as novas regras ortográficas, não sofrerá alterações, pois o p é articulado. Já céptico passará a grafar-se cético.

[Post 3054]

Processos de composição

Depende


      Cara M. L.: no composto morfossintáctico, associam-se dois ou mais vocábulos, como, por exemplo, homem-bomba; no composto morfológico, o novo vocábulo é formado a partir da junção de dois radicais (normalmente de origem grega ou latina) ou de um radical e um vocábulo, por exemplo, telemóvel. Mesmo um termo como afro-americano é um composto morfológico. Nestes, apenas o elemento da direita sofre alterações de género e de número: afro-brasileiro/afro-brasileiros/afro-brasileira/afro-brasileira. Quanto aos compostos morfossintácticos, depende: o plural pode atingir ambos os vocábulos constituintes, só o da esquerda ou só o da direita.

[Post 3053]

«Rotinados», outra vez

Ainda entra nos dicionários...


      «Eu creio que há pessoas que nos desafiam, nos desconcertam sobretudo, por nos obrigarem a mudar radicalmente os nossos modelos rotinados de pensar e de agir, e creio que Maria de Lourdes Pintasilgo [1930–2004] foi claramente uma dessas pessoas e que marcou, por isso mesmo, acima de tudo por isso, a segunda metade do século XX em Portugal» (José Manuel Pureza, Conselho Superior, Antena 1, 21.1.2010).
       Já aqui me tinha referido ao adjectivo rotinado, tendo então afirmado que, em relação à oralidade, mais espontânea, livre, improvisada, temos de ser mais tolerantes, tanto mais que quase nada do que se diz passa à escrita. Neste caso, porém, são textos escritos para serem lidos, pelo que não há essa desculpa.

[Post 3052]

Ortografia: «peso meio-médio»

Mais leve


      «Campeão em título na categoria de pesos-meio-médios (sensivelmente entre os 63 e os 66 quilos), Andre Berto tinha marcado para 30 de Janeiro um confronto com Shane Mosley, o campeão da mesma categoria mas de outra organização de boxe, a WBA (World Boxing Association)» («Quando a família é mais valiosa que um combate para o título», Rui Silva, i, 21.1.2010, p. 56).
      Eh, lá, não são hífenes a mais? «Pesos-meio-médios»? Pretende-se traduzir o vocábulo inglês welterweight. Não é por isso, contudo, que precisamos de ligar os elementos. Escreva-se pesos meio-médios.

[Post 3051]

Regência do verbo «propor-se»

O i no divã


      «De D. Afonso VI a José [sic] César Monteiro, passando por Fernando Pessoa e Antero de Quental, Joana Amaral Dias propõem-se [sic] a sentar estas personalidades no divã e dar um nome aos seus comportamentos à luz da psicologia/psiquiatria actuais» («Joana Amaral Dias. Retratos da loucura dos portugueses famosos», Patrícia Silva Alves, i, 21.1.2010, p. 34).
      Francisco Fernandes, no Dicionário de Verbos e Regimes (São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 481), lembra que a «forma propor-se a fazer alguma coisa é condenada por muitos puristas, que mandam que se escreva propor-se fazer alguma coisa (infinito não preposicionado)».
      E o director do i, Martim Avillez Figueiredo, não esteve em 2009 no programa Páginas de Português a falar sobre os cuidados com o português no jornal que dirige?

[Post 3050]

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