Tuitar/twittar

Assim não erram


      É uma moda, decerto, porque ligada à tecnologia, mas entretanto talvez fosse conveniente escrever sempre da mesma forma: «A segunda questão é: como funciona? António Eduardo Marques, autor do livro “Internet”, responde telegraficamente, como se estivesse a ‘twittar’: “Pense no e-mail. Imagine mensagens que só podem ter 140 caracteres. Imagine que as envia, toda a gente as lê. O Twitter é assim.” […] Para Glória Martins, 41 anos, a pessoa que mais ‘twita’ e mais seguidores tem em Portugal, este site representa uma “ferramenta prática” para a “escrita de improviso”» («Mais popular do que Obama», Carlos Abreu e Hugo Franco, Expresso, 24.12.2009, p. 17). Bem faz Ferreira Fernandes, que desde o primeiro momento aportuguesou o verbo: «Alguma importância deve ter, a prova é que a mãe de um miúdo com dois anos, numa casa com piscina está a tuitar 74 vezes sobre o assunto, capoeiras» («Mãe no Twitter: “O meu bebé afoga-se”», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.12.2009, p. 9).

[Post 3043]

Actualização no mesmo dia

      «É pena não traduzirem...», lamenta «um leitor assíduo sem conta Google», Nuno Salgado, que acrescenta: «Twitter vem de tweet (daí o pássaro no logótipo) e, em português, tuitar seria piar. O que remetia para umas associações curiosas como “perder o pio”, “ficar sem pio”, “nem piaste!”, etc.»

Léxico: «castanholas»

Porque fazem barulho?


      «A embarcação e o colete que tinha, bem como um remo do barco e castanholas (que servem para assinalar a mudança de direcção) foram encontradas por um pescador a três quilómetros do local do acidente» («Cai ao rio Paiva a fazer rafting», Ana Isabel Fonseca, Correio da Manhã, 17.1.2010, p. 15).
      Não encontrei esta acepção registada nem, observada a imagem das castanholas no Correio da Manhã, a etimologia permite explicar a designação. Talvez algum leitor possa esclarecer-nos.

[Post 3042]

Revisores dos jornais

Ora tomem


      O provedor do The Washington Post, Andrew Alexander, lamentou que o número de erros ortográficos tenha aumentado no jornal. Já no Verão tinha escrito sobre o mesmo assunto, atribuindo então o problema ao facto de o jornal ter dispensado 30 dos 75 revisores que tinha. Agora, os revisores que ficaram têm trabalho a mais. E chovem as cartas dos leitores que protestam. O que esperavam? Também entre nós há editoras que dispensam os revisores, mas o produto final, indigno de ostentar o nome de livro, vale menos que uma bosta de búfalo na Índia.


[Post 3041]

Ortografia: «semilegal»

E outra


      «Apesar de oficialmente reprovadas, essas actividades semi-legais tornaram-se rapidamente indispensáveis, porque desempenhavam um papel vital junto das empresas que abasteciam» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 404).
      Talvez o tradutor não tenha de saber (mas, nesta obra, figura na ficha técnica como revisor...), mas o revisor tem. O prefixo semi- liga-se por hífen ao elemento seguinte, quando este começa por h, i, r ou s. Logo, semilegal. Como semilíquido, semilouco, semilúnio...


[Post 3040]

Ortografia: «antidesperdício»

Mais uma


      «Uma outra fonte importante sobre o universo burocrático é a que devemos ao Comité de Controlo de Estado, que elaboraria, em 1966, uma panorâmica daquele, transmitindo-a a título de contributo à Comissão Anti-desperdício, dirigida por Bajbakov» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 389).
      Se eu já acho lamentável que se use o hífen mesmo quando, oficialmente, a designação o tem (vide Rede Europeia *Anti-pobreza), quanto mais nestes casos. O elemento anti- aglutina-se sempre com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s. Logo, antidesperdício, antidáctilo, antidemocracia, antidemocrata, antidemocrático...

[Post 3039]

Ortografia: «supraterreno»

Está nos dicionários


      «Quanto ao domínio exercido pelos czares sobre a igreja [sic], associava-se intimamente à utilização pelo regime dos símbolos dessa mesma igreja [sic], servindo-se os czares da sua legitimidade supra-terrena em seu benefício próprio» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 50).
      Errado. Este elemento de formação de palavras apenas se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supraterrena. Como supraterrâneo, supratorácico, supratranscrito...

[Post 3038]

Acento diferencial

Um acordo à nossa medida


      «— Uma baixela é o conjunto de pratos, chávenas, copos... — responde. — E pára de pensar sobre essas coisas. Só de pensar em pratos, dá-me uma fome» (Um Ajudante de Muita Ajuda, Antonio Iturbe. Colecção «Casos do Inspetor Zito e Chin Me Do». Cascais: Vogais & Companhia, 2009).
      O excerto desta obra estaria absolutamente correcto — se não estivesse o seguinte aviso no início: «Texto segundo o Acordo Ortográfico de 1990.» «Prescinde-se», lê-se no art. 9 da Base IX (Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas), «quer do acento agudo, quer do circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respetivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas.» Preposição e forma verbal deixam de se poder distinguir pelo acento.
      O erro pode dever-se a uma de duas razões: ou na editora desconhecem as regras do Acordo Ortográfico de 1990 ou, como decerto irá acontecer com outros, não «gostam» da regra. Não concordam. Não acatam.

[Post 3037]

Sobre «Occitânia»

Bons dicionários


      «Nele se narram (em três discos acompanhados de preciosos textos, numa edição de luxo) o aparecimento do catarismo em várias zonas da Europa Central, a cruzada e a invasão da Ocitânia (o actual Sul de França, grosso modo), a perseguição do catarismo e o seu estertor final.»
      Este é um excerto de um texto que acabei de rever. É a segunda vez em menos de quinze dias que vejo o topónimo incorrectamente escrito. Só para prevenir: nem no âmbito do Acordo Ortográfico de 1990 se escreve daquela forma. Continuará a ser Occitânia. A propósito: o «consagrado Dicionário da Academia de Ciências» não regista occitânico nem occitano. Tão-pouco occitanofalante, occitanofonia, occitanófono ou occitanoparlante — como o Dicionário Houaiss faz.

[Post 3036]

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