Revisores dos jornais

Ora tomem


      O provedor do The Washington Post, Andrew Alexander, lamentou que o número de erros ortográficos tenha aumentado no jornal. Já no Verão tinha escrito sobre o mesmo assunto, atribuindo então o problema ao facto de o jornal ter dispensado 30 dos 75 revisores que tinha. Agora, os revisores que ficaram têm trabalho a mais. E chovem as cartas dos leitores que protestam. O que esperavam? Também entre nós há editoras que dispensam os revisores, mas o produto final, indigno de ostentar o nome de livro, vale menos que uma bosta de búfalo na Índia.


[Post 3041]

Ortografia: «semilegal»

E outra


      «Apesar de oficialmente reprovadas, essas actividades semi-legais tornaram-se rapidamente indispensáveis, porque desempenhavam um papel vital junto das empresas que abasteciam» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 404).
      Talvez o tradutor não tenha de saber (mas, nesta obra, figura na ficha técnica como revisor...), mas o revisor tem. O prefixo semi- liga-se por hífen ao elemento seguinte, quando este começa por h, i, r ou s. Logo, semilegal. Como semilíquido, semilouco, semilúnio...


[Post 3040]

Ortografia: «antidesperdício»

Mais uma


      «Uma outra fonte importante sobre o universo burocrático é a que devemos ao Comité de Controlo de Estado, que elaboraria, em 1966, uma panorâmica daquele, transmitindo-a a título de contributo à Comissão Anti-desperdício, dirigida por Bajbakov» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 389).
      Se eu já acho lamentável que se use o hífen mesmo quando, oficialmente, a designação o tem (vide Rede Europeia *Anti-pobreza), quanto mais nestes casos. O elemento anti- aglutina-se sempre com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s. Logo, antidesperdício, antidáctilo, antidemocracia, antidemocrata, antidemocrático...

[Post 3039]

Ortografia: «supraterreno»

Está nos dicionários


      «Quanto ao domínio exercido pelos czares sobre a igreja [sic], associava-se intimamente à utilização pelo regime dos símbolos dessa mesma igreja [sic], servindo-se os czares da sua legitimidade supra-terrena em seu benefício próprio» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 50).
      Errado. Este elemento de formação de palavras apenas se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supraterrena. Como supraterrâneo, supratorácico, supratranscrito...

[Post 3038]

Acento diferencial

Um acordo à nossa medida


      «— Uma baixela é o conjunto de pratos, chávenas, copos... — responde. — E pára de pensar sobre essas coisas. Só de pensar em pratos, dá-me uma fome» (Um Ajudante de Muita Ajuda, Antonio Iturbe. Colecção «Casos do Inspetor Zito e Chin Me Do». Cascais: Vogais & Companhia, 2009).
      O excerto desta obra estaria absolutamente correcto — se não estivesse o seguinte aviso no início: «Texto segundo o Acordo Ortográfico de 1990.» «Prescinde-se», lê-se no art. 9 da Base IX (Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas), «quer do acento agudo, quer do circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respetivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas.» Preposição e forma verbal deixam de se poder distinguir pelo acento.
      O erro pode dever-se a uma de duas razões: ou na editora desconhecem as regras do Acordo Ortográfico de 1990 ou, como decerto irá acontecer com outros, não «gostam» da regra. Não concordam. Não acatam.

[Post 3037]

Sobre «Occitânia»

Bons dicionários


      «Nele se narram (em três discos acompanhados de preciosos textos, numa edição de luxo) o aparecimento do catarismo em várias zonas da Europa Central, a cruzada e a invasão da Ocitânia (o actual Sul de França, grosso modo), a perseguição do catarismo e o seu estertor final.»
      Este é um excerto de um texto que acabei de rever. É a segunda vez em menos de quinze dias que vejo o topónimo incorrectamente escrito. Só para prevenir: nem no âmbito do Acordo Ortográfico de 1990 se escreve daquela forma. Continuará a ser Occitânia. A propósito: o «consagrado Dicionário da Academia de Ciências» não regista occitânico nem occitano. Tão-pouco occitanofalante, occitanofonia, occitanófono ou occitanoparlante — como o Dicionário Houaiss faz.

[Post 3036]

Numeração romana

Nem pensar


      «O XII.º Congresso, que teve lugar em Março de 1923, pode ser considerado como o último em que o Partido pôde usar ainda com legitimidade o seu nome revolucionário — do mesmo modo que podemos datar do ano de 1924 a morte do “bolchevismo”» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 339).
      Nesta obra repete-se este erro, que já tenho visto noutras obras. Os algarismos romanos tanto podem ser usados e lidos como ordinais como cardinais — e, no primeiro caso, nunca precisam de uma letra, a ou o, sobrescrita ou em índice.

[Post 3035]

Revisão

Até ao fim


      «Uma das primeiras foi a intervenção (algo aventurosa dada a proibição da sua entrada em França) no Congresso de Tours do Partido Socialista Francês (SFIO), em Dezembro de 1920, que por grande maioria decidiu a aceitação das “21 condições de admissão” na IC e a sua consequente transformação no Partido Comunista Francês» (Vozes Insubmissas. A História das Mulheres e dos Homens Que Lutaram pela Igualdade dos Sexos Quando Era Crime Fazê-lo, Isabel do Carmo e Lígia Amâncio. Revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2.ª ed., 2004, p. 179). «Adquire nestes anos um conhecimento aprofundado da teoria económica do marxismo e inicia uma colaboração regular na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit» (idem, ibidem, p. 185). «A intervenção no debate do ministerialismo foi ocasião de uma controvérsia com Jean Jaurès, que virá a ser o líder do Partido Socialista francês a partir da unificação deste, em 1905» (idem, ibidem, p. 188). «A primeira questão nasce em relação à greve geral desenvolvida em 1902 pelos trabalhadores belgas para a conquista do sufrágio universal, durante a qual o Partido Operário Belga estabelece um acordo parcial com o partido liberal, acordo que exclui as mulheres do direito de voto» (idem, ibidem, p. 189).
      Dúvidas, escusado seria dizê-lo, todos temos. Um revisor, porém, tem de tomar decisões e ser coerente até ao fim.

[Post 3034]

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