Numeração romana

Nem pensar


      «O XII.º Congresso, que teve lugar em Março de 1923, pode ser considerado como o último em que o Partido pôde usar ainda com legitimidade o seu nome revolucionário — do mesmo modo que podemos datar do ano de 1924 a morte do “bolchevismo”» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 339).
      Nesta obra repete-se este erro, que já tenho visto noutras obras. Os algarismos romanos tanto podem ser usados e lidos como ordinais como cardinais — e, no primeiro caso, nunca precisam de uma letra, a ou o, sobrescrita ou em índice.

[Post 3035]

Revisão

Até ao fim


      «Uma das primeiras foi a intervenção (algo aventurosa dada a proibição da sua entrada em França) no Congresso de Tours do Partido Socialista Francês (SFIO), em Dezembro de 1920, que por grande maioria decidiu a aceitação das “21 condições de admissão” na IC e a sua consequente transformação no Partido Comunista Francês» (Vozes Insubmissas. A História das Mulheres e dos Homens Que Lutaram pela Igualdade dos Sexos Quando Era Crime Fazê-lo, Isabel do Carmo e Lígia Amâncio. Revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2.ª ed., 2004, p. 179). «Adquire nestes anos um conhecimento aprofundado da teoria económica do marxismo e inicia uma colaboração regular na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit» (idem, ibidem, p. 185). «A intervenção no debate do ministerialismo foi ocasião de uma controvérsia com Jean Jaurès, que virá a ser o líder do Partido Socialista francês a partir da unificação deste, em 1905» (idem, ibidem, p. 188). «A primeira questão nasce em relação à greve geral desenvolvida em 1902 pelos trabalhadores belgas para a conquista do sufrágio universal, durante a qual o Partido Operário Belga estabelece um acordo parcial com o partido liberal, acordo que exclui as mulheres do direito de voto» (idem, ibidem, p. 189).
      Dúvidas, escusado seria dizê-lo, todos temos. Um revisor, porém, tem de tomar decisões e ser coerente até ao fim.

[Post 3034]

Sobre «arruada»

Erros no De Rerum Natura


      Escreve Rui Baptista no blogue De Rerum Natura: «No [sic] última edição do semanário Expresso (16/01/2010) foi noticiado, em escassas linhas, que o PCP, “ao fim de anos de luta, colocou a palavra ‘arruada’ no Dicionário da Academia”. E porque o povo também faz a língua, na essência, refere-se este suelto a Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, por ele, em hora de inspiração, logo aproveitada pelos meios de comunicação social, ter sido o padrinho do neologismo arruada na pia baptismal do consagrado Dicionário da Academia de Ciências para significar os passeios de rua dos partidos políticos levados a efeito, por exemplo, na última campanha eleitoral pelas ruas do vetusto Chiado, qual Fénix renascida das cinzas.»
      Se não soubesse que os verbetes estão ordenados alfabeticamente nos dicionários, teria andado perdido durante muito tempo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. A verdade é que neste dicionário passamos do verbete «arruaceiro» para o verbete «arruamento». O que está é registado o verbo arruar, mas em dicionários de há duzentos anos também estava. É o caso do Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. E quem consagrou o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea? Como se pode escrever sobre o que seja e não consultar as fontes citadas? Sendo o autor professor, mais obrigação tem de vir corrigir a afirmação.

[Post 3033]

Actualização em 21.1.2010

      Em relação à edição do Expresso do dia 16 de Janeiro não sei, mas na edição anterior encontrei um texto, de que transcrevo o seguinte trecho, que interessa ao debate: «E há ainda uma curiosidade política: a reentrada em cena de arruada, uma palavra que chegou a existir em dicionários antigos para designar digressões festivas pelas ruas e que, depois de anos a ser usada apenas pelos partidos mais à esquerda (PCP e Bloco de Esquerda) caiu no goto da gíria mediática nas três campanhas eleitorais de 2009, qualquer que fosse a cor das bandeiras ao longo das praças e avenidas» («As 13 novas palavras da língua portuguesa», Micael Pereira, Expresso, 9.1.2010, p. 26).
      Que dicionários antigos, caro Micael Pereira? Pode citar pelo menos um?



Adjectivos truncados

Duplas nacionalidades


      Uma consulente do Ciberdúvidas, Ana Oliveira, perguntou: «Gostaria de saber qual a forma correcta de referir duplas nacionalidades em português. Atendendo a casos como luso-brasileiro, franco-canadiano, ítalo-americano, afro-americano, parece-me existir um padrão, mas será sempre essa a regra?» A consultora Edite Prada respondeu: «Sim, a regra é sempre recorrer à forma truncada, ou seja, obtida retirando a parte final do adjectivo que se pretender colocar em primeiro lugar. No caso de haver dúvidas quanto à forma que a palavra assume, existe nos dicionários mais recentes, como entrada, a grande maioria desses elementos.»
      Está mal explicado, para não dizer errado. Desde quando é que a forma truncada se obtém «retirando a parte final do adjectivo que se pretender colocar em primeiro lugar»? São formas adjectivas mais curtas, truncadas, ou seja, incompletas. E são formas fixas, eruditas, não se obtêm desta ou daquela maneira.

[Post 3032]

Caraté, caratê, carate, karaté

Diversidade


      «O caraté é uma arte marcial e requer que o corpo produza o máximo poder de ataque com o mínimo de lesões» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 106).
      É relativamente raro encontrar o vocábulo com esta grafia, o que talvez não seja de surpreender, pois o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, no verbete caraté remete para karaté. No Brasil, contudo, a grafia é caratê. O Dicionário Houaiss também regista o termo caraté, mas para designar uma afecção cutânea de carácter crónico. E ainda temos o termo carate, aportuguesamento de carat, que, a avaliar pela sua ausência do Dicionário Eletrônico Houaiss, não é usado no Brasil.
      No âmbito do Acordo Ortográfico de 1990, continua a ser preferível, as regras sobre o seu uso ainda são restritivas, grafar o vocábulo com c, pois o grafema tem o mesmo valor fónico de k.

[Post 3031]

«Docosahexaenóico»?

Princípios gerais


      «O cérebro é bastante rico em ácido docosahexaenóico (DHA), um ácido gordo que o corpo é capaz de produzir, mas não com muita eficácia» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 147).
      A pergunta, muito simples, é: não têm estes compostos de obedecer à regra de que o h é eliminado do segundo elemento? Afinal, é anarmónico, biebdomadário, coonestar, exausto, inabilitar, lobisomem, reaver, etc., que escrevemos. Logo, só podemos ter docosaexaenóico. Lá por em inglês ser docosahexaenoic, não quer dizer que copiemos. Não é justamente a adopção da fonética e da ortografia portuguesas um dos princípios gerais utilizados na adaptação das denominações comuns internacionais (DCI) para a nossa língua?
      O elemento docosa- vem do grego e significa 22, como no vocábulo «docosaedro», que designa o poliedro que tem 22 faces.

[Post 3030]

Compostos com «quase-» III

Às vezes vai apagada


      A propósito de um texto sobre os compostos com quase-, o bem informado leitor Franco e Silva deixou o seguinte comentário: «Pois é. Mas segundo a cartilha da Academia Brasileira de Letras (e candeia que vai à frente...) pela 5.ª edição do seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (regido pelo novo Acordo Ortográfico (1990)) será sempre quase e não sem hífen: quase livre, quase certo, quase ética, não alinhado, não caso, etc.»
      Agora li o que, sobre a mesma questão, escreveu Josué Machado, jornalista brasileiro: «Outra curiosidade é a da Nota explicativa do Volp, página LIII. O Acordo excluiu o hífen quando as palavras “não” e “quase” agem como prefixos. Agora é “não agressão”, “não fumante”, “quase delito”, “quase irmão”. Estranho, no entanto, é o penúltimo parágrafo da Nota:
      “Está claro que, para atender a especiais situações de expressividade estilística com a utilização de recursos ortográficos, se pode recorrer ao emprego do hífen nestes e em todos os outros casos que o uso permitir. É recurso a que se socorrem muitas línguas. Deste “não” hifenado se serviram no alemão Ficthe e Hegel para exercer importante função significativa nas respectivas terminologias filosóficas; nicht-sein e nicht-ich, de que outros idiomas europeus se apropriaram como calços linguísticos. Não é, portanto, recursos para ser banalizado.”
      Aí, o professor Bechara foi longe. Quem escrever algo que ache importante, e quiser hífen em formações com “não” e “quase” para realçá-las, poderá fazê-lo.
      Distrações, curiosidades, oscilações... Bem que Bechara previu que, apesar do esforço, os editores do Volp sofreriam críticas de quem procura erros alheios, hábito muito ruim: “Temos de fazer o melhor possível, mas de qualquer jeito vamos apanhar muito”. Nem tanto» («A Academia se atrapalhou», Revista Língua Portuguesa, aqui).

[Post 3029]

«Leges artis» II

Indóceis criaturas


      Um leitor, R. A., mandou-me a transcrição de uma notícia publicada no Jornal de Notícias: «O juiz salientou, ontem, durante a leitura da sentença que o tribunal lamenta “não pode condenar, mas teria condenado”, uma vez que se provou que as médicas violaram as leis da profissão (leje artis), porque não chegaram à representação da possibilidade de uma gravidez através da leitura da imagem da ecografia, nem verificaram a falsidade da leitura, nem a mandaram repetir, aliás, um exame que, segundo o tribunal apurou, “desapareceu do hospital inexplicavelmente”» («Obstetras absolvidas pese a negligência», Glória Lopes, Jornal de Notícias, 16.01.2010, p. 27). Acrescenta o leitor: «É caso para dizer que, se o JN transcreve bem o que está na sentença, o tribunal, além de fraco em latim, parece fraco noutras coisas...»
      Bem, a verdade é que a locução latina não surge em nenhum dos trechos identificados como citações. Atribuo, pois, o erro à ignorância da jornalista. Com o português não se entendem muitos deles, quanto mais com o latim.

[Post 3028]

Arquivo do blogue