Ortografia: «alentejanização»

Ainda hoje


      «É o grande choque cultural do ano novo. Tornar-se-ão os alentejanos mais cubanos ou os cubanos mais alentejanos? Contra qualquer outro povo, eu apostaria na vitória dos cubanos. Mas ninguém passa algum tempo no Alentejo sem sucumbir a uma profunda alentejenização» («A Cuba alentejana», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.1.2010, p. 31).
      Vejamos. A palavra deveria ter sido formada por alentejano+ização (à semelhança, por exemplo, de africanização, que provém de africano+ização). Logo, nunca daria *alentejenização, mas alentejanização.

[Post 2998]

Pleonasmo

Ainda pior


      «E, no ano passado, em pleno escândalo das despesas dos deputados, indignou-se com as notícias de que ela e o marido gastaram, em quatro anos, 30 mil libras em despesas de alimentação e receberam o reembolso de 160 mil libras gastas com o empréstimo da casa» («O primeiro-ministro, a mulher e o amante dela abrem crise na Irlanda do Norte», Ana Fonseca Pereira, Público, 10.1.2010, p. 12).
      «Gastaram em despesas»? Mais um pleonasmo grosseiro. Bastava mudar o verbo, e é o que se espera de um profissional da comunicação social. Depois de escrever, leia em voz alta.

[Post 2997]

Ortografia: «espanholês»

Ignorância


      «À saída dos consultórios a opinião dos utentes é de agrado por voltarem a ter médico de família e por perceberem “muito bem” o “espanholez” dos médicos cubanos. “Até me apalpou da cabeça aos pés”, confidenciou no meio de uma barulhenta gargalhada Maria C.» («Alentejanos têm reacção inusitada: “Calma, doutora”», Carlos Dias, Público, 10.1.2010, p. 11).
      Pois é, o vocábulo não está registado nos dicionários, nem precisamos de tal. Basta sabermos isto: não existe na língua portuguesa o sufixo de adjectivalização -ez. Ignorar este dado é que originou o erro. E os revisores estão de folga aos fins-de-semana...

[Post 2996]

Modificador realizante e chavões

Sim, senhora ministra


      Entrevistada ontem por Mário Crespo na Edição da Noite na Sic Notícias, a ministra da Educação, uma escritora, lançou mão do adjectivo «importante» como uma verdadeira muleta: «Eu trabalhei com ela [Maria de Lourdes Rodrigues, ex-ministra da Educação]. Foi ela que lançou o Plano Nacional de Leitura e senti que tinha condições muito importantes para desenvolver aquele projecto.»
      Mais do que qualificar positivamente as «condições» ou denotar conhecimento da semântica argumentativa de Ducrot, e nomeadamente do modificador realizante, releva antes e simplesmente do pouco à-vontade a falar com os meios de comunicação. E, enfim, uma infausta escolha de vocabulário.

[Post 2995]

Regência verbal

Conversa de café


      «Teve “um problema de droga”. Esteve preso. Saiu da cadeia. Apaixonou-se. Juntou-se à namorada — já lá vão sete anos. Tornou a receber. Desde Maio, bolsa, passe, senhas de almoço» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, p. 7).
      Esta forma reflexa do verbo juntar (e ajuntar), de uso popular, significa, como se sabe, amasiar-se, amancebar-se. O problema também é, não vale a pena fingirmos, de registo de linguagem, pois parece a transcrição de uma conversa de café com os entrevistados, com a jornalista a «encarar de frente» Paulo, o «avermelhado homem de 42 anos», a beber um favaios (derivação imprópria, senhora jornalista). Mas quero abordar outra questão. Será mesmo «juntar-se a»? É verdade que o Dicionário Houaiss só em relação à acepção pôr(-se) junto, unir(-se) [coisas diversas ou uma coisa a outra(s)]; reunir(-se) recomenda o uso da preposição com para indicar companhia, mas eu estenderia a recomendação à acepção usada no texto.

[Post 2994]

Pleonasmos

Então?


      «A professora Ana Luísa tenta apagar a memória que tanta revolta causa em Vítor: “As pessoas têm de mostrar empenho, responsabilidade.” O homem de cabelos curtos, pele curtida, encara-a de frente: “É sempre bom aprender mais qualquer coisa. Não digo é que fazer o curso de jardinagem me faça usufruir dessa arte”» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, pp. 6-7).
      Nem todos os pleonasmos — até as gramáticas o dizem, porque há sempre implicantes que não sabem distinguir — conspurcam a língua. Não é o caso deste. Como é que a jornalista Ana Cristina Pereira queria que se encarasse seja o que for: de esguelha? Às avessas? Vá lá, mais cuidado a escrever.

[Post 2993]

Ortografia: «subsidiodependente»

Vão-se escoando os anos


      «Há quem fale de subsídiodependentes. E quem defenda que é preciso acabar com o estereótipo do beneficiário preguiçoso. Há mais de 380 mil pessoas a receber uma prestação destinada a atenuar a pobreza. Sete mil estão em formação, com os olhos no mercado de trabalho. Vítor, ex-ajudante de construção civil, está a aprender jardinagem» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, p. 4).
      Já aqui o escrevi uma vez: nunca o acento gráfico (e a sílaba tónica) pode recuar para lá da pré-antepenúltima sílaba. E esta já é uma excepção à designada «janela de três sílabas». Já temos sorte que a jornalista não tenha usado hífen — *subsídio-dependente —, como se vê muito. Não tem, parece-me, qualquer dificuldade: segundo o Acordo Ortográfico de 1945, a regra geral na composição de palavras é a aglutinação dos seus componentes. Logo, eurozona, subsidiodependência, subsidiodependente...
      O Acordo Ortográfico de 1990 não veio mudar significativamente, nesta questão do emprego do hífen nos compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, o que fora estatuído em 1945, e a própria Nota Explicativa do acordo o realça. O período de transição, contudo, é de seis anos, tempo que seria suficiente se entretanto fosse publicado o vocabulário ortográfico comum. Realço «comum», pois interpretações unilaterais, e muitas vezes ao arrepio do texto do acordo, já temos que cheguem.

[Post 2992]

Adjectivo invariável «recorde» II

Uns meses depois...


      «“Não podemos continuar assim”, reagiu David Cameron, acusando os governantes de passarem demasiado tempo “a pensar no seu futuro”. “Hoje mais do que nunca o país precisa de uma liderança forte e de um governo unido”, sublinhou o líder dos conservadores, lembrando a guerra no Afeganistão e o défice-recorde» («Luta interna no Labour leva oposição a exigir a antecipação das eleições», Ana Fonseca Pereira, Público, 8.1.2010, p. 12).
      Pois é, vocês não estão desmemoriados, mas os jornalistas, sim. «Recorde» também é adjectivo, logo, não é necessário o hífen.

[Post 2991]

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