Propriedade no uso dos vocábulos

Só no País das Maravilhas


      «As escutas fortuitas a José Sócrates no caso Face Oculta começam a cair naquele enorme buraco dos silêncios convenientes. Há muita coisa que não percebemos e contradições que não batem certo» («Todos iguais?», Pedro Lomba, Público, 5.1.2010, p. 32). Essa é mesmo a última coisa de que precisamos — que as contradições batam certo. O mundo já é suficientemente confuso. Afinal, é da natureza das contradições que não batam certo.

[Post 2980]

Tradução e ortografia

Ideias fúnebres


      «Os anfitriões adiantaram-se no marcador, com um golo de Moreno, apontado à meia-hora de jogo» («Sporting e Benfica entram a ganhar», Metro, 4.1.2010, p. 7). O jornal tem revisora, Catarina Poderoso, e não se compreende que esta caucione estas parvoíces. Pior: a página anterior, na rubrica «60 segundos com...», entrevistaram Luis Ortega, director de Meio Ambiente da NH Hoteles, que acaba de lançar as «reuniões ecológicas» (ecomeetings), seja lá isso o que for. A explicação do entrevistado: «Um conceito para trasladar a nossa consciência ambiental e fazer uso respeitoso dos recursos energéticos para que o impacto destes eventos seja o mais reduzido possível.» Em português podemos fazer isso, sim senhor, mas o leitor médio pensa logo, é a única acepção que conhece, em funerais. Voltando ao *meia-hora. Não é a primeira vez que chamo a atenção para esta mania hifenizadora. Mais um infausto exemplo: «Dois SUV brancos abandonaram a garagem de estacionamento do Hotel e Casino Gran Almirante, em Santiago, a segunda cidade da República Dominicana, quando os jogadores e as prostitutas acabavam a noite, e dirigiam-se a norte, a meia-hora de distância, para a cidade de Navarette» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, pp. 111-12).

[Post 2979]


P. S.: caro R. A.: se já tivesse adoptado (adotado) o Acordo Ortográfico de 1990 (AO1990), apenas dois vocábulos teriam outra grafia: director passaria a diretor e acepção passaria a aceção.

Acordo Ortográfico

Veremos


      «O próximo romance de António Lobo Antunes», escreveu Isabel Coutinho no penúltimo dia de 2009, «já está a ser lido pela editora Maria da Piedade Ferreira. “Ainda não troquei impressões com os meus autores [Mário Cláudio e Rui Cardoso Martins]. O acordo não tem sido para já assunto de conversa”, diz. “Mas não vou tocar na escrita de Lobo Antunes. É uma prosa muito específica, muito particular”» («Na literatura, cada um faz o que quer», Público, 30.12.2009, p. 4).
      Significará a afirmação, acaso, que essa «prosa muito específica, muito particular» é inconvertível à nova ortografia? Isso não existe, simplesmente. Os autores querem ou não querem ou estão-se nas tintas — pelo menos, edições ne varietur à parte, enquanto forem vivos.

[Post 2978]

«‘Scanners’ corporais»?

Imagem: birdofparadox.files.wordpress.com/

Nefandas visões


      «Os aeroportos britânicos, como Heathrow, vão ter scanners para “revistar” o corpo dos passageiros após a última tentativa de atentado num avião que voava para os Estados Unidos» («‘Scanners’ invadem aeroportos», Metro, 4.1.2010, p. 5).
      Na Antena 1, não se cansam de falar de «scanners corporais», tradução atamancada de body scanners.

[Post 2977]

Actualização em 6.1.2010

      Há quem perceba o que está em causa:«No aeroporto holandês onde entrou o terrorista nigeriano do voo para Detroit havia scanners de corpo inteiro que teriam descoberto os explosivos com que ele tentou rebentar o avião» («Notícias da frente de guerra», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.01.2010, p. 64).

«Cães farejadores»?

Farejadores, como todos


      «O jornal O Globo destacava ontem que cães farejadores apontaram para sete locais em Angra dos Reis onde poderão estar mais corpos soterrados» («Chuvadas torrenciais ainda matam», Metro, 4.1.2010, p. 5).
      Começo por confirmar: o jornal O Globo falava mesmo em «cães farejadores». Fareja-me que isto não está correcto. Para mim, todos os cães são farejadores. Só um cão constipado é que não conseguirá seguir ou procurar pelo faro. Até hoje, só tinha ouvido falar em cães pisteiros.

[Post 2976]

«Bigle», outra vez

São cães


      «No trabalho de Carl Cotman com os beagles, os cães que envelheciam com maior êxito eram aqueles a quem haviam sido fornecidos ao mesmo tempo uma dieta enriquecida e um ambiente enriquecido — mais brinquedos, mais estimulação, mais exercício, mais companheiros de brincadeira» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 204).
      Envelhecer com êxito? «Aqueles a quem»? São cães, senhores! Bem, mas não é por isso que aqui venho. Já aqui tinha falado desta raça de cães, galgos pequenos, utilizados na caça de coelhos e lebres. Só que a palavra há muito registada em português é bigle.

[Post 2975]

Regência e selecção vocabular

Dinamite gramatical


      «E é muito interessante ver, já não é a primeira vez que eu falo disto, é muito interessante ver como os jornais defrontam as notícias sobre si próprio [sic]» (Ponto contra Ponto, Pacheco Pereira, Sic Notícias, 3.1.2010). Defrontar é sinónimo de encarar e arrostar, tenho é dúvidas que se aplique com propriedade no contexto. Uns segundos antes, Pacheco Pereira tinha dito: «De vez em quando, os jornais têm que se confrontar com a verdadeira realidade dos seus leitores, ou seja, com o número de pessoas que os compram numa banca. E esse confronto não é fácil de lidar.» Ora, na acepção de ocupar-se de, enfrentar, o verbo é regido da preposição com. É um erro tauromáquico.
      Mas Pacheco Pereira acabou bem: «Chegamos agora à “Dinamite Cerebral”. Alguns amigos, alguns leitores, têm chamado a atenção que “dinamite” é feminino. A gente às vezes tem as coisas dentro da cabeça. Eu normalmente penso no “pau de dinamite”, no “bastão de dinamite”, e agora tenho que começar, mentalmente, a pensar na carga de dinamite, e assim talvez trate “dinamite” no feminino que realmente é.»

[Post 2974]



P. S.: Caro R. A.: se já tivesse adoptado (adotado) o Acordo Ortográfico de 1990, apenas um vocábulo teria outra grafia: acepção passaria a ser aceção.

Disparates na televisão

Pobres criancinhas


      Na apresentação de A Princesinha, desenhos animados que passam no canal Panda, uma voz off garante que a princesinha faz tudo, «mesmo que se magoo». Uma personagem (ah, não me perguntem se o Ed, o Ted, o Ned, o Fred ou a Nelly) da série No País dos Ozie Boo, no mesmo canal, anuncia: «Truxe-te uma coisa boa.» Há duas formas de pronunciar a 3.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo trazer: a correcta (com o ditongo), digamos, e a corrente (com ô). Luísa (a actriz, não a cake designer (!), Marta Queiroz), de a Ilha das Cores, na RTP 2, diz que há muitos «pólvos» no mar. D´ Silvas Filho afirma que «na zona de Lisboa, o plural de polvo pronuncia-se ¦pólvos¦, com timbre semiaberto da vogal tó[ô]nica. Isto não invalida a pronúncia da vogal tó[ô]nica com timbre semifechado ¦ô¦ noutras zonas do país, se “for esse o uso ado(p)tado pela comunidade representativa (escolarizada) respectiva”. Certo é que aprendi que na passagem do singular para o plural não ocorre metafonia no substantivo «polvo», isto é, mantém-se o timbre semifechado da vogal tónica: pôlvo/pôlvos.

[Post 2973]

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