Acordo Ortográfico

Público não segue


      Sob um título errado, «Por que rejeitamos o acordo», o editorial do jornal Público de hoje explica porque é que não vai aplicar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, e assegura: «Vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje. Os nossos colunistas terão total liberdade de escolha, mas a redacção escreverá notícias baseadas em “factos”, sem “espectáculo” mas com “acção”.» Bem, o espectáculo e a acção dos jornais que vão adoptar as regras do acordo serão diferentes, mas os factos são de certeza os mesmos. Mas têm razão numa afirmação: «há ainda uma última e fatal fragilidade neste acordo — as regras definidas são facultativas. Para que serve então um acordo global se, afinal, é indiferente escrevermos António ou Antônio?» Ecoa aqui, até nos exemplos, a opinião do linguista António Emiliano: «Para o linguista, porém, o mais grave, sobretudo para o ensino, é o facto de “o acordo falar repetidamente de facultatividade”. Um exemplo: “Posso passar a escrever o meu nome como António ou Antônio, as duas formas passam a ser oficiais. Posso até escrever António numa linha e Antônio na seguinte e ninguém pode dizer que está errado.” («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3).

[Post 2958]

«Sino-luso»?

Não brinque

      «O cidadão de dupla nacionalidade chinesa e portuguesa Lau Fat Wai, 49 anos, condenado à morte em Cantão por tráfico de droga e posse de arma proibida, continua a aguardar a decisão do Supremo Tribunal chinês sobre a possibilidade de ser avaliado um seu recurso. “Não sei qual será a resposta, nem quando haverá resposta”, afirmou o advogado do sino-luso em declarações à agência Lusa, precisando apenas que o pedido foi apresentado à máxima instância chinesa em Março passado» («Sino-luso aguarda recurso em Cantão», Dulce Furtado, Público, 30.12.2009, p. 10).
      Juntar duas formas reduzidas de adjectivos pátrios? Está a brincar, senhora jornalista? Escreva sino-português ou luso-chinês.
[Post 2957]

Tradução: «based»

Varie, por favor


      «O debate foi sempre marcado pela questão das cedências: seria Portugal que estava a fazer cedências ao Brasil ou vice-versa? Alguns artigos que saíram recentemente na imprensa estrangeira sobre o acordo fazem uma leitura simples. “O império contra-ataca”, descreve a Associated Press; e Eric Hewett, um linguista baseado em Roma citado pelo Times online, considera “extraordinário que uma potência colonial europeia mude a sua ortografia para se aproximar da de uma colónia”. Mas, conclui o mesmo artigo, foram a globalização e a Internet que tornaram a decisão “incontornável”» («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3).
      Essa é uma perspectiva muito... inglesa. Também pouco portuguesa é a tendência desta jornalista para escrever sempre «baseado em» querendo significar «estabelecido em». O inglês a impor-se: «“It is really remarkable that a European colonial power changes its spelling to match that of a colony,” Eric Hewett, a Rome-based linguistics expert whose field of study focuses on the Basque language, says. “Normally, a European power insists that their version is correct, that the colonial speaker has an inferior grasp of their language.”»

[Post 2956]

Pronúncia de Lisboa

O lisboês é padrão

      «Margarita Correia é a responsável, no ILTEC, pelo projecto a que foi dado o nome de Vocabulário Ortográfico do Português. Faz parte do grupo restrito de pessoas que até agora pensaram na aplicação prática do Acordo Ortográfico. Como o fizeram? Em primeiro lugar definindo uma série de critérios que serão também tornados públicos. “O acordo remete muitas vezes para uma tradição, mas em lugar nenhum define qual é essa tradição. Por isso optámos por regularizar bastante a ortografia”. Em muitos casos isto significou tirar os hífens (de “cor-de-rosa”, por exemplo, que o acordo admitia com hífens referindo a “tradição”, ao mesmo tempo que deixava sem hífen “cor de vinho”). Quando a referência é a pronúncia optou-se por seguir a da região de Lisboa» («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3).

[Post 2955]

«VOLP»

Falta pouco para o sabermos


      «Em Portugal há o risco de confusão, dado que tudo indica que possa haver três VOLP. Um já está editado, pela Porto Editora, e foi coordenado por Malaca Casteleiro. Outro está em preparação pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), será gratuito (foi apoiado pelo Fundo da Língua Portuguesa) e deverá estar disponível on-line no Portal da Língua Portuguesa a partir de 4 de Janeiro (150 mil palavras para já, enquanto um dicionário de nomes próprios, outro de gentílicos e topónimos e um conversor, e mais 50 mil palavras serão acrescentadas até Março). E um terceiro está a ser elaborado pela Academia das Ciências» («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3). E algo (a experiência?, o preconceito?) me diz que o gratuito será o melhor...

[Post 2954]

Disruptor, disrupção

Desliga


      É verdade que disruption vem do vocábulo latino disruptio,onis, mas isso pouco importa, pois mais de metade do léxico do inglês tem origem no latim. A verdade é que, como afirma Fernando Navarro, e a afirmação aplica-se inteiramente ao falante de português, «buena parte de los anglicismos que utilizamos ofrecen amplia información al lector u oyente de habla inglesa, pero escasa o nula al de habla española» («La terminología médica en español: ¿está enfermo el lenguaje médico?», in E. Ortega Arjonilla, M. A. García Peinado y otros (eds.), IV Simposio Internacional Traducción, Texto e Interferencias. El español, lengua de cultura, lengua de traducción, Almagro, 2005). O falante de espanhol estranha que o Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) não registe disrupción mas registe disruptivo. O falante de português estranhará que os nossos dicionários (sim, mesmo o Houaiss) registem disrupção mas não disruptivo. E mais: o DRAE regista como étimo de disruptivo o vocábulo inglês disruptive; os nossos dicionários apontam como étimo de disrupção o vocábulo latino disruptio,onis. E ainda que haja quem a disruptor endócrino (do inglês endocrine disrupter) prefira desregulador endócrino, a generalidade dos médicos usa e aconselharia, se alguém perguntasse, o desaconselhável anglicismo.

[Post 2953]

Maiúscula inicial

Maiusculiza-me, por favor!

      «Small convidou-a a voltar a entrar e falaram acerca da condução, mas apenas durante um minuto, porque Sharon se mostrou irredutível e petulante, para além de ter a sanção do estado» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 38). Li a frase uma vez e voltei a lê-la. O segmento «para além de ter a sanção do estado» escapava à minha compreensão. Sharon sofre de Alzheimer e o marido, Randall, queixava-se da condução dela, que ele considerava perigosa, mas «ela passara recentemente o seu exame de condução, havia pouco a fazer». Ainda pensei que o «estado» se referisse à doença, e só depois compreendi que se referia à nação organizada politicamente: ao Estado.

[Post 2952]

Tradução: «lab-dab»

Irreconhecível

Coração bom-bom
Nunca faz tum-tum
como qualquer um.
Prefere outro tom:
— Fon-fon
e em toda esquina
mais alto que a rima
coração buzina.

ALMIR CORREIA. Poemas Sapecas, Rimas Traquinas (Belo Horizonte: Formato, 1997)


      «Segui-a até uma sala permeada por um alto e constante lab-dab, o pulsar do coração da grande máquina [aparelho de ressonância magnética] bege que estava à minha frente e na qual em breve seria enfiada» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 29). A narradora enfiou depois um par de tampões de espuma nos ouvidos e pôs um par de protectores auditivos por cima, mas: «Mesmo assim, o lab-dab prevalecia.» Que diabo é isto, «lab-dab»? Talvez o coração dos Americanos bata assim, mas o meu faz (pelo menos a maior parte do tempo, pois já sofri de arritmias graves) tum-tum. Tum-tum! Pelos vistos, o coração (mesmo que o não partilhem...) do tradutor e da revisora não é português. E ainda dizem que somos todos iguais.

[Post 2951]

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