Remédio, medicamento e mezinha

Confusão

      «O único remédio eficaz para evitar a ressaca é não beber de todo ou beber moderadamente. O conselho, dado com humor, é do médico Martins Baptista, que todos os anos recebe vários casos de intoxicação nas urgências do hospital Pulido Valente, em Lisboa, devido aos excessos de fim de ano. É que os outros remédios, medicamentos ou tradicionais, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante» («Remédios não são capazes de evitar nem curar ressaca», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 28.12.2009, p. 13).
      Sim, senhor: remédio é hiperónimo de medicamento, ou seja, o seu significado é mais abrangente do que o do vocábulo «medicamento», seu hipónimo. Vale a pena demorarmo-nos nesta questão, porque há muita gente a afirmar o contrário. Já Fr. Domingos Vieira, no seu Grande Dicionário Português ou Tesouro da Língua Portuguesa, escreveu que «remédio tem um sentido mais amplo que medicamento. O remédio compreende tudo que é empregado para a cura de uma doença. […] O exercício pode ser um remédio, porém nunca é um medicamento». O problema no artigo do Diário de Notícias é que usa a mesma palavra (elidida!) para o hiperónimo e para o hipónimo: «remédio» e «(remédio) tradicional». Como ao remédio caseiro (mais que tradicional) se dá o nome de mezinha, era de todo conveniente que a jornalista tivesse escrito da seguinte forma: «É que os outros remédios, medicamentos ou mezinhas, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante.»

[Post 2950]

Tradução: «answerer»

Malcriados

      «De acordo com um inquérito, conduzido em 2002 para a Associação do Alzheimer, 95% dos respondedorespraticamente toda a gente — disseram que consideravam a doença de Alzheimer um problema sério e bem mais de metade — 64% — daqueles com idades entre os trinta e cinco e os quarenta e nove, os baby boomers, a minha geração, observaram que estavam preocupados em eles próprios virem a padecer de Alzheimer» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 20). Em inglês já sabemos como é: answerer. E em português? Estamos habituados a ver nos dicionários que respondedor é aquele que costuma responder grosseiramente. O respingão. O respondão. Respondente é que é aquele que responde. O Dicionário Houaiss, porém, regista, para «respondedor», a acepção de aquele que responde. Uma solução é traduzirmos por inquirido. De contrário, temos esta coisa abstrusa: «De modo semelhante, quando a Fundação MetLife, em 2006, perguntou aos respondendores qual era a doença que tinham mais receio de vir a contrair, o cancro foi a primeira e a doença de Alzheimer, a segunda» (pp. 20-21).

[Post 2949]

Actualização em 24.1.2010

      «Contudo, em 7 de Abril último o Jornal de Negócios noticiava que 44% dos respondentes a um inquérito do IEFP dirigido aos utentes deste Instituto, [sic] declarou que a formação recebida “não contribuiu em nada para a obtenção do seu emprego”» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 89).


Pronúncia: «exogamia»

Mais uma silabada académica


      Mário Crespo, no Jornal das 9 da Sic Notícias, entrevistou longamente Duarte Santos, docente na Faculdade de Direito da Universidade de Macau e autor, e por este motivo foi entrevistado, da obra Mudam-se os Tempos, Mudam-se os Casamentos?, publicado pela Coimbra Editora, que é a versão publicada de uma tese de mestrado. A determinada altura, usou, por duas vezes, a palavra «exogamia» (casamento entre membros de diferentes grupos), pronunciando /egzogamia/. Errado. Tão errado como vimos, aqui, em relação a «exógeno».

[Post 2948]

Homófonas

Mais uma acha


      As autoridades norte-americanas contam que Abdul Mutallab tinha aparentemente um pacote de 15 centímetros de pó explosivo e uma seringa cozidos às cuecas, quando entrou no avião em Amesterdão, aonde chegara em trânsito a partir de Lagos» («Barack Obama vai rever regras para identificar suspeitos», Jorge Heitor, Público, 28.12.2009, p. 12). O pó, pentaeritritol ou outro qualquer, decerto que se pode cozer, já sobre a seringa tenho sérias dúvidas. Das cuecas não digo nada. Agora a sério: não parece uma gralha, é mais um erro muito comum. Homófonas, cozer e coser, podem deslustrar o melhor texto. Distracção? Nem sempre.


[Post 2947]

Ortografia: «bem-vestido»

Comparando


      «Antero Flores admite que, após as conversas com os três funcionários — “bem-vestidos e bem-falantes” — aceitou comprar acções do BCP. O que ficou registado na sua cabeça, e que é corroborado por familiares presentes no encontro, é que ele entrava com algum dinheiro (165 mil euros em saldo na sua conta à altura) e o banco entrava com outra parte» («Emigrante na África do Sul enfrenta BCP na justiça e ganha», Rosa Soares, Público, 28.12.2009, p. 14). Que eu saiba, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista bem-vestido. Também me parecer constituir uma unidade, daí o uso do hífen.


[Post 2946]

Sobre o Oeste

É menos vasto

     «Cinco dias depois do temporal que assolou o Oeste, a EDP ainda não tinha conseguido restabelecer a energia eléctrica em toda a região» («Cinco dias depois do temporal ainda havia casas sem electricidade no Oeste», A. H./T. N. com Lusa, Público, 28.12.2009, p. 19). Na Antena 1, já ouvi mais do que uma vez «no Oeste do País» querendo o jornalista referir-se ao Oeste. Ora, aquele é mais vasto do que este. Oeste é a designação que se costuma dar à região a poucos quilómetros da Grande Lisboa, constituída por doze municípios situados entre o oceano Atlântico e o maciço que se estende para norte a partir da serra de Montejunto. Quando ouço «no Oeste do País», não penso em Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço ou Torres Vedras — penso em toda a costa ocidental.

[Post 2945]

«Ítalo-»

Vejam lá isso


      «A italo-suíça Susana Maiolo, de 25 anos, que saltara uma barreira e se precipitara sobre Bento XVI, esteve num estabelecimento hospitalar, a ser submetida a exames psicológicos, e depois foi transferida para uma “estrutura protegida”, fora de Roma. Maiolo disse que “não queria fazer mal ao Santo Padre nem a ninguém”» («Segurança do Vaticano revista depois de incidente», Público, 27.12.2009, p. 13). Em quase toda a imprensa portuguesa, é isso que se lê, mas está mal: ítalo-suíça se deveria ter escrito. No Dicionário Houaiss lê-se: «ítalo-: antepositivo (seguido de hífen, donde a acentuação gráfica), do top. Itália, em compostos de tipo afro- (ver), cuja lógica lhe é totalmente aplicável; há ainda as alternativas ou var. itálico- e italiano-.» É esdrúxulo em português e era esdrúxulo em latim: itălus,a,um. Uma das grandes fontes do erro há-de ser o Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, pois que regista italo- como «elemento de formação de palavras que exprime a ideia de itálico e italiano», e ítalo como adjectivo e substantivo, sem deixar de recomendar que se escreva ítalo-etíope. No Departamento de Dicionários desta editora, ainda ninguém deu pela contradição — ou acham que não há contradição.


[Post 2944]

Espanholismo

Com licença


      «Um dos seus livros levou o título A Igreja com Rosto Humano. Esta pode ser uma ideia-síntese da sua vida, actividade e obra publicada. Foi um dos teólogos que mais influenciaram a doutrina de abertura do Concílio Vaticano II (1962-65), que procurou dessacralizar a estrutura da Igreja e se envolveu no seu aggiornamento. Edward Schillebeeckx, padre da Ordem dos Pregadores (dominicanos) e teólogo, morreu dia 23, antevéspera de Natal, em Nimega (Holanda), aos 95 anos» («O teólogo best-seller que quis pôr o catolicismo a falar com o mundo», António Marujo, Público, 27.12.2009, p. 13). «Levou o título»? Pode não ser, mas cheira-me a espanholismo. Parece-me o llevar na acepção tener, estar provisto de. A propósito, o étimo, é claro, é o mesmo, o latino levāre, que significava «levantar».
      Neste mesmo texto de António Marujo, também se lê: «No Vaticano II, o teólogo deixou a sua marca de água em dois documentos fundamentais: as constituições Dei Verbum, sobre a revelação divina, e Lumen Gentium.» Não seria melhor ter escrito somente «marca»? É que o vocábulo, nesta acepção, já é um sentido derivado: traço distintivo por que se reconhece alguém ou algo; estilo ou maneira pessoal. Para que é preciso a locução?

[Post 2943]

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