Elemento de composição «recém» (IV)

Por aí vamos


      Alguma vez saberemos quanta da evolução de uma língua se deve à simples ignorância? Não me parece. «E, no entanto, é entre estes jovens idênticos aos jovens de Barcelona, de Amesterdão ou Berlim — que não usam véu mas piercing, que bebem cerveja e falam inglês — que estão os maiores desiludidos com a União Europeia. “Vocês não nos querem”, diz Zeynab, uma recém-economista, “e inventam motivos para não entrarmos. Pessoalmente, acho que não vale a pena tentar mais.”» («Na terra de Jano», Rui Tavares, Público, 28.12.2009, p. 32).

[Post 2942]

Estado: uso da maiúscula

Por exemplo


      Mesmo que eu concordasse — e não concordo — que se escreva «Estado» com inicial minúscula quando seguido de «complemento toponímico»*, como se defende no Livro de Estilo do Público, o que vejo na prática do dia-a-dia é que nem sequer o próprio jornal segue a regra. Por outro lado, argumentemos, e se entre a palavra «Estado» e o «complemento toponímico» se intromete outra palavrinha? «Americano», por exemplo. A regra mantém-se? Aliás, todos conseguimos imaginar frases em que a palavra «Estado» está tão distante do «complemento toponímico» quanto nos apetecer. E, nesses casos, já não estarão seguidas.
      «O objectivo seria apelar ao nacionalismo mexicano — recordando tempos em que partes dos territórios que constituem os actuais estados americanos da Califórnia, do Oregon, do Novo México, do Texas, do Arizona, do Utah, do Colorado e do Wyoming pertenciam ao México» («Vodka Absolut retira anúncio com mapa da América do Norte em que o México ocupava o Sudoeste dos EUA», Pedro Ribeiro, Público, 10.4.2008, p. 23).
      «O jornal nigeriano This Day contou ontem que o velho banqueiro se iria reunir dentro de algumas horas com aqueles mesmos serviços. Enquanto isso, no Estado norte-americano do Michigan o suspeito terá de se explicar sobre a razão do seu acto, com o qual pouco mais conseguiu do que queimar-se a si próprio» («Nigeriano tentou deflagrar uma bomba em voo para Detroit», Jorge Heitor, Público, 27.12.2009, p. 10).
      Que a regra anda por aí, como tantas outras, mal interpretada, salta à vista, pois mesmo quando se não segue o complemento patronímico, continua a ser grafada com minúscula. Como no Diário de Notícias: «Eva Mendes manteve relações em todos os estados americanos» (Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 23.08.2008, p. 59).





* «3. Os substantivos que designam organização política ou social, como: condado, ducado, grão-ducado, principado, império, monarquia, nação, país, reino, república; ou que designam organização administrativa ou político-administrativa, como: aldeia, cantão, cidade, concelho, departamento, distrito, estado, freguesia, lugar, província, território, vila, etc., quando seguidos de complementos toponímicos: condado de Barcelona, estado de Nova Iorque, província do Ribatejo, concelho da Maia


[Post 2941]

Décadas e gerações

Incertezas


      Na imprensa, não se tem bem a certeza: nuns jornais, lê-se que «a década ainda nem chegou ao fim», ao passo que noutros se faz o «balanço da década». No Aspirina B, Valupi pergunta, talvez com hipercorrecção: «Que leva pessoas supostamente dotadas de um mínimo de cultura geral a considerarem que 2009 conclui uma década?» E ainda pergunta: «Nunca tropeçaram na palavra novena ou a ela são alérgicas por anticlericalismo primário?» Os dicionários, porém, apenas registam, além da acepção concernente à religião, as acepções de «série de nove dias» e «grupo de nove coisas». Mas é uma dúvida que persiste.
      No Viva a Música, de Armando Carvalhêda, Miguel Ângelo, dos Delfins, afirmou que «duas ou três gerações» conhecem de cor os temas daquela banda pop, mas é claro que não usou o vocábulo no sentido demográfico, de resto uma extensão de sentido.

[Post 2940]

Neologismos

De pasmar     

      Os tradutores são, a par dos jornalistas, os grandes criadores de neologismos. Alguns, é certo, não terão grande fortuna, mas funcionam bem na obra em que foram usados. De salto em salto, fui parar ao sítio de Lia Wyler, reputada tradutora brasileira, conhecida sobretudo por ter traduzido a saga de Harry Potter, e a uma entrevista que deu à revista Época, em que a tradutora lembra que inventou o verbo boquiabrir-se para traduzir o verbo inglês to gape. Também Isabel Fraga, uma das tradutoras portuguesas da mesma saga, fala, aqui, das palavras que teve de inventar quando fez a tradução: «espreitoscópio», «pungentos», «pensatório»...

[Post 2939]

Como citar o «Diário da República»

Pormenores

      «O Tribunal Constitucional (TC) entende que as concessionárias das auto-estradas têm a obrigação de provar que a presença de animais na faixa de rodagem não lhe é de todo imputável. Esta posição foi expressa em dois acórdãos publicados esta semana em Diário da República e aprovados pelos conselheiros do TC, no passado 18 de Novembro, e que negaram provimento a dois recursos da Brisa, que se não conformou com as indemnizações a que foi condenada pelo atravessamento de uma das faixas da A4 por uma raposa e um cão de grande porte» («Brisa vai mesmo ter de indemnizar donos de viaturas que chocaram com animais na A4», António Arnaldo Mesquita, Público, 26.12.2009, p. 8). Oportunidade para dizer, caro Luís M., que a tal professora de Técnicas de Revisão estava enganada, pois a própria Lei n.º 74/98, de 11 de Novembro (o que não é, bem sei, determinante, mas apenas mais uma fonte de esclarecimento), que regula a publicação, identificação e formulário dos diplomas legais, estabelece que aquele jornal oficial deve ser referido em itálico, e, já agora, que a numeração das séries se faz com numeração árabe (1.ª e 2.ª séries) e não romana, como todos os dias se lê por aí.

[Post 2938]

«Ribeira das casas»?

Como?

      «Isabel Magalhães nem queria acreditar quando chegou à ribeira das casas, numa tarde de passeio com a filha e uma amiga, e viu que a pintura rupestre com mais de cinco mil anos, que tinha descoberto sem querer há sete anos, estava destruída. “Deu-me vontade de chorar”, lembra» («Pela primeira vez, um caso de destruição de arte rupestre pode chegar a tribunal», Ana Machado, Público, 26.12.2009, p. 7). «Ribeira das casas»? Primeiro pensei que fosse lapso e estivesse em vez de «beira das casas». Mas outras duas ocorrências convenceram-me de que estava enganado: «Um breve carreiro separa a casa daquele lugar da ribeira das casas, onde, passadas as poldras, uma espécie de ponte ancestral, as enormes lajes graníticas alinhadas em anfiteatro abrigam um tesouro raro: um conjunto de pinturas rupestres.» «Nuno Neto, arqueólogo e natural de Malhada Sorda, diz que a descoberta desta gravura na ribeira das casas, junto a um leito de ribeira, não surpreende.» Não é, obviamente, um topónimo. A pista pode estar numa das acepções do vocábulo «ribeira»: porção de terreno banhado por um rio. Que algum leitor nos ajude.


[Post 2937]

Léxico: «apodíctico»

Ateus, intelectuais

      «“Surpreendem-me as certezas apodícticas com que alguns proclamam o seu ateísmo. As próprias certezas da fé, sendo firmes, são humildes”, declarou o cardeal» («Cardeal Patriarca de Lisboa critica certezas dos ateus mas não vê razões para conflitos», José Bento Amaro, Público, 26.12.2009, p. 6). E a mim surpreende-me que a Igreja, habituada, ao longo dos séculos, a lidar com ignorantes, analfabetos, os mais humildes, use esta linguagem. «Apodícticas»? Apodíctico é o que é necessariamente verdadeiro, quer por evidência, quer por demonstração. Demasiado filosófico. Ateus serão, porventura, apenas os intelectuais?

[Post 2936]

Ortografia: «cardeal-patriarca»

Tem dias

      No Público, ora escrevem cardeal patriarca ora cardeal-patriarca. Parece que ninguém dá pela incoerência. «Foi em torno da tolerância e compreensão, apesar de vivências diferenciadas, que o cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, urdiu, na noite de quarta-feira, a tradicional mensagem de Natal» («Cardeal Patriarca de Lisboa critica certezas dos ateus mas não vê razões para conflitos», José Bento Amaro, Público, 26.12.2009, p. 6). «O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), o cardeal-patriarca e o presidente da Comunidade Israelita inauguram hoje, às 11h00, no Largo de São Domingos, um conjunto escultórico que pretende fazer memória do massacre de judeus em 1506, iniciado precisamente naquele lugar» («Memorial judaico e católico evoca a partir de hoje em Lisboa o massacre de judeus de 1506», António Marujo, Público, 22.4.2008, p. 13). Se querem saber, escrevo sempre com hífen: cardeal-patriarca. Aplica-se a Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945, que manda usar hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos, dois ou mais substantivos ligados ou não por preposição.


[Post 2935]

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