Ortografia: «cardeal-patriarca»

Tem dias

      No Público, ora escrevem cardeal patriarca ora cardeal-patriarca. Parece que ninguém dá pela incoerência. «Foi em torno da tolerância e compreensão, apesar de vivências diferenciadas, que o cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, urdiu, na noite de quarta-feira, a tradicional mensagem de Natal» («Cardeal Patriarca de Lisboa critica certezas dos ateus mas não vê razões para conflitos», José Bento Amaro, Público, 26.12.2009, p. 6). «O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), o cardeal-patriarca e o presidente da Comunidade Israelita inauguram hoje, às 11h00, no Largo de São Domingos, um conjunto escultórico que pretende fazer memória do massacre de judeus em 1506, iniciado precisamente naquele lugar» («Memorial judaico e católico evoca a partir de hoje em Lisboa o massacre de judeus de 1506», António Marujo, Público, 22.4.2008, p. 13). Se querem saber, escrevo sempre com hífen: cardeal-patriarca. Aplica-se a Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945, que manda usar hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos, dois ou mais substantivos ligados ou não por preposição.

[Post 2935]

Ortografia: «quibla»

Menos itálico

      «Acrescenta, ao PÚBLICO, Clinton Bennett: “A Mesquita de Maomé em Medina não tem minarete. Tecnicamente, só a qiblah [que aponta a direcção para Meca] é essencial numa mesquita. Os minaretes só começaram a aparecer há cerca de 100 anos, tal como as cúpulas» («Quando o apartheid religioso critica a islamofobia», Margarida Santos Lopes, Público, 26.12.2009, p. 2). Porque não aportuguesar, como se vê até noutros jornais? «Corresponde [Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção ou de Entrevinhas ou Entre-Ambas-as-Águas] a um espaço quadrangular de cinco naves perpendiculares à quibla, sendo a central mais larga» («A vergonha de Mértola», D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, Correio da Manhã, 25.09.2009).


[Post 2934]

Sobre «recambiar»

Tudo recambiado

      «Um tribunal da cidade holandesa de Utreque permitiu ontem que a adolescente Laura Dekker fique ao cuidado do pai, Dick, depois de ter sido recambiada para o país, na sequência da sua fuga, na semana passada, para as Antilhas, onde tencionava comprar um novo barco e partir para uma volta ao mundo sozinha» («Jovem velejadora holandesa fica ao cuidado do pai», Jorge Heitor, Público, 24.12.2009, p. 13). Bom verbo este, recambiar. Registado na língua, pela primeira vez, no início do século XVII, significava, originalmente, apenas devolver letra de câmbio por falta de pagamento ou de aceite. Por extensão de sentido, passou depois a significar também devolver ao lugar de origem, fazer regressar, acepção em que é usado no artigo.


[Post 2933]

Réu/arguido

Pobres leitores...

      Como é possível que um jornalista não domine os conceitos de «réu» e de «arguido»? «Pouco depois do meio-dia local de ontem (4h em Lisboa), um funcionário do tribunal contou que a audiência terminara; e o advogado do réu afirmou depois que a sentença deverá ser lida amanhã» («Dissidente chinês está a ser julgado em Pequim», Público, 24.12.2009, p. 13). Arguido em matéria penal, réu em matéria cível. No caso, tratava-se do julgamento do dissidente chinês Liu Xiaobo, acusado de incitamento à subversão do poder do Estado. Isto é matéria cível, senhor jornalista?


[Post 2932]

Tradução: «to release»

Soltar, desprender, largar

      «E há muito que se espera que o FBI liberte parte da investigação que foi feita à morte de Michael Jackson. Esse documento foi libertado esta manhã» (Eduarda Maio, noticiário da Antena 1 das 10 da manhã de ontem). Má tradução de to release. Leio no The Wall Street Journal: «The Federal Bureau of Investigation yesterday released its files on pop singer Michael Jackson in response to Freedom of Information Act requests.» No Público, por exemplo, lia-se: «O FBI revelou ontem vários documentos secretos relacionados com o cantor Michael Jackson, muitos deles acerca de uma investigação, em 1992, de um indivíduo que ameaçou matar a estrela do pop e o ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush.»

[Post 2931]

Pontuação e adjuntos adverbiais

Esperança vã

      «Há, isso sim, cargos especialmente difíceis e é verdade que poucos estarão à altura do seu exercício. Além disso, sabemos que, na Procuradoria, mesmo quem disponha das condições técnicas e intelectuais necessárias pode ver-se impedido de o exercer com sucesso, devido a pressões internas ou externas» («A maldição da Procuradoria», Pedro Lomba, Público, 24.12.2009, p. 32).
      Os adjuntos adverbiais e equivalentes só têm vírgula obrigatória se precederem o termo a que se referem: «Por causa do mau tempo, resolvi não sair de casa.»/« Resolvi não sair de casa por causa do mau tempo.» Claro que não devemos esperar que um simples cronista, que conhecerá a língua por «intuição», pontue correctamente, se nem os revisores sabem o que está em causa. Bom Natal.

[Post 2930]

Advérbio interrogativo

Porquê?     


      «Foi o gosto de mostrar as suas peças que a fez criar um blogue em 2001. Nessa altura, não tinha a intenção de começar a fazer este tipo de trabalho profissionalmente. “Mostrava as coisas naturalmente na Internet. As pessoas que viam o meu blogue é que começaram a dizer: ‘Ah, tão giro! Porque é que não vendes?’”» («Bonecos que começaram por ser desenhos de um blogue», Sara Picareta, Público, 23.12.2009, p. 20). «O que fica para reflexão é saber como interpretar o bailado mais ou menos caótico protagonizado pelos grandes actores mundiais, que está na base deste relativo fracasso político. Prevaleceu o G20 ou o G2? Por que é que a União Europeia pesou tão pouco?» («Depois de Copenhaga», editorial, Público, 23.12.2009, p. 30). Só acertam quando julgam errar.

[Post 2929]

Discurso dos futebolistas

Autenticidade controlada    


      Na cerimónia de entrega do Prémio Puskas, atribuído pela FIFA, Cristiano Ronaldo declarou: «Na verdade, eu não estava à espera de ganhar nada hoje, para ser sincero. Mas, para mim, é um orgulho receber este prémio. A meu ver, foi um grande golo, e no qual adorei ter marcado, como já referi muitas vezes. E, bom, estou muito feliz.» Sem o filtro da imprensa, o discurso de Cristiano Ronaldo é assim e não de uma limpidez e ultracorrecção invulgares, como vimos numa entrevista que deu ao jornal Público e que aqui referi (desmascarei). Há-de haver, e só é pena que os jornalistas ainda o não tenham encontrado, um meio-termo entre a forma atabalhoada, agramatical, como a maioria dos futebolistas se exprime e o discurso fluido, perfeito, concatenado que, por vezes, os jornais atribuem aos ídolos contemporâneos.


[Post 2928]

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