Incoerências onomásticas

Falta de memória?

      «Luís Inácio Lula da Silva também terá arrancado sorrisos à audiência ao anunciar estar disposto a apoiar financeiramente os países mais pobres» («Líderes garantem saber o que tem de ser feito para chegar a um acordo global... mas pelos outros», Helena Geraldes, Público, 19.12.2009, p. 4). Todos sabemos, porém, que o nome é Luiz. A verdade é que todos os jornais, uns mais, outros menos, são pródigos em incoerências. No Público, ora escrevem Raul Castro, ora Raúl Castro. «Durante mais de três décadas, Juanita Castro geria discretamente uma farmácia em Miami, e poucos já tinham ouvido falar dela. Mas a sua história tinha tudo para dar nas vistas. E deu, agora que foi publicada numa autobiografia: a irmã de Fidel e Raúl Castro foi agente da CIA em Havana de 1961 a 1964, anos de alta tensão entre Cuba e os Estados Unidos» («Irmã de Fidel Castro colaborou com a CIA», Francisca Gorjão Henriques, Público, 27.10.2009, p. 6). «O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o líder cubano Raul Castro estarão ausentes, e há chefes de Estado que faltarão à cimeira por estarem a decorrer processos eleitorais nos seus países. São os caso do boliviano Evo Morales, e do Presidente uruguaio Tabaré Vasquez, cujo sucessor é escolhido hoje» («Chefes de Estado são hoje recebidos na Torre de Belém», Isabel Gorjão Santos, Público, 29.11.2009, p. 5).
[Texto 2919]

Tradução: «tutor dative»

Demasiado fácil

      No episódio de hoje, o 424 (desculpem não ter falado dos outros 423) de A Juíza, no canal Sony, Amy, que é juíza no Tribunal de Família de Hartford, Connecticut, ameaça um casal que se está a divorciar de atribuir um tutor dative à filha de ambos. O tradutor entendeu que deveria verter por tutor dativo. Fácil. Mas estará correcto? Nunca vi que o nosso Direito da Família tivesse esta figura do «tutor dativo». A expressão sim, está correcta. Está registada em alguns dicionários modernos, como o estava, por exemplo, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva: «Dativo, adj. Dado pelo magistrado: v. g. tutela dativa, oposta à legítima, que é instituída pela lei, ou a testamentária, por testamento. Orden. 3. 43. 5. tutor dativo.» Exactamente, nas Ordenações Filipinas, por exemplo, vamos encontrar o tutor dativo, também chamado tutor atiliano, pois provinha já do Direito romano e, concretamente, da Lei Atília (186 a. C.). Solução: eu traduziria apenas por tutor.
[Texto 2918]

Ortografia: «Transara»

Muita areia

      Todas as (poucas) vezes que vi referências à Trans-Sahara Contraterrorism Initiative (TSCTI), a tentativa de aportuguesamento era sempre incorrecta: Iniciativa Contraterrorista para o Trans-Sara. Ó inteligências supremas, como é que é *Trans-Sara se se escreve, por exemplo, «transiberiano», não me explicam? Se trans-+siberiano dá «transiberiano», trans-+Sara só pode dar Transara.
[Texto 2917]

Ortografia: «Crixna»

Tudo português

      Já estávamos habituados a ver Vixnu e Xiva, mas não Crixna. Abaixo Vishnu, Shiva e Krishna! «Os irmãos Pandava escaparam ao ataque, porque Crixna os aconselhara a dormirem fora do acampamento nessa noite, mas a maior parte da sua família — incluindo as crianças — foi chacinada» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 309).
[Texto 2916]

Ortografia: «preexistente»

Falha ortográfica

      «Falhas tectónicas activas não faltam naquela zona — como a Ferradura, a sul do epicentro do sismo, ou a do Marquês de Pombal, a noroeste. Mas é prematuro associar uma destas falhas ao sismo, que teve uma certa profundidade. “Pode haver uma falha pré-existente em profundidade e não haver vestígios à superfície. Esta zona é de grande complexidade tectónica”, diz Fernando Carrilho» («E se o sismo de ontem tivesse sido em terra?», Teresa Firmino, Público, 18.12.2009, p. 6). Preexistente já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir.

[Texto 2915]

Tradução: «judgment»

In my judgement     

      «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que penso existir em inglês mas não em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso» («Governar e influenciar», Pedro Lomba, Público, 17.12.2009, p. 40). Ou judgement. Sim, significa discernimento; espírito crítico; bom senso. Mas a frase está mal redigida. O cronista deveria ter escrito: «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que existe em inglês mas não, ao que julgo, em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso.» Tal como escreveu, o significado é outro. E mais: por mais intraduzível que lhe pareça, nunca fica por traduzir em nenhuma tradução. Pode ser, consoante o contexto, traduzido por juízo, diagnóstico, julgamento, sentença, critério, parecer, opinião, e um largo etc., incluindo essa «forma distintiva de juízo e bom-senso».
      *Bom-senso, com hífen, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista.
[Texto 2914]

Pronúncia: «exógeno»

Uma consulta gratuita

      «As diferenças [Sócrates maioritário vs. Sócrates minoritário] podem acontecer por duas vias: pela via endógena e pela via exógena» (Carlos Amaral Dias, Alma Nostra, Antena 1, 8.12.2009). São ambos, exógeno e endógeno, vocábulos do léxico do psicanalista Carlos Amaral Dias, o que não é de estranhar. O que já é de estranhar, parece ser particularidade do seu idiolecto, é a forma como pronuncia o vocábulo «exógeno»: realiza o x como um dífono, /cs/, coisa que aquele grafema não vale aqui. Uma vez que o programa é apresentado como «uma conversa solta que faz um voo rasante sobre o Mundo com um olhar português e explora as subtilezas da nossa língua», não se importarão que eu, ouvinte, as explore, às subtilezas.
[Texto 2913]

Léxico: «deve-haver»

Deve haver um erro

      «No balanço do “deve e haver” climático ditado pelo Protocolo de Quioto, Portugal deverá terminar 2009 com um excesso de 4,12 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) em relação às metas estabelecidas para o período de cumprimento de 2008-2012. Esta derrapagem representa um desvio de 5,4 por cento, cujos responsáveis principais são a indústria da energia e os transportes» («Portugal ultrapassou metas de Quioto em 5,4 por cento», Helena Geraldes, Público, 15.12.2009, p. 3).
      Tenho lido e ouvido vezes sem conta desta forma, *deve e haver. Bem, mas os dicionários registam deve-haver há muito tempo. É a minha prenda de Natal para a jornalista Helena Geraldes.

[Texto 2912]

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