Ortografia: «preexistente»

Falha ortográfica

      «Falhas tectónicas activas não faltam naquela zona — como a Ferradura, a sul do epicentro do sismo, ou a do Marquês de Pombal, a noroeste. Mas é prematuro associar uma destas falhas ao sismo, que teve uma certa profundidade. “Pode haver uma falha pré-existente em profundidade e não haver vestígios à superfície. Esta zona é de grande complexidade tectónica”, diz Fernando Carrilho» («E se o sismo de ontem tivesse sido em terra?», Teresa Firmino, Público, 18.12.2009, p. 6). Preexistente já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir.

[Post 2915]

Tradução: «judgment»

In my judgement     


      «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que penso existir em inglês mas não em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso» («Governar e influenciar», Pedro Lomba, Público, 17.12.2009, p. 40). Ou judgement. Sim, significa discernimento; espírito crítico; bom senso. Mas a frase está mal redigida. O cronista deveria ter escrito: «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que existe em inglês mas não, ao que julgo, em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso.» Tal como escreveu, o significado é outro. E mais: por mais intraduzível que lhe pareça, nunca fica por traduzir em nenhuma tradução. Pode ser, consoante o contexto, traduzido por juízo, diagnóstico, julgamento, sentença, critério, parecer, opinião, e um largo etc., incluindo essa «forma distintiva de juízo e bom-senso».
      *Bom-senso, com hífen, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista.

[Post 2914]

Pronúncia: «exógeno»

Uma consulta gratuita

      «As diferenças [Sócrates maioritário vs. Sócrates minoritário] podem acontecer por duas vias: pela via endógena e pela via exógena» (Carlos Amaral Dias, Alma Nostra, Antena 1, 8.12.2009). São ambos, exógeno e endógeno, vocábulos do léxico do psicanalista Carlos Amaral Dias, o que não é de estranhar. O que já é de estranhar, parece ser particularidade do seu idiolecto, é a forma como pronuncia o vocábulo «exógeno»: realiza o x como um dífono, /cs/, coisa que aquele grafema não vale aqui. Uma vez que o programa é apresentado como «uma conversa solta que faz um voo rasante sobre o Mundo com um olhar português e explora as subtilezas da nossa língua», não se importarão que eu, ouvinte, as explore, às subtilezas.

[Post 2913]

Léxico: «deve-haver»

Deve haver um erro

      «No balanço do “deve e haver” climático ditado pelo Protocolo de Quioto, Portugal deverá terminar 2009 com um excesso de 4,12 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) em relação às metas estabelecidas para o período de cumprimento de 2008-2012. Esta derrapagem representa um desvio de 5,4 por cento, cujos responsáveis principais são a indústria da energia e os transportes» («Portugal ultrapassou metas de Quioto em 5,4 por cento», Helena Geraldes, Público, 15.12.2009, p. 3). Tenho lido e ouvido vezes sem conta desta forma, *deve e haver. Bem, mas os dicionários registam deve-haver há muito tempo. É a minha prenda de Natal para a jornalista Helena Geraldes.

[Post 2912]

Pluralização dos antropónimos

Cinco estrelas

      Há dias, um leitor, também ele revisor e tradutor, escreveu-me a lamentar-se por ver que se está a abandonar a pluralização de antropónimos estrangeiros. Confessou que um dos últimos casos lhe estragou o almoço. Bem, não só antropónimos estrangeiros, também com portugueses se deve observar a mesma regra. Mas há bons exemplos. Na última Pública, foi publicada uma entrevista a José Avillez, chefe do Tavares a quem foi atribuída uma estrela Michelin. À pergunta sobre se o apelido Avillez era do pai ou da mãe, respondeu: «Da mãe. Eu sou Ereira. Tenho 20 primos direitos Avillezes. No râguebi, nos escuteiros, nem me tratavam por Zé. Era o Avillez. Fiquei o Avillez. Agora, o meu filho vai nascer e vou ressuscitar um José Ereira. Do lado do meu pai morreu toda a gente. Os tios, os avós; só tenho dois primos. O meu filho vai ser Zezinho Ereira» («No dia seguinte, a minha ideia era: “Vamos trabalhar para a segunda estrela Michelin”», Anabela Mota Ribeiro, 13.12.2009, p. 33). Vejam se ele disse *os Avillez. É o disse.

[Post 2911]

Ortografia: «patoá»

Desleixo

      «É por isso que o seu grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau — algo como “Doce língua (ou conversa) de Macau” — é uma espécie de reservatório de uma herança. Dos cerca de dez mil macaenses, apenas um milhar fala patuá, “mas não o tradicional”, ressalva [Miguel Senna Fernandes]» («Esta terra é nossa», Francisca Gorjão Henriques, Pública, 13.12.2009, p. 26). É uma precaução mínima que vou aconselhando: quando usamos palavras que não são de todos os dias (e mesmo estas, depende), convém consultar um dicionário. Patuá existe, sim senhor, mas é uma palavra que vem do tupi e com que se designa o cesto onde os índios, no Brasil, guardam as redes. É isto que queria dizer, Francisca Gorjão Henriques? É que o escreveu cinco vezes. Claro que não: é patoá, um parónimo. Patoá é o nome que se dá ao dialecto de qualquer idioma, e especificamente ao crioulo de Macau. É o aportuguesamento da palavra francesa patois. Segundo Rafael Ávila de Azevedo (A Influência da Cultura Portuguesa em Macau. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Colecção «Biblioteca Breve», 1984, p. 39), a mais antiga referência que existe sobre o patoá de Macau deve-se a um autor chinês, Tcheng Ulam, no século XVIII.

[Post 2910]

Actualização em 18.04.2010

      Erro que, espantosamente, também aparece em livros: «Mas eu insisti e então voltaram os batimentos ritmados e metálicos e, sobre eles, um canto de barítono em patuá das Caraíbas, com uma letra de canção infantil ou uma lengalenga para saltar à corda num recreio» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 47).

Ortografia: «pinha-mansa»

GNR, obrigado

      «A GNR apreendeu, domingo, em Marinhais, Salvaterra de Magos, cinco mil quilos de pinhas-mansas que se destinavam a comercialização, disse ontem fonte da GNR. Aquela força policial refere que os militares do posto de Marinhais identificaram um homem por armazenamento de pinhas-mansas fora do período permitido por lei. A colheita, transporte e armazenamento de pinhas da espécie Pinus pinea (pinheiro-manso) é interdita entre 1 de Abril e 15 de Dezembro» («Cinco mil quilos de pinhas-mansas apreendidas», Público, 15.12.2009, p. 26). Embora ainda de forma inconsistente, a grafia dos nomes das espécies botânicas e zoológicas na imprensa vai sendo esta, o que só tem fundamento no uso.

[Post 2909]

Léxico: «visgo»

Obrigado, GNR

      «A GNR de Vila Franca de Xira deteve, no domingo, dois indivíduos, de 16 e 46 anos, que se dedicavam à captura de aves de espécies cuja caça é proibida, com o auxílio de cola colocada num ramo (feita à base de visgo) e de um chamariz montado com outro pássaro preso dentro de uma gaiola. Esta actividade é proibida por lei e pode ser punida com pena de prisão até seis meses ou multa até 100 dias. Em poder dos detidos estavam 33 aves, mais de metade das quais pintassilgos» («GNR detém dupla que capturava aves com recurso a cola», J. T., Público, 15.12.2009, p. 26). No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete «visgo» remete para «visco», supomos (não há nenhuma indicação) que por visgo ter surgido na língua por via popular, a partir do vocábulo latino viscum, i. Os Romanos tinham o adágio Viscum fugiens avis in laqueos incidit, isto é, O pássaro, ao fugir do visgo, caiu no laço.

[Post 2908]

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