North-West Frontier Province

Se fosse em urdu

      «Entretanto, também no Paquistão, nos distritos da North-West Frontier Province (perto do Afeganistão) a violência dos talibãs e a imposição da charia obrigam à fuga as minorias não muçulmanas, entre as quais os cristãos.» Isso queria o jornalista, mas eu não deixei. Traduza-se: Província da Fronteira Noroeste.
[Texto 2903]

«Multirreligioso» ou «multi-religioso»?

Estávamos em 1998

      «No aniversário destas violências, a Igreja na Índia promoveu tempos de oração, vigílias e encontros culturais para defender a liberdade dos cristãos e para incitar a Índia a voltar a ser o país multi-religioso e multicultural que foi no passado.»
      O prefixo multi- não foi previsto no Acordo Ortográfico de 1945, logo, só por analogia poderemos dizer como se deve grafar. José Neves Henriques analisou bem a questão quando escreveu, em 1998, que «dos terminados em i, essa reforma menciona [na Base XXIX] anti, arqui, semi, seguidos de hífen, quando o elemento seguinte tem vida à parte e começa por h, i, r ou s, como por exemplo anti-infeccioso, arqui-irmandade, semi-interno. Por analogia com estes, embora não saibamos o que nos dirá uma futura reforma, podemos concluir que os prefixos maxi, bi, midi, mini, multi, poli [e pluri, por exemplo] são seguidos de hífen, quando o elemento seguinte tem vida à parte e começa por h, i, r ou s.» Logo, deveria escrever-se, não se esqueçam, multi-racial, multi-religioso, multi-riscos, multi-sectorial, etc. Infelizmente, em 1999, Neves Henriques já escrevia: «Para soar como o r de rua e de carro, temos de escrever multirracial e multirracionalidade.» O que nem sequer é verdade. O consultor aqui deixou-se enredar na pergunta, que era se se devia escrever «multiracial».
      No Acordo Ortográfico de 1990, contudo, este prefixo é expressamente referido (Base XVI, «Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»), e o vocábulo continuará a escrever-se da forma como agora os dicionários a registam, dobrando a consoante. Até se inventou uma regra a partir do uso: com hífen «quando o segundo elemento possui vida própria e começa por h ou i: mega-híbrido, multi-idiomático» (sim, eu também não percebo o que está ali a fazer aquele «mega-híbrido»). Assim, nunca se erra: fazemos como nos parece e depois inventamos uma regra.
[Texto 2902]

Tradução: «pregnant»

Quem é o pai?

      «In a pregnant phrase...», lia-se no original. O tradutor não se deteve em grandes raciocínios e verteu assim: «Numa frase grávida de sentido...» O problema é quase sempre o mesmo: o tradutor julga saber perfeitamente o que a palavra da língua de partida significa, ignorando outras possíveis acepções. Quem sabe se não traduziria também (e não era mais grave) por «grávida» se a frase se referisse a uma vaca... Em sentido figurado, pregnant é «fértil», «fecundo», «sugestivo», «significativo», como se pode ver no Dicionário de Inglês-Português, da Porto Editora, que também regista a locução, usada em Linguística, pregnant construction, «frase densa de significado, frase com mais sentido que aquele que as palavras parecem significar», recomendando a tradução «pleno de sentido», e a locução pregnant events, «acontecimentos de grande alcance».
[Texto 2901]

Falsos cognatos

Mal precatados

      «Confesso que o meu pobre latim tropeçava até mesmo na tradução de “auri sacra fames”, pois me inclinava por traduzir “sacra” como “sagrada”, até descobrir, com a ajuda do dicionário latino, que Virgílio usou a palavra com o sentido de abominável, execrável, infame. Convertida a “sagrada fome de ouro” em “execrável fome de ouro”, munia-se o articulista de uma epígrafe honrosa para fustigar a corrupção pretérita e presente» («A eterna corrupção», Sérgio da Costa Franco, Zero Hora, 13.12.2009). Mesmo que seja somente para brincar, o que Sérgio da Costa Franco, historiador, advogado, promotor público, jornalista, professor brasileiro, afirma leva-nos aos falsos cognatos ou falsos amigos, contra os quais nem todos os tradutores se precatam. O verso em causa pertence à Eneida, de Virgílio. Na epígrafe, o autor cita dois versos deste poema épico e a respectiva tradução:

«... Quid non mortalia pectora cogis
Auri sacra fames!
A que não obrigas os corações humanos,
Ó execranda fome de ouro!»
(Virgílio, Eneida. Livro III)

[Texto 2900]

Sobre «entorno»

Extravagâncias

      Pedro Sinde assina hoje no blogue Cadernos de Filosofia Extravagante um texto sobre ortografia. Um excerto: «Nem de propósito e a propósito do artigo mais recente de António Carlos Carvalho, ia eu hoje a passar numa livraria na baixa do Porto quando vejo um livro intitulado: “Casas em entornos naturais”. Voltei a olhar, pensando que lera mal o “em” por “en”, um erro de simpatia com a língua portuguesa perfeitamente justificável. Não. Era mesmo português porque estava escrito depois “naturais” e não “naturales”, como deveria ser se fosse castelhano.
      Na dúvida, perplexo, cheguei a casa e procurei nos meus dicionários: No Lello, o meu amado Lello, não existe nada a não ser derivados de “entornar”; no Dicionário da Academia (ouço já os apupos… não, eu não gastei um tostão com este “dicionário” — é assim que se auto-intitula esta coisa — foi uma generosa oferta): nada, a não ser o mesmo “entornar”. Em desespero, consulto um dicionário prestigiado de português do Brasil, o “Novo Dicionário Aurélio”: aí está! Num dicionário de português do Brasil existe a palavra “entorno”. Afinal não é castelhano, é “português”! Talvez seja apenas uma coincidência e se trate de um “castelhanismo” que existe no português do Brasil, mas não no de Portugal. O que é perfeitamente aceitável, naturalmente.»
      Se procurarmos nos corpora, «entorno», nesta acepção, tem uma presença pouquíssimo expressiva. Também o Dicionário Houaiss o regista, dando-o como «regressivo de entornar, por influência do espanhol entorno ‘território ou conjunto de acidentes ou paragens que rodeiam um lugar’». No caso, julgo estarmos perante uma extensão de sentido: todo o espaço, a área, que rodeia uma edificação. Os castelhanismos passaram, em diversas épocas, para o português — e poucas vezes temos perdido alguma coisa com o facto. Este é apenas um dos mais recentes, mas o que interessa é saber se nos faz falta. A minha opinião é que sim, e os Brasileiros apenas se nos anteciparam neste entendimento, como sempre. Pedro Sinde não diz isto, mas afirma que é «perfeitamente aceitável». No parágrafo que se segue é que nos desentendemos logo, pois faz uma afirmação que só posso qualificar como um disparate (e que apenas tem a atenuante de ser repetida por outros): «Esta palavra [«entorno»] não foi definida pelo acordo, mas muitas outras foram e, isso sim, é de todo inaceitável.» Mas que palavras é que foram «definidas» pelo Acordo Ortográfico de 1990? E o que é que é inaceitável: esta não ter sido ou o acordo ter «definido» outras? Desde quando um acordo ortográfico serve para esse fim?

[Post 2899]

Regência do verbo «cumprir»

Maus exemplos

      A propósito do acidente de ontem em Santa Maria da Feira, dizia o jornalista da Antena 1 Nuno Rodrigues no noticiário das 11: «Paulo Sérgio Pais, responsável pela produção do espectáculo [Terra dos Sonhos] enquanto administrador da empresa municipal Feira Viva, dizia ontem não compreender os motivos do acidente, até porque o local cumpria com todos os requisitos de segurança.» Nos meios de comunicação, o verbo cumprir vai sendo usado apenas regido de preposição. A autora do blogue Em Bom Português escreve que este verbo não rege preposição, mas essa é uma afirmação incorrecta. Em nota ao verbete deste verbo, Francisco Fernandes cita Laudelino Freire e a sua obra Verbos Portugueses: «Tanto é correto dizer-se cumprir com quanto dizer-se cumprir o: Cumpri com o dever, ou cumpri o dever» (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 176). A distinção que muitos autores fazem é a de o verbo se usar sem preposição quando se trata de algo que é imposto, como se vê aqui: «Quando se trata, porém, de algo que é imposto, então se usa o verbo cumprir sem a preposição. Aí o sentido é de “sujeitar-se a”, “submeter-se a”. Então dizemos “cumprir os prazos”, “cumprir uma pena”, “cumprir mera formalidade”, “o time joga apenas para cumprir a tabela”.»

[Post 2898]

«Pandam»


Tcharam!


      «É mesmo “pandam” em português?», pergunta-me um leitor, que tece seguidamentre algumas considerações. «A palavra “parelha” (do francês pendant) não encaixa muito bem, por exemplo, neste anúncio que tem surgido na imprensa. Também não gostava de ver: “Faz pendant!”A alternativa “Alinha cores connosco!” não era má... mas estes publicitários gostam de palavras sonantes...» Ainda não está dicionarizado assim, pandam, mas nada impede que venha a estar. Por outro lado, a verdade é que não precisamos da expressão francesa, adaptada ou não, faire pendant, consideração que, todavia, não impedirá que os falantes a usem. No caso, embora a palavra remeta claramente (pela semelhança da cor do cabelo do rapaz e da garrafa) para esse conceito de conjunto, a minha interpretação é a de que se pretendeu criar, ao mesmo tempo, uma onomatopeia.


[Post 2897]

Dissimilação

Escrever como se fala

      «Por outras palavras, não se deixe obcecar por bactérias nem vírus, nem, por favor, se encante com aqueles anúncios a produtos de limpeza doméstica que agora se multiplicam e, invariavelmente, usam a mais vergonhosa das armas para vender: ameaçam-na com a saúde do seu filho, como se a vida dele estivesse dependente de um pano encharcado de uma lexívia qualquer. Ou no teste do algodão. Prefira antes, e mil vezes, aqueles que garantem lavar a roupa que ele suja enquanto brinca lá fora!» («Pela sua saúde deixe-o sujar-se», Isabel Stilwell, Destak, 11.12.2009, p. 4). Devido à dissimilação (como em «ministro» e «vizinho», por exemplo), o i pré-tónico transforma-se em e, mas continua a escrever-se com i: lixívia. Quanto ao preferir antes, já vimos aqui.
[Post 2896]

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