Tradução: «dean of science»

Decanato

      No campo da terminologia académica, muito fica por traduzir, pois alguns tradutores têm a convicção de que «não é exactamente o mesmo» se se usarem palavras na nossa língua. Agora, por exemplo, estou aqui a ler que um indivíduo era «dean of science na Universidade de Columbia». Pergunto-me, e pergunto aos académicos que frequentam estas paragens, se «deão de ciência» não diz o mesmo — mas melhor, pois é português. Se me objectarem que o leitor não sabe o que é «deão», contraponho que o leitor ainda sabe menos o que seja dean.
      Decano tem como étimo o vocábulo do latim tardio decanus, chefe de um grupo de dez. Tinha, originalmente, um sentido ligado ao de chefia, comando, direcção, presidência. Com o tempo, assumiu em várias línguas o sentido de «o mais velho (ou o mais antigo em termos de anos de serviço) dos membros de uma corporação ou classe», sem, contudo, ter perdido a denotação de chefe ou dirigente, como no uso que continua a fazer-se dos vocábulos «decano» e «deão» (este com três plurais: deãos, deães, deões), em certas universidades e órgãos eclesiásticos. Ao contrário do que se possa pensar, deão não se formou na língua: veio do francês antigo deien, e teve primeiramente a forma daião.


[Post 2891]

Tradução: «praticed»

Exercícios

      No original podia ler-se que «But as Michel Foucault noted, “Discipline produces subjected and praticed bodies, ‘docile’ bodies”», e o tradutor entendeu verter subjected and practiced por submetidos e rotinados. «Submetidos» vá que não vá, mas rotinados só no pior jornalismo desportivo encontro. Submissos e exercitados, deveria ter escrito. A frase pertence à obra Surveiller et punir, que Foucault (1926–1984) publicou em 1975.

[Post 2890]


Conjunção «porém»

Cartas ao director

      Entre as cartas ao director, rubrica fixa de todos os jornais, há-as edificantes e desedificantes e as que não adiantam nem atrasam, mas que os jornais, quem sabe se por incapacidade, decidem publicar. Cá está uma desta última espécie, assinada por Américo Ponces, de Coimbra: «Conta-se que o poeta Gomes Leal respondia ao reproche dos que o criticavam, por nem sempre respeitar a gramática, com a seguinte interrogação: ”Quem é que manda no que é meu, / É a gramática, ou sou eu…? Correndo o risco de ouvir qualquer coisa semelhante, atrevo-me ainda assim a comentar contigo, leitor amigo, uma frase que li há tempo, num livro muito badalado e que me soou mal. Ei-la: “Tudo acaba, porém, tudo tem o seu termo…” A minha dúvida é a seguinte: o que faz uma conjunção adversativa, “porém”, ali entalada entre duas vírgulas, no meio de duas afirmações que vão no mesmo sentido? Só encontro uma explicação. O autor narrador quis ter a certeza de que o estávamos a ler com atenção e não apenas por ler. Já agora, amigo leitor, para não perderes o teu tempo, sempre te digo, que o reproche existe mesmo, no nosso dicionário. Há-de ter sobrado das invasões francesas. Encontrei-o já, pelo menos, duas vezes. No Esaú e Jacó de Machado de Assis e em A Caverna de José Saramago» («Gomes Leal e a gramática», Público, 9.12.2009, p. 34).
      Qual é o problema da frase? Reescrevo-a, trocando a conjunção, e continuará a ter o mesmíssimo sentido, para ver se o leitor ainda afirma que está incorrecta: «Todavia, tudo acaba, tudo tem o seu termo…» Entretanto, chegarão às redacções cartas que poderiam contribuir para o esclarecimento de determinadas questões e os jornais recusam-se a publicá-las. Esta, com disparates e erros de pontuação, impingem-no-la com toda a desfaçatez.
[Post 2889]

Ortografia: «Tindufe»

Portugueses somos

      «Os conflitos armados no continente africano matam anualmente milhares de pessoas, tanto combatentes como civis; e obrigam milhões a procurar refúgio longe das suas terras. Os deslocados englobam tanto os sarauís acampados há décadas na região argelina de Tindouf como os naturais da República Centro-Africana, da República Democrática do Congo, da Somália e do Sudão.» Isto escreveu o jornalista, mas eu emendei para Tindufe. Correio do Minho, Visão e nos documentos em língua portuguesa do Parlamento Europeu escreve-se assim. Não somos uma colónia da França para escrever *Tindouf.

[Post 2888]

Fazer sentido/«to make sense»

Coincidências

      O leitor M. L. pergunta se a expressão «fazer sentido» deve alguma coisa à inglesa to make sense ou se é mero acaso, como sucede com tantas outras. É isso mesmo, mera coincidência. E sim, conheço essa teoria de que, em espanhol, hacer sentido é anglicismo, e que correcto é tener sentido. E, logo, em português seria o mesmo. No lo creo, ya lo he dicho.

[Post 2887]

Pragmatismo/pragmaticismo

Filosoficamente

      O leitor Afonso Dantas pergunta-me porque é que todos os dicionários no verbete «pragmaticismo» remetem para o vocábulo «pragmatismo». Todos não; alguns. «Trata-se do mesmo conceito?», pergunta. De modo simplista, o pragmaticismo é a redenominação do pragmatismo de C. S. Peirce (1839–1914). Explicando melhor: no final do século XIX, o filósofo William James (1842–1910) usou o termo pragmatismo numa conferência, tendo então atribuído a sua autoria a Peirce. Mais tarde, no início do século XX, este filófoso rejeitou o termo e passou a usar o vocábulo pragmaticismo para diferenciar a sua teoria da de William James. No ensaio (What Pragmatism Is, de 1905) em que se decide pelo termo «pragmaticismo», Peirce fala da ética da terminologia, discorrendo sobre as vantagens de uma terminologia precisa.
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de facto, o verbete «pragmaticismo» remete o leitor para o verbete «pragmatismo». E apresenta-se, como é tão habitual neste dicionário, a seguinte etimologia do vocábulo: «de pragmático+-ismo». Contudo, o vocábulo não nasceu na nossa língua, vem do inglês pragmaticism, pelo que esta é uma explicação incorrecta.

[Post 2886]

Regências e expressões

Com olhos de ver

      «O problema é outro. É que durante todo este tempo Passos Coelho tratou sempre a actual liderança do PSD abaixo do analfabetismo. Valeu de tudo: acusações de ignorância, falta, de ideias, inépcia» («A questão do carácter», Pedro Lomba, Público, 8.12.2009, p. 40). «Abaixo do analfabetismo»? E isso significa alguma coisa? «Abaixo de analfabeto» deveria o cronista ter escrito. Mais: «Agora, nesta entrevista, Passos Coelho já não tem cerimónias». A expressão, porém, é «fazer cerimónia». E esta: «Pelos vistos, Ferreira Leite até tinha razão sobre o TGV. E é irónico e desleal que Passos Coelho a tivesse combatido aí com força, para agora a vir plagiar.» «É irónico e desleal»? A frase não saiu lá muito bem. E a última: «Passos Coelho prefere antes “construir ideias”.» Errado: preferir antes é redundante e resulta do cruzamento com uma expressão sinónima, antes querer. Se eu fosse bruto, diria que a crónica é uma lástima.

[Post 2885]

Chatices e parvoíces

Como uma nódoa

      A propósito da ortografia do vocábulo saloiice, com que um crítico da revista Ípsilon/Público não atinou (espero que não se interrogue, à semelhança de outro crítico, se «estará a acção de uma pessoa que escreve recensões […] sujeita a réplicas e tréplicas»), um anónimo perguntou-me se «então, não devia ser “chatoíce”». Mas talvez pergunte mal. O que fiz nesse texto («Saloi(o)+ice») foi mostrar, em duas linhas, que não se pode tomar a formação de um («saloiice») nem de outro («parvoíce») como única ou paradigmática. Afinal, porque é que é parvoíce e não parvice, é essa a pergunta? Também está errada: por exemplo o VOLP regista «parvice». Contudo, a tradição da língua na formação de derivados de «parvo» foi pela manutenção da forma /parvo/. Compare-se: parvoalho, parvoeira, parvoidade, parvoejar, parvoíce. O parvo fica lá sempre, indelével como uma nódoa.

[Post 2884]

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