Conjunção «porém»

Cartas ao director

      Entre as cartas ao director, rubrica fixa de todos os jornais, há-as edificantes e desedificantes e as que não adiantam nem atrasam, mas que os jornais, quem sabe se por incapacidade, decidem publicar. Cá está uma desta última espécie, assinada por Américo Ponces, de Coimbra: «Conta-se que o poeta Gomes Leal respondia ao reproche dos que o criticavam, por nem sempre respeitar a gramática, com a seguinte interrogação: ”Quem é que manda no que é meu, / É a gramática, ou sou eu…? Correndo o risco de ouvir qualquer coisa semelhante, atrevo-me ainda assim a comentar contigo, leitor amigo, uma frase que li há tempo, num livro muito badalado e que me soou mal. Ei-la: “Tudo acaba, porém, tudo tem o seu termo…” A minha dúvida é a seguinte: o que faz uma conjunção adversativa, “porém”, ali entalada entre duas vírgulas, no meio de duas afirmações que vão no mesmo sentido? Só encontro uma explicação. O autor narrador quis ter a certeza de que o estávamos a ler com atenção e não apenas por ler. Já agora, amigo leitor, para não perderes o teu tempo, sempre te digo, que o reproche existe mesmo, no nosso dicionário. Há-de ter sobrado das invasões francesas. Encontrei-o já, pelo menos, duas vezes. No Esaú e Jacó de Machado de Assis e em A Caverna de José Saramago» («Gomes Leal e a gramática», Público, 9.12.2009, p. 34).
      Qual é o problema da frase? Reescrevo-a, trocando a conjunção, e continuará a ter o mesmíssimo sentido, para ver se o leitor ainda afirma que está incorrecta: «Todavia, tudo acaba, tudo tem o seu termo…» Entretanto, chegarão às redacções cartas que poderiam contribuir para o esclarecimento de determinadas questões e os jornais recusam-se a publicá-las. Esta, com disparates e erros de pontuação, impingem-no-la com toda a desfaçatez.
[Post 2889]

Ortografia: «Tindufe»

Portugueses somos

      «Os conflitos armados no continente africano matam anualmente milhares de pessoas, tanto combatentes como civis; e obrigam milhões a procurar refúgio longe das suas terras. Os deslocados englobam tanto os sarauís acampados há décadas na região argelina de Tindouf como os naturais da República Centro-Africana, da República Democrática do Congo, da Somália e do Sudão.» Isto escreveu o jornalista, mas eu emendei para Tindufe. Correio do Minho, Visão e nos documentos em língua portuguesa do Parlamento Europeu escreve-se assim. Não somos uma colónia da França para escrever *Tindouf.

[Post 2888]

Fazer sentido/«to make sense»

Coincidências

      O leitor M. L. pergunta se a expressão «fazer sentido» deve alguma coisa à inglesa to make sense ou se é mero acaso, como sucede com tantas outras. É isso mesmo, mera coincidência. E sim, conheço essa teoria de que, em espanhol, hacer sentido é anglicismo, e que correcto é tener sentido. E, logo, em português seria o mesmo. No lo creo, ya lo he dicho.

[Post 2887]

Pragmatismo/pragmaticismo

Filosoficamente

      O leitor Afonso Dantas pergunta-me porque é que todos os dicionários no verbete «pragmaticismo» remetem para o vocábulo «pragmatismo». Todos não; alguns. «Trata-se do mesmo conceito?», pergunta. De modo simplista, o pragmaticismo é a redenominação do pragmatismo de C. S. Peirce (1839–1914). Explicando melhor: no final do século XIX, o filósofo William James (1842–1910) usou o termo pragmatismo numa conferência, tendo então atribuído a sua autoria a Peirce. Mais tarde, no início do século XX, este filófoso rejeitou o termo e passou a usar o vocábulo pragmaticismo para diferenciar a sua teoria da de William James. No ensaio (What Pragmatism Is, de 1905) em que se decide pelo termo «pragmaticismo», Peirce fala da ética da terminologia, discorrendo sobre as vantagens de uma terminologia precisa.
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de facto, o verbete «pragmaticismo» remete o leitor para o verbete «pragmatismo». E apresenta-se, como é tão habitual neste dicionário, a seguinte etimologia do vocábulo: «de pragmático+-ismo». Contudo, o vocábulo não nasceu na nossa língua, vem do inglês pragmaticism, pelo que esta é uma explicação incorrecta.

[Post 2886]

Regências e expressões

Com olhos de ver

      «O problema é outro. É que durante todo este tempo Passos Coelho tratou sempre a actual liderança do PSD abaixo do analfabetismo. Valeu de tudo: acusações de ignorância, falta, de ideias, inépcia» («A questão do carácter», Pedro Lomba, Público, 8.12.2009, p. 40). «Abaixo do analfabetismo»? E isso significa alguma coisa? «Abaixo de analfabeto» deveria o cronista ter escrito. Mais: «Agora, nesta entrevista, Passos Coelho já não tem cerimónias». A expressão, porém, é «fazer cerimónia». E esta: «Pelos vistos, Ferreira Leite até tinha razão sobre o TGV. E é irónico e desleal que Passos Coelho a tivesse combatido aí com força, para agora a vir plagiar.» «É irónico e desleal»? A frase não saiu lá muito bem. E a última: «Passos Coelho prefere antes “construir ideias”.» Errado: preferir antes é redundante e resulta do cruzamento com uma expressão sinónima, antes querer. Se eu fosse bruto, diria que a crónica é uma lástima.

[Post 2885]

Chatices e parvoíces

Como uma nódoa

      A propósito da ortografia do vocábulo saloiice, com que um crítico da revista Ípsilon/Público não atinou (espero que não se interrogue, à semelhança de outro crítico, se «estará a acção de uma pessoa que escreve recensões […] sujeita a réplicas e tréplicas»), um anónimo perguntou-me se «então, não devia ser “chatoíce”». Mas talvez pergunte mal. O que fiz nesse texto («Saloi(o)+ice») foi mostrar, em duas linhas, que não se pode tomar a formação de um («saloiice») nem de outro («parvoíce») como única ou paradigmática. Afinal, porque é que é parvoíce e não parvice, é essa a pergunta? Também está errada: por exemplo o VOLP regista «parvice». Contudo, a tradição da língua na formação de derivados de «parvo» foi pela manutenção da forma /parvo/. Compare-se: parvoalho, parvoeira, parvoidade, parvoejar, parvoíce. O parvo fica lá sempre, indelével como uma nódoa.

[Post 2884]

Ortografia: «Ispaão»

Respeitadores, por uma vez


      «Minoru Yamasaki, o arquitecto que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, ao serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia). E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica» («Os novos anti-semitas», Rui Tavares, Público, 7.12.2009, p. 40). Bem merece a designação portuguesa, pois até ao fim da primeira metade do século XVIII houve uma comunidade portuguesa, com uma igreja católica, nesta cidade. Felizmente, em relação a este topónimo, que tem surgido muito ultimamente (a propósito, por exemplo, da francesa Clotilde Reiss, acusada de espionagem), os jornalistas têm sabido resistir à forma inglesa do topónimo, Isfahan.

[Post 2883]

Léxico: «ropálico»


Em forma de clava


      Caro M. L.: não são todos os dicionários que registam o adjectivo ropálico. O Dicionário Houaiss regista-o: «diz-se de ou verso grego ou latino que começa por monossílabo, tendo cada um dos versos seguintes uma sílaba a mais que o precedente». Dicionário que também regista o étimo, que diz ser do latim tardio rhopalĭcus (versus), «verso que começa por um monossílabo e vai sempre crescendo», derivado do grego rhopalikós,ê,ón, «em forma de clava». Atente na imagem acima: nela vê-se uma clava, que é a arma que consiste num pedaço de pau grosso, mais volumoso numa das extremidades, e que se usava para ataque e defesa. O que me faz lembrar os caligramas, que são os textos, geralmente poemas, cujas linhas ou caracteres gráficos formam uma figura sugestiva do conteúdo ou da mensagem do texto.


[Post 2882]

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