Ortografia: «Ispaão»

Respeitadores, por uma vez


      «Minoru Yamasaki, o arquitecto que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, ao serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia). E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica» («Os novos anti-semitas», Rui Tavares, Público, 7.12.2009, p. 40). Bem merece a designação portuguesa, pois até ao fim da primeira metade do século XVIII houve uma comunidade portuguesa, com uma igreja católica, nesta cidade. Felizmente, em relação a este topónimo, que tem surgido muito ultimamente (a propósito, por exemplo, da francesa Clotilde Reiss, acusada de espionagem), os jornalistas têm sabido resistir à forma inglesa do topónimo, Isfahan.

[Post 2883]

Léxico: «ropálico»


Em forma de clava


      Caro M. L.: não são todos os dicionários que registam o adjectivo ropálico. O Dicionário Houaiss regista-o: «diz-se de ou verso grego ou latino que começa por monossílabo, tendo cada um dos versos seguintes uma sílaba a mais que o precedente». Dicionário que também regista o étimo, que diz ser do latim tardio rhopalĭcus (versus), «verso que começa por um monossílabo e vai sempre crescendo», derivado do grego rhopalikós,ê,ón, «em forma de clava». Atente na imagem acima: nela vê-se uma clava, que é a arma que consiste num pedaço de pau grosso, mais volumoso numa das extremidades, e que se usava para ataque e defesa. O que me faz lembrar os caligramas, que são os textos, geralmente poemas, cujas linhas ou caracteres gráficos formam uma figura sugestiva do conteúdo ou da mensagem do texto.


[Post 2882]

Ascendência/descendência

Elementar

      A propósito do jantar que Barack Obama ofereceu ao primeiro-ministro indiano, Manmohah Singh, na Casa Branca, Conan O’Brien, numa das emissões de ontem do Tonight Show, na SIC Radical, fez humor e disse que estiveram presentes muitas estrelas com ascendência indiana. Ascendência disse O’Brien e digo eu, porque para a tradutora, Patrícia Amaral Gama, da Dialectus, era com «descendência indiana». É lamentável como se confundem os vocábulos e os conceitos. Há-de haver alguns artistas americanos que descendem de indianos — mas eles próprios não têm descendência indiana, têm ascendência indiana. Alguém confunde ascender (subir, se quisermos) com descender (descer, se quisermos)? Ascendência é a linha de gerações anteriores a um indivíduo ou a uma família; descendência é a série de indivíduos que procedem de um tronco comum.

[Post 2881]

Etimologia: «consoada»

Alentejo, anos 30

      «[Maria de Lourdes Modesto] Percebeu que o verdadeiro Natal tradicionalista era — já o dizia Ramalho Ortigão — o do Norte, o Natal minhoto. “Não há dúvida de que o grande Natal é do Porto para cima. Aí o bacalhau é rei, aparece cozido, aparece em bolinhos. E também o polvo guisado.” Descobriu a palavra “consoada”, que no seu Natal alentejano não se usava» («A consoada tornou-se mais “nacional”», Alexandra Prado Coelho, Pública, 6.12.2009, p. 28). A palavra parece — parece, apenas, pois boa parte das palavras que nos chegaram tem uma origem incerta — que provém do latim consōlāta, substantivação da forma feminina do particípio passado do verbo consolārī, «consolar, confortar, animar, mitigar».

[Post 2880]

Neologismo: «sedevacantista»

Talvez nunca


      Cara Luísa Pinto: não, não conheço nenhum dicionário que registe o neologismo «sedevacantista» (de «sede vacante», diocese onde falta o prelado, por morte, renúncia, deposição ou transferência), designação que se dá aos cismáticos que não aceitaram a eleição dos papas que se seguiram a Pio XII, falecido em 1958: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI). Não conheço nem me parece que alguma vez isso aconteça. Mas, como ex-professora, decerto que sabe que tal não é condição imprescindível para usarmos o vocábulo.

[Post 2879]

Aquisição da linguagem: inatismo

O artisto e a artista

      A minha filha tem dois anos e meio e gosta, decerto que como todas as crianças, que lhe contem histórias. (Agora, prefere que lhas conte, não que as leia.) Há dias, contava-lhe a história dos ursinhos Plum e Plumete no circo, uma obra da autoria da escritora e ilustradora francesa (mas nascida na Roménia) Lise Marin e adaptada para português por Leonor Garcia e que se pode considerar, leio na recensão que António Couto Viana fez da obra em 1989, «uma iniciação à leitura». Quando digo à minha filha que Plum e Plumete (um ursinho e uma ursinha) são artistas, ela corrige-me de imediato: «“Artistas” não: artisto e artista.» É nestes momentos que a teoria do inatismo, defendida por Noam Chomsky, que diz que o ser humano é provido de uma gramática inata, ou seja, que esta já nasce com a pessoa e vai tomando forma conforme o seu desenvolvimento, se nos impõe mais. Para a minha filha, ainda não há substantivos comuns de dois: o/a artista. E porquê? Porque a «gramática interna» lhe diz que para a generalidade dos substantivos a marcação de género é feita morfologicamente.

[Post 2878]

Sexo consensual/sexo consentido

Tanta gente


      Dantes, apenas se ouvia falar em «sexo consentido», porque consentir é permitir, não impedir, deixar que aconteça. Agora, fala-se, e é já a terceira vez que leio ou ouço, em «sexo consensual», e está certo, pois «consensual» é o que é dependente de consenso, se bem que este se aplique mais a uma pluralidade de pessoas (como numa colectividade, numa assembleia, num conselho). Mas sim, consenso também é anuência, consentimento. Até porque também se diz rapto consensual, e não *rapto consentido. Um exemplo: «O diário britânico The Times revela preocupações de que Polanski possa tentar fugir já que o chalet fica a apenas pouco mais de uma hora da fronteira com a França — onde Polanski tem vivido desde que fugiu dos Estados Unidos em 1978, um ano depois de ser acusado de ter sexo não consensual com uma menor» («Roman Polanski em prisão domiciliária no seu chalet suíço», Maria João Guimarães, Público, 5.12.2009, p. 22).

[Post 2877]

Ortografia: «saloiice»

Saloi(o)+ice

      «O seu [de Edward Seidensticker (1921–2007)] prestígio anglo-saxónico só pode ser compreendido à luz do autismo linguístico daquele universo, incapaz de cotejar ou reconhecer traduções muito mais ricas, como as francesas, alemãs ou italianas. É claro que há nesse autismo um deliberado propósito imperial-comercial, a que os editores portugueses aderem entusiasticamente. Este entusiamo (ou saloíce) universal consagra um modo de ler e um sistema de gosto de que pelo menos duas consequências estão à vista: a transformação da literatura em acessório de aeroporto e o reforço da Ditadura Internacional da Simplificação, sob a égide da crítica e dos editores americanos» («Perdido na tradução», Francisco Luís Parreira, Público/Ípsilon, 4.12.2009, p. 55). Escreve-se saloiice, e não saloíce. Compare, senhor crítico, não com parvoíce, mas com gandaiice, mandriice e vadiice.

[Post 2876]


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