Ascendência/descendência

Elementar

      A propósito do jantar que Barack Obama ofereceu ao primeiro-ministro indiano, Manmohah Singh, na Casa Branca, Conan O’Brien, numa das emissões de ontem do Tonight Show, na SIC Radical, fez humor e disse que estiveram presentes muitas estrelas com ascendência indiana. Ascendência disse O’Brien e digo eu, porque para a tradutora, Patrícia Amaral Gama, da Dialectus, era com «descendência indiana». É lamentável como se confundem os vocábulos e os conceitos. Há-de haver alguns artistas americanos que descendem de indianos — mas eles próprios não têm descendência indiana, têm ascendência indiana. Alguém confunde ascender (subir, se quisermos) com descender (descer, se quisermos)? Ascendência é a linha de gerações anteriores a um indivíduo ou a uma família; descendência é a série de indivíduos que procedem de um tronco comum.

[Post 2881]

Etimologia: «consoada»

Alentejo, anos 30

      «[Maria de Lourdes Modesto] Percebeu que o verdadeiro Natal tradicionalista era — já o dizia Ramalho Ortigão — o do Norte, o Natal minhoto. “Não há dúvida de que o grande Natal é do Porto para cima. Aí o bacalhau é rei, aparece cozido, aparece em bolinhos. E também o polvo guisado.” Descobriu a palavra “consoada”, que no seu Natal alentejano não se usava» («A consoada tornou-se mais “nacional”», Alexandra Prado Coelho, Pública, 6.12.2009, p. 28). A palavra parece — parece, apenas, pois boa parte das palavras que nos chegaram tem uma origem incerta — que provém do latim consōlāta, substantivação da forma feminina do particípio passado do verbo consolārī, «consolar, confortar, animar, mitigar».

[Post 2880]

Neologismo: «sedevacantista»

Talvez nunca


      Cara Luísa Pinto: não, não conheço nenhum dicionário que registe o neologismo «sedevacantista» (de «sede vacante», diocese onde falta o prelado, por morte, renúncia, deposição ou transferência), designação que se dá aos cismáticos que não aceitaram a eleição dos papas que se seguiram a Pio XII, falecido em 1958: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI). Não conheço nem me parece que alguma vez isso aconteça. Mas, como ex-professora, decerto que sabe que tal não é condição imprescindível para usarmos o vocábulo.

[Post 2879]

Aquisição da linguagem: inatismo

O artisto e a artista

      A minha filha tem dois anos e meio e gosta, decerto que como todas as crianças, que lhe contem histórias. (Agora, prefere que lhas conte, não que as leia.) Há dias, contava-lhe a história dos ursinhos Plum e Plumete no circo, uma obra da autoria da escritora e ilustradora francesa (mas nascida na Roménia) Lise Marin e adaptada para português por Leonor Garcia e que se pode considerar, leio na recensão que António Couto Viana fez da obra em 1989, «uma iniciação à leitura». Quando digo à minha filha que Plum e Plumete (um ursinho e uma ursinha) são artistas, ela corrige-me de imediato: «“Artistas” não: artisto e artista.» É nestes momentos que a teoria do inatismo, defendida por Noam Chomsky, que diz que o ser humano é provido de uma gramática inata, ou seja, que esta já nasce com a pessoa e vai tomando forma conforme o seu desenvolvimento, se nos impõe mais. Para a minha filha, ainda não há substantivos comuns de dois: o/a artista. E porquê? Porque a «gramática interna» lhe diz que para a generalidade dos substantivos a marcação de género é feita morfologicamente.

[Post 2878]

Sexo consensual/sexo consentido

Tanta gente


      Dantes, apenas se ouvia falar em «sexo consentido», porque consentir é permitir, não impedir, deixar que aconteça. Agora, fala-se, e é já a terceira vez que leio ou ouço, em «sexo consensual», e está certo, pois «consensual» é o que é dependente de consenso, se bem que este se aplique mais a uma pluralidade de pessoas (como numa colectividade, numa assembleia, num conselho). Mas sim, consenso também é anuência, consentimento. Até porque também se diz rapto consensual, e não *rapto consentido. Um exemplo: «O diário britânico The Times revela preocupações de que Polanski possa tentar fugir já que o chalet fica a apenas pouco mais de uma hora da fronteira com a França — onde Polanski tem vivido desde que fugiu dos Estados Unidos em 1978, um ano depois de ser acusado de ter sexo não consensual com uma menor» («Roman Polanski em prisão domiciliária no seu chalet suíço», Maria João Guimarães, Público, 5.12.2009, p. 22).

[Post 2877]

Ortografia: «saloiice»

Saloi(o)+ice

      «O seu [de Edward Seidensticker (1921–2007)] prestígio anglo-saxónico só pode ser compreendido à luz do autismo linguístico daquele universo, incapaz de cotejar ou reconhecer traduções muito mais ricas, como as francesas, alemãs ou italianas. É claro que há nesse autismo um deliberado propósito imperial-comercial, a que os editores portugueses aderem entusiasticamente. Este entusiamo (ou saloíce) universal consagra um modo de ler e um sistema de gosto de que pelo menos duas consequências estão à vista: a transformação da literatura em acessório de aeroporto e o reforço da Ditadura Internacional da Simplificação, sob a égide da crítica e dos editores americanos» («Perdido na tradução», Francisco Luís Parreira, Público/Ípsilon, 4.12.2009, p. 55). Escreve-se saloiice, e não saloíce. Compare, senhor crítico, não com parvoíce, mas com gandaiice, mandriice e vadiice.

[Post 2876]


Transgressão criadora

Aquela maquina...


      «Wagner [Homem] conheceu Chico quando organizou, em 1989, as letras das canções para o livro de Humberto Werneck “Chico Buarque letra e música”. “Eu fazia a revisão das letras, passava para a editora e esta passava para Chico. Aquela história que conto no livro sobre a letra de ‘Meu caro Barão’ foi na decorrência disso”. Nesta canção, Chico “tira o acento de várias palavras e faz com que rimem com outras (faxina com maquina, dizia com ausencia, lotado com sabado, virgula com ridicula, ouvido com palido). Além disso comete propositadamente erros de concordância em frases como ‘o santo dos ladrão’ e ‘Deu uma cocega /Nos calo da mão’”. Mas, num excesso de zelo, alguém na editora corrigiu os “erros” ortográficos e gramaticais. “Um cara na editora meteu acento em tudo”, ri-se Wagner. Chico acabaria a telefonar a Wagner a pedir-lhe uma justificação...» («Wagner Homem conta “historinha” de Chico», Isabel Coutinho, Público/P2, 4.12.2009, p. 22). Fazia lá falta um revisor filológico — ou, pelo menos, um revisor mais atento.

[Post 2875]

Tecnolecto ou sociolecto?

Talvez não

      Deve estar um santo para cair do altar, como diria a minha avó materna. A abertura do Ciberdúvidas de hoje, dedicada aos estrangeirismos já adaptados morfológica e foneticamente ao português, refere o vocábulo «grafitar», que analisei aqui, e remete para o Assim Mesmo.
      Nesta abertura também abordam, e isto é que me interessa, o «linguajar dos surfistas»: «Com direito ou sem ele, os estrangeirismos marcam presença assídua no linguajar dos surfistas, tanto assim que são os estrangeirismos o principal traço desse tecnolecto.» Na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006), Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva escrevem: «Sociolecto fica fora desta hierarquia de conceitos, embora se possa definir como um conjunto de idiolectos que corresponde a um recorte social da língua (pode falar-se no sociolecto dos adolescentes, dos surfistas ou dos economistas)» (p. 21). As autoras afirmam que o termo «sociolecto» tende a ser substituído por «dialecto», e exemplificam com o economês e o futebolês. Ultimamente temos ouvido falar muito do eduquês. Anteontem, li no Jornal de Negócios: «O Tratado de Lisboa é mais uma tentativa para “aproximar a Europa dos cidadãos”, expressão que soa já a “eurocratês”, um neologismo para linguagem de burocrata europeu» («A Europa (ainda não é) porreira», Helena Garrido, Jornal de Negócios, 2.12.2009). Os especialistas identificam outros –lectos, como cronolecto, idiolecto, etc.

[Post 2874]

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