Transgressão criadora

Aquela maquina...


      «Wagner [Homem] conheceu Chico quando organizou, em 1989, as letras das canções para o livro de Humberto Werneck “Chico Buarque letra e música”. “Eu fazia a revisão das letras, passava para a editora e esta passava para Chico. Aquela história que conto no livro sobre a letra de ‘Meu caro Barão’ foi na decorrência disso”. Nesta canção, Chico “tira o acento de várias palavras e faz com que rimem com outras (faxina com maquina, dizia com ausencia, lotado com sabado, virgula com ridicula, ouvido com palido). Além disso comete propositadamente erros de concordância em frases como ‘o santo dos ladrão’ e ‘Deu uma cocega /Nos calo da mão’”. Mas, num excesso de zelo, alguém na editora corrigiu os “erros” ortográficos e gramaticais. “Um cara na editora meteu acento em tudo”, ri-se Wagner. Chico acabaria a telefonar a Wagner a pedir-lhe uma justificação...» («Wagner Homem conta “historinha” de Chico», Isabel Coutinho, Público/P2, 4.12.2009, p. 22). Fazia lá falta um revisor filológico — ou, pelo menos, um revisor mais atento.

[Post 2875]

Tecnolecto ou sociolecto?

Talvez não

      Deve estar um santo para cair do altar, como diria a minha avó materna. A abertura do Ciberdúvidas de hoje, dedicada aos estrangeirismos já adaptados morfológica e foneticamente ao português, refere o vocábulo «grafitar», que analisei aqui, e remete para o Assim Mesmo.
      Nesta abertura também abordam, e isto é que me interessa, o «linguajar dos surfistas»: «Com direito ou sem ele, os estrangeirismos marcam presença assídua no linguajar dos surfistas, tanto assim que são os estrangeirismos o principal traço desse tecnolecto.» Na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006), Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva escrevem: «Sociolecto fica fora desta hierarquia de conceitos, embora se possa definir como um conjunto de idiolectos que corresponde a um recorte social da língua (pode falar-se no sociolecto dos adolescentes, dos surfistas ou dos economistas)» (p. 21). As autoras afirmam que o termo «sociolecto» tende a ser substituído por «dialecto», e exemplificam com o economês e o futebolês. Ultimamente temos ouvido falar muito do eduquês. Anteontem, li no Jornal de Negócios: «O Tratado de Lisboa é mais uma tentativa para “aproximar a Europa dos cidadãos”, expressão que soa já a “eurocratês”, um neologismo para linguagem de burocrata europeu» («A Europa (ainda não é) porreira», Helena Garrido, Jornal de Negócios, 2.12.2009). Os especialistas identificam outros –lectos, como cronolecto, idiolecto, etc.

[Post 2874]

Léxico: «eticista»

Recomendável

      Um leitor pede-me que dedique umas palavras à ética e escreve: «Interrogo-me muitas vezes porque não temos o antónimo do adjectivo. Por exemplo: “um certo comportamento de um médico é... ‘inético’, ‘desético’ ou ‘anético’”. É que dizer “antiético” (ou será “anti-ético”?) não me satisfaz em todos os contextos. Por outro lado, falta-nos (?) o termo para definir o especialista em Ética. Podemos chamar-lhe “eticista”? Não o encontro nos dicionários portugueses da Internet (Porto Editora e Priberam), nem nos em papel da Sociedade da Língua Portuguesa ou da Academia. Só o vejo no Houaiss em papel. É neologismo?»
      Comecemos pelo fim. Em dicionários gerais, também só encontro no Dicionário Houaiss (papel). No Dicionário Escolar de Filosofia, da Plátano Editora, é usado. Pode ler-se na entrada «Moral», da autoria de Desidério Murcho, professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto: «Um moralista é alguém que defende ou condena certos costumes com base em tradições religiosas ou culturais; um eticista é um especialista em ética, que defende ou condena certas práticas com base numa argumentação filosófica.» É um neologismo, sim, tradução do vocábulo inglês «ethicist», preferível, a meu ver, a «especialista em ética». Na imprensa especializada, o termo é usado com alguma frequência: «No que respeita à eutanásia, o eticista [Prof. Rui Nunes, director do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina do Porto] defende que é preciso abordar o tema “com clareza, transparência e determinação”, embora reconheça que é “um tema profundamente fracturante da nossa sociedade e de todas as democracias ocidentais”» («Questões médicas no fim da vida», Cláudia Azevedo, Notícias Médicas, 22.07.2009, p. 7).
      À semelhança de muitos outros vocábulos, não há um termo antónimo que não seja obtido por acrescentamento de um prefixo. Antiético será o que imediatamente nos ocorre, mas também podemos usar aético (que há quem, por razões fundadas na analogia, repute erróneo) ou anético. Ainda nos resta escrever «contra a ética» e, tão do gosto hodierno, «não ético».

[Post 2873]

Léxico: «médico-sentinela»

Cuidado

      «Desde há duas semanas que a rede de vigilância da síndroma gripal dos médicos-sentinela centralizada no Instituto Ricardo Jorge assinala um ligeiro decréscimo da taxa de incidência em todos os grupos etários, à excepção da faixa entre os 5 e os 14 anos» («Focos de gripe A baixam para metade nas escolas», Alexandra Campos, Público, 3.12.2009, p. 9). Nunca tinha ouvido falar de médicos-sentinela. Mas não fiquei apreensivo, fui antes ver ao Portal da Saúde: «A rede “Médicos-Sentinela” é um sistema de observação em saúde, constituído por mais de 155 médicos de clínica geral/medicina familiar cuja actividade profissional é desenvolvida em centros de saúde de todos os distritos do continente e das regiões autónomas.» Que alívio!

[Post 2872]

Uso da maiúscula

Imagem: turmadospiratas.blogspot.com



Rato do Campo e o Rato da Cidade


      «Muitos dos envolvidos no caso, a começar por Armando Vara, são pessoas nascidas na Província que vieram para Lisboa, ascenderam a cargos políticos de relevo e se deslumbraram. […] Ora, para homens que até aí tinham vivido sempre na Província, que até aí tinham uma existência obscura, limitada às estruturas partidárias locais, este salto simultâneo para o poder político e para a cidade representou um cocktail explosivo. […] Ou seja, alguns secretários de Estado do tempo de Guterres, aqueles homens vindos da Província e deslumbrados com Lisboa, eram agora senhores do País» («Os boys de Guterres», José António Saraiva, Sol, 20.11.2009, p. 5). Só faltou grafar o vocábulo «cidade» com maiúscula inicial para significar mais expressivamente o deslumbramento...


[Post 2871]

Léxico: «folheta»

Coisas de outrora

      «Numa loja recentemente inaugurada no Porto, José Fernandes [director da Ach Brito] encontrou os brinquedos da sua infância, “que eram os mais baratos que existiam na altura”. E nessa lista entram os carrinhos de folhetas e o “velho pião”» («Reviver produtos que são do passado», Metro, 2.12.2009, p. 4). Folheta é a folha de latão. Não é vocábulo que se encontre actualmente todos os dias.

[Post 2870]

Regionalismos

É como ler um livro

      Na rubrica Modus Vivendi, que se insere no programa Janela Aberta, do Rádio Clube Português (RCP), o médico Pedro Barreiros falou ontem de sinais e sintomas das doenças. Um excerto: «Para mim e para a maior parte dos meus colegas, a coisa mais importante que existe na relação entre o médico e a pessoa que o procura, o doente, é aquilo que o doente diz. É evidente que nós temos de perceber aquilo que o doente diz. O doente fala, muitas vezes, de uma maneira regionalista, usando termos que nós, nós é que temos obrigação de ir à procura, de perceber o que é que esses termos querem dizer. Por exemplo, nalgumas regiões [mas creio que somente no Alentejo], o termo “fezes” aplica-se como “dor”, como “preocupação”. “O meu filho dá-me muitas fezes.” Portanto, nós temos de perceber isso. Alguns sinais de algumas doenças. A zona, nalgumas zonas do País, chama-se cobrão. Como o eritema da zona se passa ao longo do trajecto do nervo, o povo pensava, antes de saber que aquilo se trata de uma doença transmitida por um vírus, pensava que era uma cobra que tinha passado e que tinha deixado aquele rasto. Portanto, nós temos de perceber aquilo que os doentes nos dizem. É como ler um livro. A pior coisa que uma pessoa pode fazer quando lê um livro é virar a página sem ter percebido exactamente o significado das palavras da página que acabou de ler.»
      Infelizmente, também disse: «Ele [o doente] pensa que a asma é uma doença extremamente grave, de insuficiência respiratória, quando a asma é também um sindroma que pode ter várias causas, e nós temos de perceber qual é a ideia que ele tem sobre elas.» Síndroma ou síndrome são vocábulos esdrúxulos e do género feminino. Quanto a cobrão, muitos dicionários gerais registam o termo, definindo-o como a inflamação de um nervo ou de gânglios nervosos, caracterizada pela erupção de vesículas na pele, tipicamente na região dorsal.

[Post 2869]

Neologismo: «obâmico»

A força de um nome

      Já aqui tínhamos visto que algumas das palavras admitidas pelo New Oxford American Dictionary se relacionam com o nome do presidente Barack Obama (como Obamanomics, Obamacons, Obamalicious). Vemos agora que esse fenómeno chegou até nós. Entrevistado por José Fialho Gouveia, do semanário Sol, António Serzedelo, presidente do Opus Gay, disse: «Penso que António Costa tem uma vertente ‘obâmica’» («António Costa tem uma vertente ‘obâmica’», José Fialho Gouveia, Sol, 20.11.2009, p. 4).

[Post 2868]

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