Neologismo: «obâmico»

A força de um nome

      Já aqui tínhamos visto que algumas das palavras admitidas pelo New Oxford American Dictionary se relacionam com o nome do presidente Barack Obama (como Obamanomics, Obamacons, Obamalicious). Vemos agora que esse fenómeno chegou até nós. Entrevistado por José Fialho Gouveia, do semanário Sol, António Serzedelo, presidente do Opus Gay, disse: «Penso que António Costa tem uma vertente ‘obâmica’» («António Costa tem uma vertente ‘obâmica’», José Fialho Gouveia, Sol, 20.11.2009, p. 4).

[Post 2868]

«Severo», anglicismo semântico

Estão doentes

      «E insistiram que as grávidas estão sujeitas a complicações muito mais severas no caso de contraírem gripe A» («Três fetos perdidos numa semana», Sol, 20.11.2009, p. 52). Os jornalistas já deviam saber que «severo», nesta acepção, é um anglicismo semântico, de severe. Em bom português, dizemos «grave».

[Post 2867]

Processos neológicos

Vai um refri

      A leitora Elisete Martins quer saber se se pode qualificar como neologismo o vocábulo «refri». A resposta é sim. A truncação ou abreviação vocabular, que foi o processo por que se chegou a refri (de «refrigerante»), é uma das formas de neologia, a par dos estrangeirismos e de processos fonológicos, derivados prefixais, derivados sufixais, compostos sintagmáticos, semânticos, e mesmo processos como formações com siglas, alguns dos quais já aqui foram referidos. No Dicionário Gaúcho (3.ª ed. Porto Alegre: AGE, 2005, p. 228), de Alberto Juvenal de Oliveira, leio que refri é «outra expressão moderna incorporada no vocabulário gaúcho [relativo ao Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil] que significa refrigerante». Imagino que, com «expressão moderna», o autor pretenda dizer neologismo.

[Post 2866]

Tradução: «codex»

Códex

      «“Não estamos a tentar reabilitar Moctezuma”, ressalva o curador inglês da exposição, Colin McEwan, ao P2, junto à serpente bicéfala azul-turquesa, uma das peças mais assombrosas. “Mas há códigos que mostram Moctezuma a ser espancado, ou seja, uma versão diferente daquela em que ele aparece como não tendo resistido. É como as armas de destruição maciça: em quem acreditar?» («Moctezuma. O rei azteca está de volta», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 28.11.2009, p. 5). «Códigos»? Que códigos, valha-me Deus? Colin McEwan há-de ter referido codices (plural de codex), que só pode ser traduzido por «códices». Referência, porventura, ao chamado Códice Ramírez, que são na realidade dois manuscritos independentes do México Central posteriores à conquista espanhola. O erro repete-se ao longo da peça.

[Post 2865]

Etimologia: «minarete»

Imagem: comunidadeislamica.pt


Um farol


      A propósito do referendo às mesquitas na Suíça, escreve António Marujo no Público de hoje: «Como os faróis (a palavra árabe manar significa minarete ou farol), [os minaretes] servem para ser vistos ao longe, anunciam a presença do islão e tornaram-se obviamente símbolos de poder» («Um “duro golpe contra a liberdade religiosa”», Público, 1.12.2009, p. 19). (Agora já sabem o que significa Al-Manar, o canal de televisão do Hezbollah.)


[Post 2864]

Sobre «acórdão»

Assim percebe-se


      Quando chegam ao 6.º ano de escolaridade, alguns alunos ainda representam a desinência –am com o morfema –ão, e vice-versa. Ou seja, confundem as desinências. «Eles cantão muito bem.» «Eles dam tudo o que têm.» É, por isso, interessante, ver que o vocábulo «acórdão», sentença proferida por um tribunal colectivo, provém de «acordam», a 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo de «acordar». (Um aparte: tem, necessariamente, de levar acento agudo, pois é grave, a sílaba predominante é um o aberto. E não é, como muita gente defende, um caso de dupla acentuação, coisa que, nos nomes comuns, não existe, antes o til marca apenas a nasalação. Ainda recentemente, numa editora me «corrigiram» uma palavra que se enquadra neste grupo. O tradutor escrevera «benção», eu emendei para «bênção», na editora alteraram para «benção» e eu, finalmente, voltei a grafar «bênção.) Já Paul Teyssier tinha observado que, na linguagem popular do Brasil, «as desinências foram simplificadas, quer pelo desgaste fonético (queda do –r final, p. ex. cantá por cantar, “chanter”), quer pela unificação dos paradigmas (supressão da desinência –mos da 1.ª pessoa do plural) (Manual de Língua Portuguesa. Coimbra: Coimbra Editora, 1989, p. 238).
[Post 2863]

«Preço compreensivo»

Compreende-se, mas mal

      Um leitor pede-me que comente o seguinte assunto de uma circular normativa (n.º 10 de 2009) da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS): «Facturação e pagamento por preço compreensivo dos cuidados de diálise em programa ambulatório prestados a doentes crónicos (beneficiários do SNS ou de subsistemas públicos aderentes à modalidade de pagamento por preço compreensivo) em unidades convencionadas.» O leitor refere-se ao uso do adjectivo «compreensivo», pois que termina a mensagem perguntado-me: «Compreende-se?» Bem, «compreensivo», no contexto, só pode significar «que abrange ou contém». Parece-me, porém, que estamos perante uma expressão («preço compreensivo») anteriormente objecto de definição. Assim, neste diploma legal, publicado em 2008, lê-se que preço compreensivo se configura «como um preço global por semana e por doente hemodialisado, abrangendo todos os encargos relativos directamente às sessões de diálise e, bem assim, ao respectivo acompanhamento médico dos doentes, seu controlo e avaliação, aos exames, análises e medicamentos necessários ao tratamento da insuficiência renal crónica e suas intercorrências passíveis de serem corrigidas nas entidades convencionadas de diálise».

[Post 2862]

Tradução: «data mining»

Toma lá, dá cá

      «O que posso contar, baseando-me em outras declarações de responsáveis europeus, americanos, e da própria empresa, é o seguinte: os americanos afirmam que leram só 0,5% da informação a que acederam; afirmam que não fizeram garimpo de dados (data-mining) e muito menos espionagem industrial; afirmam que só consultaram informações sobre indivíduos suspeitos de terrorismo; e afirmam ainda que essa informação ajudou a evitar ataques terroristas» («Coisas que acontecem nas nossas costas», Rui Tavares, Público, 30.11.2009, p. 32). Fica a sugestão de tradução. Em troca, o reparo: é uma locução, não uma palavra composta.

[Post 2861]

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