Sujeito indeterminado

Vergonha nacional

      Ainda não tive oportunidade de ouvir o programa 59 de Em Nome do Ouvinte, em que Adelino Gomes iniciava, lê-se no blogue, a «abordagem de uma outra questão, objecto frequente de reparos de ouvintes: o carácter repetitivo das informações sobre trânsito». Como é habitual, nunca falam do mais grave. Mais do que a repetição, grave é dizerem (só sei que é um jornalista, não uma jornalista) repetidamente isto cada vez que há acidentes: «Neste momento, procedem-se a trabalhos de limpeza na via.» É uma vergonha um jornalista dar semelhante erro. Correcto é: «Neste momento, procede-se [ou procedem] a trabalhos de limpeza na via.» O sujeito é indeterminado e só há duas maneiras de o indeterminar: a) com o verbo na 3.ª pessoa do singular mais o pronome se; b) com o verbo na 3.ª pessoa do plural, sem o se. Vamos lá ver se aprende, senhor jornalista.
[Post 2859]

Neologismo: «spintrónica»

E mais uma     


      «Dizem que a próxima geração de computadores será “spintrónica” — ou seja, que a informação digital (os zeros e os uns) será transportada pelo spin dos electrões e não pela sua carga eléctrica, como é o caso hoje. O spin é um estado quântico dos electrões que só tem dois valores possíveis, o que o torna prático para codificar dados sob forma binária» («Computador do futuro pode ser “spintrónico”», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 29.11.2009, p. 3). Não estou à espera que se lhe dê o nome de girotrónica, por mais português, mas os Espanhóis, por exemplo, escrevem espintrónica.

[Post 2858]

Neologismo: «republimonarquia»

E outra amálgama

      «O neologismo joumloukia — união das palavras árabes joumhouria (república) e mouloukia (realeza) — é atribuído ao jornalista argelino Mohamed Benchicou. Escreveu o ex-director do diário Le Matin, várias vezes preso pelos seus artigos críticos do poder: “Joumhouria [diferente de jamahiria, ou ‘Estado das massas’, que Kadhafi inventou na Líbia] é, literalmente, a apropriação de um país pelo povo (joumhour). Mouloukia é a apropriação de um país por um só homem: o malik, ‘proprietário’.” O conceito de joumloukia, ou “republimonarquia” começou a ser posto em prática na Síria, em 2000, quando Bashar al-Assad sucedeu ao seu defunto pai, Hafez» («As novas joumloukias (republimonarquias) do mundo árabe», Margarida Santos Lopes, Público, 29.11.2009, p. 18).

[Post 2857]

Neologismo: «açucarólico»

À falta de melhor

      Encontrei no Facebook os AA — Açucarólicos Anónimos. Mas estou a adiantar-me. «O Paquistão é uma nação de assumidos “açucarólicos”. O açúcar pode ser menos importante do que o trigo e o óleo alimentar na dieta alimentícia, mas tem grande influência na psicologia nacional. E, embora o sistema judicial seja visto como instrumento ao serviço de elites rurais no poder, os tribunais têm decidido a favor dos consumidores» («Paquistão teme que escassez de açúcar possa abalar o regime», Pamela Constable, Público/The Washington Post, 29.11.2009, p. 17). No original, o trecho em causa era este: «Pakistan is a nation of unabashed sugarholics, who heap the crystals in their breakfast tea and devour cakes at every special occasion» («In Pakistan, much bitterness over sugar crisis», 28.11.2009). É mais uma amálgama, à semelhança de workaholic (que alguns pretendem traduzir por «trabalhólico», quando já temos «ergomaníaco»).

[Post 2856]

Neologismo: «virtópsia»

Não se vão queixar

      «Não é para já, mas é provável que um dia deixe de ser preciso abrir um cadáver para conhecer a causa da morte. Michael Thali, da Universidade de Berna (Suíça), e os seus colegas, noticia o Telegraph, já realizaram centenas de autópsias virtuais, ou “virtópsias” [virtopsy], em pessoas que morreram subitamente ou de causas não naturais. Combinam scanner óptico 3D (para a superfície), TAC (para ver os ossos e o cérebro), RMN (para ver os tecidos moles), angiografia (para ver o sistema vascular) e biópsia (recolha de células com uma seringa). Tudo em 30 minutos. Segundo Thali, os militares norte-americanos já estão a utilizar uma versão mais simples do sistema para autopsiar soldados» («A “virtópsia” vai substituir a autópsia?», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 28.11.2009, p. 3).

[Post 2855]

Lacunas lexicográficas


Pirilampos de plástico

      «Ao cair da noite o cenário quase parecia de filme: duas dezenas de bombeiros, várias ambulâncias do INEM, carros de desencarceramento do Regimento de Sapadores, óleo, vidros e pedaços de plástico pelo chão, e uma grua para retirar o carro do MAI. Pirilampos azuis rivalizavam com as iluminações de Natal que já enfeitam toda a Avenida da Liberdade» («Acidente que feriu responsáveis do MAI terá sido causado por excesso de velocidade», Maria Lopes, Público, 28.11.2009, p. 15). Esta é uma acepção arredada dos dicionários. Para estes, pirilampos são somente os insectos coleópteros.


[Post 2854]

Ortografia: «cranioencefálico»

Podia ter sido pior

      «A viatura do MAI ficou de tal modo destruída que foi necessário desencarcerar dois dos feridos, segundo o INEM. Os quatro feridos foram levados para a urgência do Hospital de S. José, onde Mário Mendes entrou com “perdas de conhecimento”, anunciou o INEM, e chegou a suspeitar-se de traumatismo crânio-encefálico» («Acidente que feriu responsáveis do MAI terá sido causado por excesso de velocidade», Maria Lopes, Público, 28.11.2009, p. 15). Mas concluiu-se que não podia ser, pois escreve-se cranioencefálico.

[Post 2853]

Actualização em 21.1.2010

      Mas também se encontra correctamente ortografado na imprensa: «Vítor Gonçalves, de 40 anos, sofreu um traumatismo cranioencefálico, diversos ferimentos nos braços e uma fractura num pé» («Quando soube pensei no pior», Luís Oliveira, Correio da Manhã, 21.1.2010, p. 26).





«Amplicíssimo»?

Simplex para o PGR

      Já aqui tenho referido como se forma o superlativo absoluto sintético de certos adjectivos. Sim, a forma mais abundante é pela adjunção do sufixo -íssimo ao adjectivo no grau normal. Mas há casos de superlativos eruditos que recuperam parte do radical latino, como chão (chaníssimo), respeitável (respeitabilíssimo), simples (simplicíssimo ou simplíssimo) e outros. Ora, ontem, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, falou aos jornalistas na Guarda, nas cerimónias comemorativas do 810.º aniversário da cidade e na atribuição do Prémio Eduardo Lourenço 2009 ao penalista Jorge Figueiredo Dias, e usou o superlativo «amplissimo». Donde vem a sílaba ci, pode saber-se? O adjectivo latino é amplus, a, um, ao contrário do étimo de «simples», que é simplex, plĭcis. Logo, o superlativo absoluto sintético de amplo só pode ser amplíssimo. Lapso ou convicção? Nunca saberemos (pelo menos sem escutas telefónicas).

[Post 2852]

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