Léxico: «mobilete»

Mais uma

      «Um homem de 56 anos apresentou na última semana uma queixa relativamente a outro homem (que só conhece pela alcunha) que alegadamente terá caído da sua mobilete» («Agredido por homem que tinha tentado ajudar», Jornal do Fundão, 19.11.2009, p. 9). Mobilete começou por ser uma marca de um ciclomotor que existiu no Brasil. Tinha 49,9 cc, e por isso não exigia habilitação nem placa de matrícula. À semelhança de outras marcas, vimo-lo aqui recentemente a propósito de chiclete, tornou-se nome comum, fenómeno designado derivação imprópria.

[Post 2839]

Infinitivo: qual deles?

Podes crer

      «Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na faculdade de Direito» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 132). Se for regido de preposição (neste caso, «para»), o infinitivo pode ser flexionado ou não. Logo, o tradutor poderia ter optado por escrever: «Markie, tu estás aqui para seres um estudante e para estudares o Supremo Tribunal e para estudares o Thomas Jefferson e para te preparares para entrar na faculdade de Direito.» E seria mesmo desta forma que eu poria a falar a mulher de um talhante, kosher ou não.

[Post 2838]

Léxico: «grafitar»

Picha-me aí essa parede

      «As latas de spray no chão, junto à mochila, despertam olhares curiosos em alguns clientes do supermercado. Nomen vai preenchendo com tinta os espaços entre as linhas desenhadas na parede de betão que separa o parque de estacionamento da zona comercial do IC19. Desta vez não tem que se preocupar com a polícia, uma vez que está a graffitar muros do itinerário que liga Lisboa a Sintra por conta da Estradas de Portugal» («IC19 vai ter muros decorados com graffiti», Luís Filipe Sebastião, Público, 24.11.2009, p. 25). «Graffitar»? Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafitar é somente «revestir de grafite (a superfície de um objecto) para o tornar condutor eléctrico» ou «lubrificar com pasta de grafite», para o Dicionário Houaiss também é «executar grafites em; riscar, rabiscar, pichar». Mais um erro do Departamento de Dicionários da Porto Editora, tanto mais que regista, por exemplo, «grafiteiro», o «autor de grafitos». Erro, sim. Leiam o que escrevem Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006) sobre os dicionários: «A ausência de uma palavra num determinado dicionário não deve, pois, ser interpretada ligeiramente como indiciadora da sua inexistência: pode tratar-se de uma palavra que cai fora do escopo do dicionário; que, por erro, não foi incluída; ou, ainda, que não precisa de estar dicionarizada por ser um produto previsível dos recursos morfológicos disponíveis (como sucede com a maioria dos advérbios em –mente, como necessariamente, ou com diminutivos em –inho, como livrinho)» (pp. 85-86).

[Post 2837]


Actualização em 28.11.2009

      «Convidaram alguns bons grafitters (eu cá preferia grafitistas ou grafitógrafos) para pintar (e não decorar) alguns muros. Acho bem. Acho que a única maneira de impedir os taggings mais feios (a que chamaria rubricas murais) é apelar ao gosto dos rubricadores e assinantes» («Em algo bonito», Miguel Esteves Cardoso, Público, 28.11.2009, p. 51).

Ortografia: «lipoaspiração»

Mas não é

      «Isto para pseudo-embelezar idiotas de ambos os sexos que provavelmente gastam fortunas para que lhes seja extraída a gordura, por lipo-aspiração, sem ter sequer o cuidado de pedir que a ponham num garrafãozinho, para levar para casa» («Da gordura humana», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.11.2009, p. 39). Talvez tenha sido culpa do revisor, mas está errado: é lipoaspiração. Nunca o antepositivo lipo- é separado por hífen do segundo elemento. A propósito: já viram a diferença entre lipoaspiração e lipoescultura? Esta é uma espécie de transfusão autóloga.

[Post 2836]

«Da cabeça aos pés»

Comparemos

      No exame nacional de Francês de 1997, pedia-se aos alunos que traduzissem para português um pequeno texto de Jean Guéhenno (1890−1978), extraído da obra Journal des années noires. Esta era uma das frases: «Je te vois de pied en cap, dans ton uniforme un peu fripé désormais et pas mal élimé aux genoux et aux coudes […].» Reparem na expressão «de pied en cap». Da cabeça aos pés ou de alto a baixo, traduziríamos nós. Em latim, por exemplo, também havia pelo menos duas maneiras de dizer o mesmo: a vertice ad talos e a calce ad caput. O que é interessante é isto: a língua inglesa foi buscar a expressão ao francês médio e hoje regista o advérbio cap-a-pie, derivado de de cap a pé. Actualmente, porém, como pudemos ver, os termos inverteram-se na língua de origem: em vez de ser da cabeça aos pés, é dos pés à cabeça. A língua inglesa tem, tem sempre, várias formas de dizer o mesmo: from head to toe, from head to heels...

[Post 2835]

Abreviaturas e plurais


Nunca visto

      De vez em quando, leio o semanário Jornal do Fundão. Quanto à correcção com que a língua é usada, é tão bom ou tão mau como outros — com a diferença de que tem revisor. Entre muitos, muitos erros, a minha atenção foi atraída para o que a imagem ilustra: a abreviatura da palavra «telefones» e o plural da palavra «fax». Valha-me Deus, caro Jerónimo Rondão Clemente, senhor revisor, então acha mesmo que a abreviatura de «telefones» é *telf.’s e o plural de «fax» é fax’s? E onde é que aprendeu isso?


[Post 2834]

Nome de doenças II

Hão-de aprender

      «Vítima de um Acidente Vascular Cerebral, o idoso vivia debilitado» («Taxista mata idoso», Henrique Machado, Correio da Manhã, 21.11.2009, p. 11). É a terceira vez que abordo aqui esta questão. O nome das doenças, repito, não é grafado com inicial maiúscula. No caso, admito que a confusão se deva ao facto de a doença ser mais conhecida pela sua sigla, AVC. O mesmo se passa com o desdobramento do acrónimo (ou sigla, para alguns) ONG, o que leva alguns falantes, jornalistas, a escreverem *Organizações Não Governamentais.

[Post 2833]

Sobre «overbooking»

Estou que não posso

      Ainda não me recompus completamente das opiniões abstrusas do provedor do ouvinte da RDP (pobre ouvinte!) sobre o uso de estrangeirismos na rádio. A linguista Regina Rocha disse que «overbooking em português significa “sobrelotação”... Mas soa pesada, horrorosa…». Réplica do provedor: «O avião está sobrelotado e as pessoas pensam assim: mas porquê? Leva bagagem a mais? E quando a gente ouve “overbooking”, sabemos logo: “Olha, estão lá outras pessoas que não cabem lá”.» Pois eu, e garantidamente a maioria dos falantes, penso algo diferente: que quem usa estrangeirismos desnecessários é pedante e desconhece a língua portuguesa. Se se tratar de um jornalista, lamento também o azar dos destinatários, leitores, ouvintes ou telespectadores.

[Post 2832]

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