«Da cabeça aos pés»

Comparemos

      No exame nacional de Francês de 1997, pedia-se aos alunos que traduzissem para português um pequeno texto de Jean Guéhenno (1890−1978), extraído da obra Journal des années noires. Esta era uma das frases: «Je te vois de pied en cap, dans ton uniforme un peu fripé désormais et pas mal élimé aux genoux et aux coudes […].» Reparem na expressão «de pied en cap». Da cabeça aos pés ou de alto a baixo, traduziríamos nós. Em latim, por exemplo, também havia pelo menos duas maneiras de dizer o mesmo: a vertice ad talos e a calce ad caput. O que é interessante é isto: a língua inglesa foi buscar a expressão ao francês médio e hoje regista o advérbio cap-a-pie, derivado de de cap a pé. Actualmente, porém, como pudemos ver, os termos inverteram-se na língua de origem: em vez de ser da cabeça aos pés, é dos pés à cabeça. A língua inglesa tem, tem sempre, várias formas de dizer o mesmo: from head to toe, from head to heels...

[Post 2835]

Abreviaturas e plurais


Nunca visto

      De vez em quando, leio o semanário Jornal do Fundão. Quanto à correcção com que a língua é usada, é tão bom ou tão mau como outros — com a diferença de que tem revisor. Entre muitos, muitos erros, a minha atenção foi atraída para o que a imagem ilustra: a abreviatura da palavra «telefones» e o plural da palavra «fax». Valha-me Deus, caro Jerónimo Rondão Clemente, senhor revisor, então acha mesmo que a abreviatura de «telefones» é *telf.’s e o plural de «fax» é fax’s? E onde é que aprendeu isso?


[Post 2834]

Nome de doenças II

Hão-de aprender

      «Vítima de um Acidente Vascular Cerebral, o idoso vivia debilitado» («Taxista mata idoso», Henrique Machado, Correio da Manhã, 21.11.2009, p. 11). É a terceira vez que abordo aqui esta questão. O nome das doenças, repito, não é grafado com inicial maiúscula. No caso, admito que a confusão se deva ao facto de a doença ser mais conhecida pela sua sigla, AVC. O mesmo se passa com o desdobramento do acrónimo (ou sigla, para alguns) ONG, o que leva alguns falantes, jornalistas, a escreverem *Organizações Não Governamentais.

[Post 2833]

Sobre «overbooking»

Estou que não posso

      Ainda não me recompus completamente das opiniões abstrusas do provedor do ouvinte da RDP (pobre ouvinte!) sobre o uso de estrangeirismos na rádio. A linguista Regina Rocha disse que «overbooking em português significa “sobrelotação”... Mas soa pesada, horrorosa…». Réplica do provedor: «O avião está sobrelotado e as pessoas pensam assim: mas porquê? Leva bagagem a mais? E quando a gente ouve “overbooking”, sabemos logo: “Olha, estão lá outras pessoas que não cabem lá”.» Pois eu, e garantidamente a maioria dos falantes, penso algo diferente: que quem usa estrangeirismos desnecessários é pedante e desconhece a língua portuguesa. Se se tratar de um jornalista, lamento também o azar dos destinatários, leitores, ouvintes ou telespectadores.

[Post 2832]

«Dupla ocultação»

Mais inglesias

      Um tradutor, Gonçalo Sousa Pinto, pergunta ao Ciberdúvidas se não deveria traduzir a expressão inglesa «double blind trial» por «ensaio clínico com dupla ocultação», em vez de traduzir como é habitual: «duplo cego» «duplamente cego», «de duplo-cego», «com duplo cego», etc. O consultor, Carlos Marinheiro, responde que o «Dicionário Eletrônico Houaiss regista o termo duplo-cego (da medicina), considerando-o redução de “método duplo-cego”; a comunidade científica desta área também o usa generalizadamente, de modo que não me parece que haja vantagem em chamar-lhe “ensaio clínico com dupla ocultação”. O termo está praticamente consagrado pelo uso.» Bem, o que vejo é que a comunidade científica também usa generalizadamente «dupla ocultação» — que o consulente afirma, e bem, que está menos colado ao original inglês. Assim, à locução ensaio clínico aleatorizado com dupla ocultação (que é utilizada aqui, por exemplo), aposto que o consultor prefere ensaio clínico randomizado de duplo-cego. O que posso afirmar é que é muito frequente ver nas traduções «dupla ocultação» para «double-blind». Apesar de tanta certeza, o consultor ignorou o último pedido do consulente: «Agradeço o vosso esclarecimento e também que me possam indicar alguma publicação ou site de referência em português para o léxico próprio dos ensaios clínicos e publicações científicas da área da saúde.» Talvez não tenhamos tal, mas temos textos de consultores científicos em que se usa a locução «dupla ocultação».

[Post 2831]

Mácron e braquia

Duração das vogais

      Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva lembram, e é útil comprová-lo, que em português «o tom e a duração não permitem distinguir significados», ao contrário de outras línguas, como o mandarim e o latim. Nesta língua, «a duração da vogal numa mesma sequência pode indicar a função sintáctica da palavra — rosă, com vogal final breve, é nominativo (tem função de sujeito) e com vogal final longa, rosā, é ablativo (tem uma função complementar)» (O Essencial sobre Linguística. Lisboa: Editorial Caminho, 2006, p. 60). Na verdade, com vogal final breve tanto pode ser nominativo como vocativo, o que não altera em quase nada a verdade da afirmação. O mandarim tem quatro tons, mas o cantonês e o vietnamita, por exemplo, com seis tons, ainda são mais ricos. Já agora, para os leitores que desconhecem tudo do latim, convém dizer que apenas em obras didácticas se costuma apor um acento sobre as vogais para indicar a sua duração. As vogais longas são representadas com o acento conhecido como mácron — ā, ē, ī, ō, ū —, e as breves são marcadas com um sinal chamado braquia: ă, ĕ, ĭ, ŏ, ŭ.

[Post 2830]

Selecção vocabular

Esboços e rascunhos

      «A maioria democrata, responsável pelo rascunho da proposta, fez valer a sua força para fazer avançar o processo» («Senado ultrapassa primeiro obstáculo da reforma do sistema de saúde norte-americano», Rita Siza, Público, 23.11.2009, p. 16). Rascunho parece-me a primeira palavra que nos ocorre quando queremos traduzir a palavra inglesa draft. Em português, ocorre com muito mais frequência «esboço de proposta». Draft também se pode traduzir por «anteprojecto», como na expressão draft bill.

[Post 2829]

Abatjoureiros e revisores

Quebra-luzeiros

      Qual é a primeira profissão da Classificação Nacional de Profissões (CNP), sabem? Abatjoureiro. Muito pior, acho eu, do que dizer que se trabalha num centro de apoio ao cliente (mas o provedor do ouvinte da RDP prefere todos os estrangeirismos à língua nacional e, neste caso, prefere call center). Mas isso agora não interessa. Os revisores de provas fazem parte desta lista? Sim, senhor. Figuram assim: Codificadores, Revisores de Provas e Similares. Portanto, o nosso sindicato exclue outros revisores: os revisores oficiais de contas e os revisores de bilhetes dos caminhos-de-ferro. Damo-nos melhor com os codificadores e com os nossos similares. Na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006), Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva afirmam que a «profissão de linguista é tão recente que, em Portugal, ainda não aparece registada» na CNP.

[Post 2828]

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