Corpo tipográfico

Com um tipómetro

      «O Aviso n.º 4/2009 obriga as instituições a prestar diversas informações numa ficha de informação normalizada num momento anterior ao do depósito e, para evitar as tão mal-afamadas “letras pequenas”, a entidade presidida por Vítor Constâncio vai ao ponto de definir que o tamanho da letra não poderá ser inferior a corpo 9» («Maior rigor nos depósitos bancários», Diogo Lopes Pereira, Diário de Notícias/DN Bolsa, 20.11.2009, p. 11). Doravante, os advogados têm de munir-se de um tipómetro — uma régua para verificação das medidas tipográficas — para verificarem o corpo do texto dos contratos bancários. O que irá decerto servir de pretexto para o aumento dos honorários...

[Post 2827]

Nomes chineses

Chineses, coreanos...  


      «Uma semana depois de ser demitido, MacArthur depôs perante uma sessão conjunta do Congresso; defendeu o bombardeamento das bases aéreas da China na Manchúria e o uso das tropas nacionalistas chinesas de Chiang Kai-Shek na Coreia, antes de concluir o discurso com a sua famosa despedida, comprometendo-se a “pura e simplesmente desaparecer, um velho soldado que tentou cumprir o seu dever de acordo com a luz que Deus lhe deu para entender esse dever”» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 37).
      No Manual de Redação e Estilo do jornal Estado de S. Paulo, pode ler-se: «O Estado adota a grafia atualizada (e convencional) dos nomes chineses: Deng Xiaoping, Zhao Ziang, Hua Kuofeng. 2 — Exceções: Mao Tsé-tung, Chiang Kai-chek e Chu En-lai. 3 — Nos nomes em que haja um elemento composto, o segundo termo tem inicial minúscula: Tsé-tung, Kai-chek, En-lai, Yang-tse (rio), Kai-fong (cidade), Ki-lin (província). 4 — Como o sobrenome, nos nomes chineses, vem antes do nome, nos títulos ou na segunda referência dos textos use Mao (e não Tsé-tung), Deng (e não Xiaoping), Chu (e não En-lai), etc.»
      Com nomes coreanos, também é habitual proceder-se da mesma forma: «A última paragem, ontem em Seul, velho aliado dos EUA, foi uma pequena amostra do que havia sido toda a semana. Depois de uma reunião com o Presidente sul-coreano Lee Myung-bak, Obama visitou os militares americanos estacionados na sombra da ameaça nuclear da Coreia do Norte» («Obama deixa a Ásia com uma mão-cheia de quase nada», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 29). Já agora, aproveito para dizer que, segundo as normas de catalogação, em relação aos autores chineses não se inverte o nome.

[Post 2826]

O latim na universidade

Forma de citação

      Com o semestre já bem adiantado, muitos estudantes universitários que escolheram o Latim ainda não sabem que a forma de citação e de enunciação dos verbos nesta língua não é igual à portuguesa (o infinitivo impessoal), antes se faz pelos chamados tempos primitivos: 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo, 2.ª pessoa do singular do presente do indicativo, o infinitivo presente, o perfeito do indicativo e o supino. Como, por exemplo, instillō, ās, āre, āvi, ātum, «derramar, instilar».

[Post 2825]

O latim nos jornais

Para a próxima, já sabe

      «Com Pergolesi, aplica-se como uma luva o conhecido dictum, segundo o qual “partem cedo aqueles que os deuses amam”. […] Em 1752, uma companhia itinerante de ópera italiana apresenta na parisiense Académie Royale o seu intermezzo (pequena ópera de cariz ligeiro) La serva padrona» («Uma vida demasiado breve salva pela fama póstuma», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 54). O jornalista explica, e muito bem, o que significa «intermezzo», mas usa uma palavra em latim, dictum, como se esta fosse a língua materna dos leitores. Dictum significa «sentença, dito engenhoso».

[Post 2824]

Léxico: «dismorfofobia»

Imagem: http://www.italway.it/

Azar

      «Aconteceu em 2006. Uma jovem de Penafiel que sofria de depressão e dismorfofobia (fobia de deformação física) recorreu a um hipnoterapeuta que numa das consultas, aproveitando o seu estado hipnótico, abusou sexualmente da paciente» («Psiquaitra violou paciente que estava grávida», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 22). Explicado, como eu recomendo sempre, mas mal explicado. O Dicionário Houaiss, por exemplo, define assim a dismorfofobia: «medo patológico de ser ou se tornar disforme».


[Post 2823]

Ortografia: «mal-empregado»

Mal-empregado!

      No programa 55 de Em Nome do Ouvinte, a linguista Regina Rocha explicou porque se deve usar mal-empregado, e não, como um ouvinte pretendia, mal empregue: «Ou seja: deverá dizer-se, neste caso, realmente “mal-empregado”. Por exemplo: “Com o currículo que tem, aquele rapaz é mal-empregado a servir café.” Ou então: “Este casamento não vai dar certo. Aquela rapariga é mal-empregada naquele homem.” Esta expressão “mal-empregado” ou “mal-empregada” foi sendo utilizada antes do aparecimento do tal termo “empregue”. E ganhou um significado próprio. Significa, sei lá, “imerecido”, “desaproveitado”, “desperdiçado”, constituindo-se mesmo como um termo composto — que aliás até vem já nos dicionários como adjectivo até com hífen: mal hífen empregado. Ora portanto temos aí já um termo com uma identidade própria, pelo que não ficaria aqui bem utilizar “mal empregue”. Sim, alguns dicionários registam-no. No Dicionário Houaiss: «que poderia ter melhor uso ou destino». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «empregado em vão; mal aplicado; desperdiçado».

[Post 2822]

Melhor/mais bem

Mais uma lição

      «O “homem” (no sentido “velvetundergroundsiano” e heroinómano de Waiting for the man) podia ter-se escondido “mais bem”. Melhor, diriam algumas almas gramaticalmente enganadas e mais escravas do momento» («O peixe dos arguidos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.11.2009, p. 39). E bem enganadas, pelo menos pela eufonia e pelo uso, pois melhor é comparativo de bom e mais bem é comparativo de bem. Assim, «ter-se escondido mais bem».

[Post 2821]

Léxico: «esparrela»

Todos caem

      «A GNR de Faro deteve em Almancil dois homens por captura ilegal de aves. Os detidos tinham na sua posse 32 armadilhas e 14 aves, entre tordos-pintos, toutinegras-debarrete-preto, felosas-assobiadeiras e piscos-de-peito-ruivo. Os suspeitos, de 34 e 57 anos, usavam armadilhas artesanais, também conhecidas como esparrelas» («Dois detidos no Algarve por captura ilegal de aves», Público, 19.11.2009, p. 27). Mais usada, na oralidade, é a expressão «cair na esparrela», que significa ser logrado. Os dicionários dizem que o vocábulo é de origem obscura.

[Post 2820]

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