Léxico: «dismorfofobia»

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Azar

      «Aconteceu em 2006. Uma jovem de Penafiel que sofria de depressão e dismorfofobia (fobia de deformação física) recorreu a um hipnoterapeuta que numa das consultas, aproveitando o seu estado hipnótico, abusou sexualmente da paciente» («Psiquaitra violou paciente que estava grávida», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 22). Explicado, como eu recomendo sempre, mas mal explicado. O Dicionário Houaiss, por exemplo, define assim a dismorfofobia: «medo patológico de ser ou se tornar disforme».


[Post 2823]

Ortografia: «mal-empregado»

Mal-empregado!

      No programa 55 de Em Nome do Ouvinte, a linguista Regina Rocha explicou porque se deve usar mal-empregado, e não, como um ouvinte pretendia, mal empregue: «Ou seja: deverá dizer-se, neste caso, realmente “mal-empregado”. Por exemplo: “Com o currículo que tem, aquele rapaz é mal-empregado a servir café.” Ou então: “Este casamento não vai dar certo. Aquela rapariga é mal-empregada naquele homem.” Esta expressão “mal-empregado” ou “mal-empregada” foi sendo utilizada antes do aparecimento do tal termo “empregue”. E ganhou um significado próprio. Significa, sei lá, “imerecido”, “desaproveitado”, “desperdiçado”, constituindo-se mesmo como um termo composto — que aliás até vem já nos dicionários como adjectivo até com hífen: mal hífen empregado. Ora portanto temos aí já um termo com uma identidade própria, pelo que não ficaria aqui bem utilizar “mal empregue”. Sim, alguns dicionários registam-no. No Dicionário Houaiss: «que poderia ter melhor uso ou destino». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «empregado em vão; mal aplicado; desperdiçado».

[Post 2822]

Melhor/mais bem

Mais uma lição

      «O “homem” (no sentido “velvetundergroundsiano” e heroinómano de Waiting for the man) podia ter-se escondido “mais bem”. Melhor, diriam algumas almas gramaticalmente enganadas e mais escravas do momento» («O peixe dos arguidos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.11.2009, p. 39). E bem enganadas, pelo menos pela eufonia e pelo uso, pois melhor é comparativo de bom e mais bem é comparativo de bem. Assim, «ter-se escondido mais bem».

[Post 2821]

Léxico: «esparrela»

Todos caem

      «A GNR de Faro deteve em Almancil dois homens por captura ilegal de aves. Os detidos tinham na sua posse 32 armadilhas e 14 aves, entre tordos-pintos, toutinegras-debarrete-preto, felosas-assobiadeiras e piscos-de-peito-ruivo. Os suspeitos, de 34 e 57 anos, usavam armadilhas artesanais, também conhecidas como esparrelas» («Dois detidos no Algarve por captura ilegal de aves», Público, 19.11.2009, p. 27). Mais usada, na oralidade, é a expressão «cair na esparrela», que significa ser logrado. Os dicionários dizem que o vocábulo é de origem obscura.

[Post 2820]

«Desamigar», uma proposta

Chegam atrasados

      No Ciberdúvidas, vi agora, também falam das novas palavras do New Oxford American Dictionary, e especificamente da palavra do ano, unfriend. E rematam: «Ficamos a aguardar, então, a recepção de perguntas sobre como traduzir ou adaptar a palavra unfriend para português.» Bem, como vimos, é tão intuitivo que não me parece que venha a registar-se uma avalancha de perguntas. O jornalista do Público também indicou a possível tradução: «desamigar». O vocábulo, além disso, já está registado nos dicionários, como o Houaiss: «interromper a amizade (de); desamistar(-se), desavir(-se)» e «cessar a relação (entre amantes); separar(-se)», ambos transitivos directos e pronominais.

[Post 2819]

Novas palavras inglesas

Desamigar

      Com a devida vénia, reproduzo, pela sua importância, um artigo publicado hoje no jornal Público, relativo às novas palavras registadas no New Oxford American Dictionary: «Unfriend — verbo, retirar alguém de uma rede social da Internet como por exemplo o Facebook, removendo o seu estatuto de “amigo”. Unfriend, que se poderia traduzir muito livremente por “desamigar”, é a palavra do ano 2009, segundo o New Oxford American Dictionary.
      A palavra é baseada no universo do Facebook, que tem mais de 300 milhões de utilizadores em todo o mundo, e ganhou a outras concorrentes como sexting (envio de sms sexualmente explícitos), funemployed (pessoa que aproveita estar desempregada para se divertir) ou birther (refere-se a quem acredita nas teorias da conspiração sobre a autenticidade do certificado de nascimento do Presidente norte-americano, Barack Obama).
      No blogue do New Oxford American Dictionary chama-se ainda a atenção para palavras compostas a partir de outras, destacando as relacionadas com o serviço de microblogging Twitter (twiterature, tweetaholic) e com o Presidente Obama (Obamanomics, Obamacons, Obamalicious).
      Noutros anos, o dicionário escolheu palavras como hypermiling (estratégias de aumentar o rendimento do combustível de um carro, poderia ser traduzido como “hiperquilometrar”), locavore (pessoa que consome apenas comida produzida localmente, em português seria qualquer coisa como “locávoro”), carbon neutral (neutro em termos de emissões de dióxido de carbono) ou podcast (registo áudio acessível através da Internet).
      As palavras do ano são incluídas nas versões actualizadas do New Oxford American Dictionary on-line. O anúncio da palavra do ano é sempre uma altura para discutir tendências sociais em blogues, jornais, no Twitter, até no Facebook. Nos últimos anos as palavras escolhidas têm vindo de áreas como economia, ecologia e tecnologia» («Unfriend é a palavra do ano e nasceu no Facebook», M. J. G., Público, 18.11.2009, p. 18).

[Post 2818]

Ortografia: «neonatologia»


Eles sabem lá

      «Acha possível que um dia», pergunta-me um leitor, «nas maternidades, os Serviços de Neonatalogia corrijam as tabuletas?» Não vejo que esse dia chegue. Na Universidade de Coimbra, a única portuguesa a figurar em tabelas internacionais dos melhores estabelecimentos de ensino superior, em Pediatria também há aulas de «Neonatalogia». Tantas sumidades por ali passam e nenhuma vê o disparate? Donde vem aquele a, se a formação da palavra é neonato+-logia. (No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lê-se que os elementos são neo-+nato+-logia. Mas como pode ser assim, se existe o vocábulo, adjectivo e substantivo, «neonato»?) Ultimamente tenho visto erros sem conta em manuais disponibilizados pelos docentes de certas disciplinas numa universidade cujo nome agora não me ocorre.



[Post 2817]

«Eficaz»/«eficiente»

Eficácia versus eficiência     


      No metro, dois estudantes universitários, um branco e um negro, discutiam acaloradamente a resposta a uma questão de um teste, talvez de Economia ou de Gestão. A empresa referida seria eficaz ou eficiente? Um, o branco, dizia que tinha respondido, e era, eficaz, porque a empresa geria bem os recursos. O outro dizia o contrário: eficiente é que diz respeito aos recursos. Estive para intervir, como tantas vezes faço, mas não o fiz. Embora tenha estudado os conceitos em disciplinas económicas, nem é preciso tanto: os conceitos tal como os registam os dicionários gerais chegam. Assim, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, eficiência é o «poder de realizar (algo) convenientemente, despendendo de um mínimo de esforço, tempo e outros recursos». Para o mesmo dicionário, eficácia é a «força para produzir determinados efeitos». Verba mollia et efficacia, diziam os Romanos. Ou seja, palavras suaves e eficazes, que produzem o seu efeito. Os conceitos andam, é verdade, muito confundidos.

[Post 2816]

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