Tradução: «suponer»


Suposições

      A Junta da Estremadura espanhola lançou uma campanha, financiada pelo Governo, sobre educação sexual. «As sessões de formação», lê-se na notícia do Público, «são itinerantes e incluem demonstrações com uma série de “brinquedos sexuais”, incluindo vibradores e bolas chinesas» («Extremadura quer ensinar jovens a masturbarem-se», Susana Almeida Ribeiro, Público, 15.11.2009, p. 20). Escreve a jornalista: «Também as associações de pais Cofapa e Concapa já denunciaram que a campanha supõe uma intromissão no direito das famílias à formação sexual dos seus filhos.» «Supõe»? Má tradução do espanhol: «Las asociaciones de padres de alumnos COFAPA y CONCAPA han denunciado hoy que la campaña “El placer está en tus manos”, promovida por el Consejo de la Juventud y el Instituto de la Mujer de Extremadura, supone una intromisión en el derecho de las familias a la formación sexual de los hijos» («COFAPA y CONCAPA denuncian intromisión de Extremadura en educación sexual», 15.11.2009, ADN, aqui). A jornalista devia ter visto o verbete «suponer» num dicionário de língua espanhola e o verbete «supor» num dicionário de língua portuguesa. Chegaria a uma conclusão muito simples: são tantas as semelhanças quanto as diferenças. Sim, o étimo, supponĕre, é o mesmo. Suponere, no contexto, traduz-se por «representar».


[Post 2807]

Luisiana e Louisiana

Como calha

      «O antigo congressista democrata do estado do Louisiana, William Jefferson, foi condenado a 13 anos de prisão num processo de corrupção que as autoridades descreveram como o “mais extenso de sempre” no Congresso norte-americano» («Antigo congressista do Louisiana condenado a 13 anos por corrupção», Público, 15.11.2009, p. 15). Porque não Luisiana? Até no Público, quando calha, escrevem assim: «Barack Obama obteve vitórias esmagadoras nos caucus nos estados de Washington, Nebrasca, Ilhas Virgens Americanas e nas primárias da Luisiana, ultrapassando Hillary Clinton em número de delegados» («Obama ultrapassa Hillary em número de delegados», Público, 11.2.2008, p. 1). Sim, o leitor atento reparou: «do Louisiana»/«da Luisiana».

[Post 2806]

Tradução: «to design»

Esboços

      «O custo de 5,3 mil milhões de dólares das eleições de 2008 (Casa Branca e Congresso) foi um recorde absoluto nos EUA e um sinal de como a lei do financiamento se tornou obsoleta. “Esse sistema não está a cumprir nenhum dos objectivos para que foi desenhado”, diz John Stamples, do think-tank libertário Cato Institute» («Campanhas americanas financiadas em exclusivo por privados», Rita Siza, Público, 15.11.2009, p. 4). Ainda que, em sentido figurado, desenhar seja «conceber, idear», a verdade é que é sempre mais conveniente usar um sentido próprio. Então, dir-se-ia: «Esse sistema não está a cumprir nenhum dos objectivos para que foi concebido.» Nas traduções do inglês, abusa-se desta acepção quando se traduz o verbo to design. Outro exemplo da edição de hoje deste jornal: «Mas a questão mantém-se: como reagirá se Obama não lhe der as tropas que precisa para pôr em prática a sua estratégia que desenhou?» («McChrystal, o guerreiro furtivo que quer ganhar o Afeganistão», Ana Fonseca Pereira, Público, 15.11.2009, p. 18). Claro que algo mais está mal na frase: ou sobra o pronome «sua» ou a forma verbal «desenhou».

[Post 2805]

Paralelo 38

Um paralelo

      Cara Luísa Pinto: recomendo que se escreva com minúscula inicial, como já tive oportunidade de dizer em relação aos pólos. Logo, paralelo 38. É também a opção tomada numa obra que estou a ler: «Cerca de dois meses e meio depois de as bem treinadas divisões da Coreia do Norte, armadas pelos soviéticos e pelos comunistas chineses, terem atravessado o paralelo 38 e entrado na Coreia do Sul, no dia 25 de Junho de 1950, e de terem começado os horrores da Guerra da Coreia, entrei eu em Robert Treat, pequena universidade do centro de Newark que recebeu o nome do homem que no século XVII fundou a cidade» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 15).

[Post 2804]

«Questões domésticas»?

Muito lá de casa

      «Num discurso que abarcou as questões domésticas americanas e a política externa, Rahm Emanuel garantiu que a Administração Obama continua comprometida e esperançosa num “final feliz” para o processo de paz no Médio Oriente e corrigiu as leituras dos que encaram a abertura de Obama ao mundo árabe como um remoque a Israel» («Judeus dos EUA frustrados com relação entre a América e Israel», Rita Siza, Público, 12.11.2009, p. 16). 
      Domésticas, só tarefas e animais. Para questões, é melhor internas. Claro que alguns jornalistas deliram com domestic flights, que traduzem por voos domésticos…

[Post 2803]

«Aos bochechos»

Expressões correntes     


      A propósito do processo «Face Oculta», Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, disse ontem à RTP: «Aquilo que tem sido uma surpresa negativa é que o que tem chegado, digamos, é um pouco às bochechas, digamos, aos bocadinhos.» Nunca saberemos, nem isso interessa, se foi lapso ou se Noronha do Nascimento acha que é assim que se diz. O Público de hoje teve o bom senso de corrigir: «O presidente do STJ, Noronha Nascimento, disse à RTP que estranha que as certidões relativas ao processo Face Oculta lhe estejam a chegar aos “bochechos”. “Aquilo que tem sido uma surpresa negativa é que o que tem chegado tem sido aos bochechos, aos bocadinhos, não percebo por que é que não se envia tudo ao mesmo tempo”, afirmou» («Noronha estranha chegada de certidões aos “bochechos”», Público, 12.11.2009, p. 5).

[Post 2802]

«Decree-law» ou «executive law»?

Confesso

      Caro M. L.: eu também estou surpreendido. Nunca tinha visto o termo decree-law como equivalente do nosso decreto-lei. Até pensei, confesso a minha ignorância neste ponto, que fosse invencionice mal-enjorcada do tradutor (trata-se de uma tradução de português para inglês). Contudo, vejo que no nosso Parlamento traduzem (veja aqui na Base de Dados Terminológica e Textual) decreto-lei por executive law.

[Post 2801]

«Leges artis»

As regras da arte

      Um leitor, que me sabe «agora muito ocupado com o latim», pergunta-me como se deve escrever: leges artis, legis artis ou artis legis, porque já viu todas as variantes. Quer também saber se se deve escrever e dizer «este tratamento está de acordo com a leges artis» ou «este tratamento está de acordo com as leges artis». Depois de citar alguns exemplos colhidos em diplomas legais e em acórdãos, remata: «É preciso um prontuário de expressões latinas para uso nos tribunais por magistrados e médicos e, já agora, no DR?» Sem preâmbulos: deve dizer-se «as leges artis». Não há outra forma. Vejamos as coisas ao contrário: a tradução é as regras da arte [médica]. Lex, legis é um nome imparissilábico da terceira declinação. No nominativo plural, que é o caso do sujeito, é leges. A forma legis é o genitivo singular, que é principalmente o caso do complemento determinativo do nome, logo não se podia formar a expressão legis artis. Da arte diz-se em latim artis, genitivo singular de ars, artis, também da 3.ª declinação. É então leges artis. Quanto ao que pede, um prontuário de expressões latinas, já existe. Sobretudo no Brasil, há muitos e excelentes. Talvez os revisores da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e alguns lêem este blogue, possam vir aqui explicar porque é que não corrigem estas barbaridades.

[Post 2800]

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