Tradução: «marcher»

Marcha

      Podia ler-se, imaginem, isto: «Few could accept the hollow rhetoric that the marchers had made their point.» Está em causa, adivinharam, a tradução de «marchers». «Marchantes»? Tem mais acepções, é verdade, mas a principal é a de «aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos». Então, que nome tem aquele que participa numa marcha («manifestação destinada a atrair a atenção das autoridades para determinados problemas de interesse geral, ou para alguma reivindicação particular», como se lê no Dicionário Houaiss)? É isso mesmo: participante na marcha ou manifestante.

[Post 2775]

Ortografia: «supercuecas»


Supercivilizado

      Parece que Lourenço, o super-herói, partiu pelo mundo fora à procura das suas cuecas vermelhas. Não sei se as encontrou, mas decerto que sim. Quem não encontrou as regras sobre o uso do hífen com o elemento de formação de palavras super- foi o editor. Super só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por h ou r. É difícil? Deve ter sido uma opção estética…

Ortografia: «antipobreza»


É raro


      «Estes são os resultados preliminares do inquérito realizado pela Amnistia Internacional Portugal, em parceria com a Rede Europeia Antipobreza e o Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa» («Maioria dos portugueses diz que pobreza veio para ficar», Público, 21.10.2009, p. 9).
      É isto que eu defendo: seja lá qual for a forma como, oficialmente, nos aparece a grafia, temos obrigação de escrever correctamente. No caso, em inglês é European Anti-Poverty Network (EAPN). Claro que as sumidades nacionais tinham de copiar: Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal (REAPN).

Ortografia: «alter ego»

O outro eu


      Há duas ou três semanas, um editor telefonou-me para saber como se escreve a locução substantiva «alter ego», que não encontrava em nenhum dicionário. Consulto dois, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss, e em ambos encontro alter ego. Mas compreendo a dúvida, pois não é raro ver-se grafado com hífen: «Mas não se esperava que elas [as mulheres], subitamente, dominassem um disco do alter-ego de Paulo Furtado, relegando o cantor para segundo plano» («Um ‘homem tigre’ no mundo das mulheres», Luís Filipe Rodrigues, Diário de Notícias, 29.09.2009, p. 52).

Léxico: «censório»

Meu amigo

      Na emissão de anteontem do programa Contraditório, da Antena 1, Carlos Magno, provavelmente a pessoa em Portugal que mais vezes usa em vão a palavra «amigo», embalado na facilidade de discurso, de vez em quando inventa palavras: «[…] e acho que todos nós temos direito a ser o que somos sem que máquinas inquisitoriais ou censoriais venham agora aqui […]». Não existem todos os pares de homófonas que nos passam pela cabeça: censual/sensual, censorial/sensorial… Não, não: o adjectivo é censório. Que formará, com «sensório», outro par: censório/sensório.

Citações imperfeitas

Momento alto


      O padre Carreira das Neves tem, viu-se ontem no debate com José Saramago, uma perigosa propensão para resumir o que está a dizer com um «e tal», mas desta vez as coisas correram-lhe manifestamente mal. «Quando José Saramago diz que a Bíblia não sei quê e tal é um… é um…» Atalhou, agastado, prontamente Saramago: «Eu nunca disse: “A Bíblia não sei quê e tal.” Ou reproduz as minhas palavras, ou então...» «Tem toda a razão, meu caro amigo.»

Sobre «ruptura»

Rotura, ruptura, rutura…


      Prefiro «ruptura» a «rotura», e nunca pronuncio o p. E o leitor? Vem esta reflexão a propósito de ontem, no frente-a-frente, na SIC Notícias, entre Saldanha Sanches e Paulo Rangel (logo depois do debate alienante entre Carreira das Neves e José Saramago), o fiscalista ter articulado claramente o p de «ruptura». Fui ver o que dizem as obras relativas ao Acordo Ortográfico de 1990. Pelo que vejo, são consensuais sobre a queda do p neste vocábulo, excepto na variante brasileira do português (o que confirmo na 5.ª edição do VOLP). Quem sabe se não se deve à esperança que alguns falantes acalentam de, se agora articularem sonoramente cada c e cada p, depois da entrada em vigor do acordo não terem de prescindir deles…

Ortografia: «hidropisia»

Um erro lamentável


      «Já li, não sei onde, que as palavras “autopsia”, “necropsia” e “biopsia” não devem levar acento — embora muitos os usem...», escreve-me um leitor. «Há dias surgiu-me, numa leitura, a frase «a chamada hidrópsia fetal (que pode ser fatal)...». Procurei no Dicionário Médico de Manuila et al. e nos dicionários on-line Infopédia e Priberam, assim como no Portal da Língua Portuguesa e não encontro “hidropsia” nem “hidrópsia” — só aparece “hidropisia”. Nos meus dicionários em papel (Houaiss, da Academia, da SLP) é o mesmo. Mesmo o velho Faria (1855-57) só tem “hydropesia ou hydropisia” (aliás, das outras, só tem “autopsia”).» O leitor conclui escrevendo que no Google encontra tanto «hidropsia» como «hidrópsia».
      Ainda bem que não encontrou em nenhum dicionário: essas grafias, apesar de muito usadas, estão erradas. É mais um erro médico — mas deste não podemos pedir indemnização. Hidropisia é o termo médico para o derramamento de líquido seroso em tecidos ou em cavidade do corpo. (Ao que padece de hidropisia chama-se hidrópico.) Ora, o elemento de composição pospositivo -opsia (e a variante -ópsia) é usado em compostos eruditos da terminologia científica e está relacionado com «visão» e «exame»: acianopsia, acromatopsia, anopsia, biopsia, diacromatopsia, dictiopsia, discromatopsia, discromopsia, eritropsia, fonopsia, fotopsia, hemianopsia, irisopsia, macropsia, micropsia, miopsia, necropsia, oxiopsia, paropsia, protanopsia, teopsia, xantopsia, zoopsia… Temos então que os falantes não apenas fazem a língua, também a desfazem.

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