Derivação imprópria


Uma chiclete portuguesa


      «Top of mind é como a gíria publicitária classifica as marcas que se associam directamente ao produto. À semelhança de fenómenos como a Gillette, muitos referem-se à pastilha elástica como simplesmente chiclet» («Chiclets comemora 75 anos em Portugal», Renato Duarte, Público, 22.10.2009, p. 9). Em gramática damos-lhe o nome de derivação imprópria, assunto já aqui abordado mais do que uma vez. E para ser inteiramente correcto, o jornalista deveria ter escrito «chiclete», pois o termo é usado e já está dicionarizado.

Selecção vocabular

Digo o mesmo

«Pena foi que Edite Estrela, num estilo que não a deslustra, entendesse prosseguir na mesma senda de disparate-puxa-disparate e tratasse de ser mais saramaguista do que Saramago, e passou ao ataque a Mário David, acusando-o de ter tido uma “atitude inquisitorial”. A frase soa bem, apesar de nada ter a ver com a boutade do seu colega no Parlamento Europeu, pelo que se espera que o disparate fique por aqui, já que a cereja até já está colocada no bolo» («De novo o problema da liberdade de expressão», José Manuel Fernandes, Público, 22.10.2009, p. 38). A frase do director do Público também soa bem, e especialmente aquele «boutade», que duvido, todavia, que se aplique com inteira propriedade no contexto. Não escrever português complica sempre um pouco…

Textualidade bíblica

A Bíblia de Saramago

Da polémica (e publicidade) em torno da mais recente obra de Saramago, retive pelo menos duas coisas. Uma foi ter falado ao telefone (mas era engano) com uma senhora idosa que me disse (fui, é uma fraqueza recorrente, demasiado simpático) que Saramago escreveu a Bíblia. Tentei desconvencê-la, mas foi impossível. Outra foi a crónica de Miguel Gaspar no Público, de que cito esta frase: «“Eu leio apenas aquilo que lá está”, escreve Saramago, como se Saramago não soubesse que a Bíblia, como todos os textos, é aberto à pluralidade de leituras» («O Deus de Saramago», Miguel Gaspar, Público, 22.10.2009, p. 40). Não é preciso ter cursado Linguística para se saber que é um disparate, por ser um argumento reducionista, a afirmação do «nosso» Nobel da Literatura.

Sistão-Baluchistão

Imprevisível

      Também é de saudar vivamente esta forma de grafar um topónimo que nos é estranho. Do Público, devo dizê-lo, esperava que grafasse, sei lá, Sistan-Baluchistão, a macaquear o inglês Sistan-Baluchistan. Mas não. «O Paquistão prometeu ontem ajudar o Irão a capturar os responsáveis por um ataque suicida que, no domingo, matou dezenas de pessoas na província do Sistão-Baluchistão» («Os pasdaran pedem licença para entrar no Paquistão», Público, 22.10.2009, p. 14).

«Pasdar/pasdaran»

Muito bem

«O general pasdar Mohammad Pakpour, cuja força foi directamente visada no ataque dos “Soldados de Deus”, não especifica, na sua declaração à televisão estatal iraniana, se pretende autorização do Governo de Islamabad ou das autoridades iranianas para perseguir os rebeldes além fronteira» («Os pasdaran pedem licença para entrar no Paquistão», Público, 22.10.2009, p. 14). Não é todos os dias que se vê tal respeito pelos plurais de termos estrangeiros. Em língua persa, pasdar significa «guarda», e pasdaran é a designação informal dos Guardas da Revolução, uma força paramilitar iraniana. (Só é pena o advérbio além-fronteiras estar duplamente mal grafado.)

Ortografia: «macarthismo»

Caça às incoerências

Numa tradução, leio «McCarthysmo». Na Infopédia, no verbete «Cornelius Lanczos», lê-se «maccartismo». No verbete «Frentes da Guerra Fria: 1946−1962», lê-se «macartista». No verbete «Joseph McCarthy», já se lê «McCarthismo». Como diria a minha avó materna, quantos mais são (nos departamentos das editoras), menos fazem. O Dicionário Houaiss regista macarthismo e a variante mccarthismo. O vocábulo refere uma época histórica? Não. Na definição deste dicionário, é a «prática política que se caracteriza pelo sectarismo, notadamente anticomunista, inspirada no movimento dirigido pelo senador Joseph Raymond McCarthy (1909−1957), durante os anos 1950, nos E.U.A.». Logo, deverá grafar-se com minúscula inicial. O th deve-se ao facto de «os termos derivados de palavras estrangeiras com grafias estranhas ao português preservarem, neste dicionário, as características da grafia original, de acordo com praticamente todas as convenções ortográficas do português estabelecidas entre o Brasil e Portugal».

Major/minor II

Será «especialização»?


      Decerto que ainda se recordam da questão relativa à tradução de major/minor. Foi suficientemente controversa, e com comentários de académicos, à primeira vista os que teriam uma opinião mais abalizada, para se poder concluir que não é evidente. Hoje trago mais uma frase e a respectiva tradução. «In his junior year, X elected to become a prelaw sociology major.» As especificidades de cada realidade trazem sempre dificuldades ao tradutor, que desta vez verteu: «No seu primeiro ano, X escolheu especializar-se em Sociologia das Leis.»

Conceitos


Trocas

Rui Zink, escritor e professor universitário, escreveu recentemente: «“Estou cansada, não me chateies, dói-me a cabeça” ou a tirada mais cruel de todas: “Cheiras a álcool”, por isso pus-me a fazer zapping, agora já nem zapping é, perdeu um p, porque se tornou uma palavra aceite pelas gramáticas da língua portuguesa, a malta diz mal do acordo ortográfico como se aqui fôssemos todos lordes da língua, não somos, e agora é zaping que se diz, como pisa, já não é pizza, é piza, nem sei se tem z ou se tem s, só sei é que já nem sabe à mesma coisa, olhe quero uma piza (ou pisa) de cogumelos com fiambre, até parece que tem menos cogumelos e menos fiambre […]» («É muito triste ser homem», Metro, 14.10.2009, p. 9). «Aceite pelas gramáticas»? Troca de conceitos: os dicionários é que acolhem os vocábulos da língua — as gramáticas são obras que contêm os princípios e as normas da organização e funcionamento da língua. Se tivesse sido um cronista social a confundir os conceitos, ainda se aceitava.

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